Sylvia Debossan Moretzsohn
Jornalista, professora aposentada da UFF, pesquisadora do ObjETHOS

De que serve a boa formação (acadêmica e não só) se pessoas habituadas a refletir e ponderar perdem essa condição em momentos cruciais, exatamente quando essas qualidades são mais necessárias?

Fiz essa pergunta, sem o ponto de interrogação, num texto que publiquei em meu mural no Facebook no dia 27 de março. Era a propósito do que eu testemunhava sobre a reação (nas redes e não só) ao que se via e lia sobre a guerra na Ucrânia. Manifestava meu espanto com a rapidez com que pessoas serenas, sensatas, bem formadas e informadas, críticas e mesmo cultas, no sentido tradicional do termo, aderiam automaticamente a esse inédito rolo compressor da propaganda ocidental, a ponto de rejeitar imediatamente qualquer tentativa de contextualizar e compreender o conflito, como se isso não importasse ou, pior, como se fosse um pretexto, mal ou bem disfarçado, para justificar a invasão ou, mais grave ainda, para apoiar Putin como herói do combate ao imperialismo norte-americano (como, aliás, fazem algumas pessoas também serenas, sensatas e bem formadas, para meu igual espanto).

Se recapitularmos o que ocorreu nos meses que antecederam o início da guerra, veremos que prevalecia o descrédito e a ironia diante do discurso de lideranças ocidentais, em particular do presidente norte-americano, alertando para o risco de uma invasão negada tanto pelo presidente russo quanto pelo ucraniano, e que nunca acontecia. Em meio à avalanche de memes e piadas, o momento propiciou muitas análises, em especial à esquerda, nos canais alternativos à mídia hegemônica e em intervenções nas mídias sociais, que apontavam a complexidade da teia de interesses que envolvia a política internacional, os movimentos que se seguiram à divisão do mundo após a Segunda Guerra, e buscavam contextualizar o conflito entre os dois países, desde pelo menos o Euromaidan, ou “Primavera Ucraniana”, que em 2014 resultou na deposição do presidente pró-russo, e tudo o que daí decorreu, envolvendo os interesses e as ações da Otan na região.

Foram também recorrentes as referências à crescente atuação de grupos neonazistas – dizendo melhor, nazistas mesmo, porque assumem o ideário original de Hitler, incluindo o antissemitismo – no país, e à exaltação oficial à memória de Stepan Bandera, líder nazista à época da Segunda Guerra. Da mesma forma, recordava-se a trajetória do presidente ucraniano, um comediante que se elegeu com o típico discurso da “antipolítica” comum às atuais lideranças de extrema-direita pelo mundo afora, com uma particularidade que deveria render análises mais profundas sobre a indústria cultural dos novos tempos, pois não é todo dia que o protagonista de uma série televisiva encarna o papel que representará de fato na política, nem que o título desta série – O Servo do Povo – seja praticamente o mesmo nome do partido – Servos do Povo – que esse comediante fundará para concorrer à presidência.

Então, em 24 de fevereiro, Putin ordena a invasão da Ucrânia, Zelensky é alçado ao patamar de Churchill e é como se toda essa história desaparecesse, e quem a recordasse fosse automaticamente acusado de defender o agressor. O conflito é reduzido a um embate entre mocinhos e bandidos ou, melhor dizendo, a uma luta dos Bons contra o Grande Vilão, não por acaso frequentemente comparado a Hitler, como na montagem abaixo.

E a remissão histórica ao nazismo e ao comunismo é “desenhada” desta forma, reiterando a velha associação entre os dois “extremos”, igualmente execráveis, que só poderiam parir um monstro:

Como é possível?

Num artigo no semanário português Expresso, Miguel Sousa Tavares pretendeu “acabar de vez com este sufoco” (mesmo sabendo que seria um esforço inútil), avisando que iria repetir, a cada parágrafo, a seguinte frase: “A invasão e a guerra que a Rússia levou à Ucrânia não têm justificação. Os massacres e os assassínios deliberados de civis não têm perdão”. E justificava:

“Digo isto não só porque é o que penso e já escrevi antes mas também para ficar mais uma vez lavrado em acta. Pois é aqui que chegámos, é aqui que estamos e é neste clima que, a propósito da guerra na Ucrânia, estamos a viver: num clima de intimidação concertada sobre o pensamento como nunca antes vivi em 30 anos de escrita em jornais.

Quem não pensa exactamente segundo a cartilha pronta a pensar fornecida pela NATO e pelos países-guia do mundo ocidental é imediatamente catalogado como amigo de Putin e cúmplice moral das atrocidades russas na Ucrânia. Portanto, é preciso repetir:

‘A invasão e a guerra que a Rússia levou à Ucrânia não têm justificação. Os massacres e os assassínios deliberados de civis não têm perdão’.”

Mas logo em seguida afirmava: “Eu sei que dizer isto é inútil. Não se trata de discutir pontos de vista, até úteis para o futuro, de rebater argumentos ou revisitar a história”. Por causa da ignorância, da desonestidade intelectual ou da pura e simples rejeição ao diálogo que ele constatava. De tal modo que podemos nos fartar de dizer que a invasão e a guerra não se justificam e são condenáveis, que não adianta: estaremos sempre acusados de apoiar o inominável. E o que temos a dizer depois disso – precedido pela “adversativa”, o famoso e execrável “mas…” – não será ouvido.

Vimos que as sanções econômicas e políticas à Rússia foram acompanhadas de medidas semelhantes na área cultural, a ponto de cancelarem mostras de filmes de Tarkóvsky ou cursos de literatura sobre a obra de Dostoiévsky. Fora algumas bobagens na área gastronômica, incluindo o “cancelamento” do estrogonofe. Mas isso dá um pouco a medida do delírio a que chegamos nessa história.

No campo da comunicação via plataformas, um aviso recente da Google aos donos de sites que veiculam anúncios do Adsense (o sistema de anúncios da empresa) dizia o seguinte:

“Olá, editor.

Devido à guerra na Ucrânia, vamos pausar a monetização de conteúdo que tire proveito, negue ou tolere a guerra.

Já aplicamos medidas relacionadas a declarações sobre a guerra na Ucrânia quando elas violam as políticas existentes. Por exemplo, a política de conteúdo perigoso ou depreciativo proíbe a monetização de conteúdo que incite a violência ou negue eventos trágicos. Esta atualização tem como objetivo esclarecer e, em alguns casos, ampliar nossas orientações para editores relacionadas a este conflito.

Essa pausa inclui, mas não se limita a declarações que sugerem que as vítimas são responsáveis pela própria tragédia ou exemplos semelhantes de atribuição de culpa a vítimas, como declarações alegando que a Ucrânia está cometendo genocídio ou está atacando os próprios cidadãos de maneira intencional”.

Não precisamos entrar nos detalhes do tipo de controle que as plataformas costumam fazer, e que pune publicações inocentes, mas mantém outras evidentemente violentas e deletérias. Talvez seja mesmo resultado da precária inteligência artificial, incapaz de discernimento que humanos mais ou menos capazes de pensar estão acostumados a fazer. Talvez seja outra coisa. Mas é interessante ressaltar este detalhe do texto: “a pausa inclui, mas não se limita…”. Então, qual seria o limite para a pausa? Como o algoritmo avaliaria, qualitativamente, os textos publicados nesses sites? “Adversativas” à “cartilha pronta a pensar” da Otan?

Uma medida como esta demonstra o tipo de filtro que se estabelece para consolidar a “intimidação concertada sobre o pensamento”, e que mobiliza com rara competência as paixões que toda guerra desperta, diante da tragédia que inevitavelmente causa. Nesse sentido, o massacre de Bucha foi particularmente eloquente, pelas reações que provocou. Num artigo no Público, de 6/4/2022, Maria João Marques mencionou uma “nova categoria no espaço mediático”, a dos “negacionistas dos crimes russos na Ucrânia”, e ironizou: “Tudo pode ser questionado. Há quem questione se a Terra é plana”.

Uma semana depois, o major-general Carlos Branco, após discorrer sobre as distinções entre os comentaristas (“militantes”, “dúplices” e “cândidos”), argumentava:

“Não sei se foram russos ou paramilitares ucranianos os perpetradores o massacre de Bucha. Talvez por ter vivenciado situações idênticas, é meu dever interrogar-me sempre sobre elementos factuais que não se articulam facilmente com interpretações simplistas. (…) Apesar das certezas do momento, (…) muitas vezes o que parece não é.

Os dramáticos acontecimentos de Bucha suscitam interrogações incómodas. Porque é que o presidente da Câmara, na visita que fez à cidade no dia 31 de março, após a retirada russa, disse que estava tudo bem e não referiu quaisquer cadáveres (entrevista ao canal Ukraine 24, a 1 de abril)? Porque é que a Guarda Nacional ucraniana, na operação de limpeza realizada no dia 1 de abril, não deu conta de mortos nas ruas? Porque é que a primeira menção aos mortos só é feita três dias após a partida das tropas russas? Porque é que a esmagadora maioria dos corpos tinham uma braçadeira branca? Porque é que corpos encontrados em outras partes da cidade se encontravam próximos de restos da ajuda alimentar russa? Não é notável a coincidência dos corpos na estrada se encontrarem em posições alternadas com uma separação regular entre eles? Será que estamos esquecidos do comportamento das tropas russas noutros locais, quando confrontadas com população hostil, tantas vezes mostrada nas televisões? O que os teria então levado a adotar um comportamento diferente em Bucha? As interrogações não ficam por aqui.”

Pois não ficam… desde que haja intenção de interrogar.

Então acrescento à minha pergunta original: como é possível tomar as imagens pelo seu valor de face, especialmente numa guerra, depois de tudo o que se conhece sobre enquadramento, manipulação de imagens, encenação para as câmeras, já exaustivamente documentado em tantos estudos acadêmicos e relatos de correspondentes? Quando se joga para o alto toda a razoabilidade supostamente conquistada por anos de estudo e experiência, o que se pode esperar da aposta no esclarecimento?

A velha máxima de que, numa guerra, a primeira vítima é a verdade, é muito… verdadeira, porque toda guerra é também, necessariamente, uma guerra de informação – e contrainformação, ou desinformação, exponencialmente ampliada nos dias de hoje, por motivos mais ou menos óbvios. Se antes da internet já não se podia confiar nas notícias que os jornais publicavam em tempos de guerra, imagine-se agora, no interminável, ininterrupto e muito bem articulado tiroteio no mundo das redes.

Mas talvez devêssemos acrescentar uma vítima igualmente fundamental nesse contexto: porque a tomada apriorística de partido numa situação dessas significa a morte do argumento. Ou das “adversativas”, que estão na base da dúvida que sustenta toda reflexão.

No texto que publiquei no Facebook há três semanas eu levantava a hipótese de, mesmo sem conhecer suficientemente o universo psi, existir um gatilho emocional que é acionado em momentos assim, e que faz explodir toda a lógica argumentativa que nos guiava até então. Como se essa lógica fosse um peso que nos sufocasse e do qual nos libertássemos subitamente diante de um acontecimento chocante, para mostrarmos o que “realmente” pensamos. Ou melhor: sentimos, que é o que afinal “realmente” importa, porque revelaria o que “realmente” somos.

Seria importante esclarecer como funciona esse processo que nos leva a essas manifestações tão contrárias ao esperado. Inclusive porque esse gatilho tem consequências políticas muito evidentes.

Quem sabe é este o componente que falta para entendermos melhor a alegoria da caverna, que, por ter sido formulada há mais de dois milênios, já nos deveria alertar para a dificuldade de nos livrarmos do mundo feito de sombras.

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