Vitória Ferreira 
Mestranda do PPGJOR/UFSC e pesquisadora do objETHOS

Já estamos esgotados de ouvir falar em desinformação. Mas também estamos cansados de tentar combatê-la ou encontrar ao menos respostas enquanto pesquisadores a esse problema, que parece não ter fim e nem solução em curto prazo, e vem atingindo a sociedade em geral e abalando o jornalismo.  

A desinformação é um dos problemas mais proeminentes que nos deparamos hoje em dia e afeta a nossa vida instantaneamente, mesmo quando tentamos desviar. Somos bombardeados por informações a todo o momento, na palma da mão, e isso exige atenção. Inclusive, uma pesquisa divulgada recentemente pelo grupo Globo confirma que as mídias sociais são os canais preferenciais das pessoas na busca por informações e notícias. A polarização, a presença da pós-verdade e das bolhas informativas condicionam ainda mais a propagação da desinformação sobre qualquer assunto. Não é só sobre política, aliás, nunca foi. Não há assunto ou pessoa que passe ileso a esse fenômeno. Por isso, cada dia mais, é preciso abrir os olhos e desconfiar.

Desconfiar não do jornalismo sério e profissional que proporcionamos e colocamos à disposição enquanto jornalistas, através dos processos de apuração e checagem, mas sim das informações que circulam por aí com títulos sensacionalistas que distorcem as informações, dos links desconhecidos de notícias que circulam em grupos do WhatsApp e demais mídias sociais e, informações compartilhadas sem referência ou fonte.

Além de desconfiar dos links duvidosos e títulos desinformantes que nos deparamos, é preciso checar. Os veículos jornalísticos e agências de checagem estão aí para isso. O jornalismo está ancorado na função de narrar os fatos e prestar serviço à população e mesmo em tempos obscuros que o cercam, ele é forte aliado na luta contra a desinformação. 

As agências de checagem somaram-se ao jornalismo para tentar dar suporte, e  por mais que tenham muita importância no processo de combate a desinformação, não conseguem atingir sozinhas o controle da desordem informativa. É preciso esforços coletivos de toda sociedade.

Em 2018, enquanto o Brasil atravessava as eleições presidenciáveis, vimos o show de horror começar em relação à desinformação. Informação falsa para cá, informação distorcida para lá. Com o passar dos anos, o problema se alastrou e saiu de controle – se é que existiu um dia. Os olhos se voltaram ao problema da desinformação, despertando atenção não só dos jornalistas que precisaram se desdobrar para afirmar a importância da profissão, mas também das grandes empresas e sociedade civil.

Quando falo que precisamos reunir esforços coletivos para ao menos conter a circulação desenfreada de conteúdo desinformante, me refiro primeiramente a esforços básicos e individuais que cada ser humano deve ter na hora de buscar informações, como procurar se informar nos veículos jornalísticos, buscar a verificação da fonte, ter o cuidado com links desconhecidos e títulos sensacionalistas e denunciar conteúdos desinformantes que circulam. 

Em um segundo momento e, não menos importante, faço referência aos esforços das plataformas de mídias sociais para constatarem os conteúdos que circulam por lá e não resistirem em remover os conteúdos desinformantes. Se compararmos a um tempo atrás, de fato as plataformas vêm apresentando pequenos sinais e ações, mas não são eficientes, estruturadas e transparentes o suficiente para combater a desordem informativa, visto que os conteúdos continuam circulando. 

Em um terceiro momento, entendo ser necessária a criação de campanhas de grande alcance contra a desinformação. Ações por parte dos veículos jornalísticos para colaborar no processo de contenção já existem, mas não é unanimidade. Parcerias público-privada poderiam se somar a essas campanhas. Mas não parece haver interesse público em combater a desinformação, já que muitas vezes são vetores e auxiliam na disseminação da mesma. E aqui, aproveito para entrar em outro ponto que seria fundamental nesse processo, como a responsabilização das pessoas e agentes públicos que propagam desinformação. Hoje no Brasil, a lei deixa muito a desejar e age lentamente. Campanhas educativas sobre os cuidados que devemos ter ao buscar informações também são importantes aliadas a esse processo. Acredito que os veículos podem ajudar muito nessa parte, pois o jornalismo ganhou um rival perigosíssimo e que parece perdurar incansavelmente no campo de batalha. 

Talvez a desinformação não saia mais de campo e seja o maior adversário do jornalismo para recuperar a sua credibilidade, colocada em cheque pela desordem informativa que vivenciamos. Mas isso é assunto para outro momento. Aqui, cabe a discussão sobre os esforços necessários para ao menos controlar a desinformação, causada por diversos tipos de notícias, sejam elas verdadeiras, parcialmente verdadeiras ou falsas. 

Combater a desinformação, diante do cenário político e econômico que assola o Brasil, parece impossível.  É preciso esforços coletivos e mobilização de movimentos sociais, órgãos regularizadores, organizações da sociedade civil, desenvolvedores de políticas públicas e o setor privado para, ao menos, tentar controlar a desinformação. Falando assim, até parece simples, mas é um enigma difícil de decifrar e solucionar.  Enquanto não tivermos a união coletiva do que citei, uma lei que auxilie e atue no combate à desinformação, viveremos à mercê de uma avalanche de informações, precisando tomar cuidado com o que lemos e ouvimos, não só na internet, mas fora dela também. A desinformação está por toda parte. Sejamos resilientes e responsáveis na busca de informação verossímil e de qualidade, sinônimos do bom jornalismo e só assim poderemos tentar remar contra o problema mais proeminente dos últimos tempos e quem sabe contar com o esforço coletivo para vencer essa batalha.

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