Vanessa da Rocha
Jornalista, mestranda do PPGJor/UFSC e pesquisadora do objETHOS

Uma cena num supermercado de Florianópolis que era para ser um ato genuíno de tentar fazer rir em tempos difíceis, foi capaz de unir bolsonaristas e lulistas – no descontentamento. 

Era só um comentário irônico sobre o preço do pão que estava salgado. Muito caro. Digno de fazer seguir o método Maíra Cardi à risca e cortar o carboidrato de vez! Quando a atendente anunciou o valor, que acabara de subir (de novo), ouviu como resposta: “Que saudade do Temer!”. Um silêncio se estabeleceu na fila da padaria e olhares enviesados denunciaram a insatisfação.

É. Temer não é carismático, mas há um fundo de verdade no comentário. Em 2017, época do mandato de Michel Temer, a inflação estava em 2,95% (IPCA). Já 2021 fechou  com a inflação em dois dígitos chegando à média anual de 10,06%.

Com o aumento dos preços, os que têm os menores salários sofrem os maiores impactos. E aí se enquadram os jornalistas. Há estados brasileiros que pagam valores próximos de um salário mínimo que está em R$ 1.212.

O piso do jornalista é definido a partir de convenções e acordos coletivos e tem diversas variações pelo país. Conforme o portal da Fenaj (Federação Nacional dos Jornalistas), o menor valor fica em Pernambuco (R$ 1.388,77) e o maior no Paraná (R$ 3.810,69).

Conforme o portal da Fenaj, o valor de R$ 1.388,77 é do ano-base 2017/2018. Visitar o portal do Sinjope (Sindicato dos Jornalistas de Pernambuco) para saber o valor atual é ter clareza da decadência das condições de trabalho dos profissionais da imprensa pernambucana. São notícias de atrasos nos salários, paralisações e greves, que denunciam as dificuldades enfrentadas.

Pernambuco fica no miolo do nordeste, região com alta incidência de ataques físicos e violentos contra profissionais de imprensa, sobretudo em cidades pequenas em que radialistas e comunicadores locais são um dos poucos meios de comunicação e se tornam alvos de grupos criminosos ligados a políticos que não admitem o poder fiscalizatório do jornalismo. O último relatório Violência Contra Jornalistas e Liberdade de imprensa no Brasil da Fenaj indicou 6 casos de agressões físicas no nordeste em 2021, sendo um caso de assassinato na Bahia.

Saber que o salário de pouco mais de mil reais é inferior à média das mensalidades dos cursos de Jornalismo nas universidades privadas e que a profissão é alvo recorrente de ataques, pode desencorajar muitos jovens a seguir na carreira. E talvez a baixa remuneração rebaixe ainda mais o Jornalismo ao ser um fator limitante para avançar nos estudos. Apesar da relação intrínseca com a busca pelo conhecimento inerente à profissão, 49,7% dos jornalistas não passaram da graduação, conforme o Perfil do Jornalista Brasileiro de 2021.

O salário do jornalista é o valor recebido pelo tempo em que o profissional estará entregando técnica profissional para a empresa que trabalha. Entrega, apuração, dentro de uma série de critérios com zelo pela informação, pelas fontes e pelo público. O produto criado pelo jornalista é a informação, que dará lucro para a empresa e credibilidade, quando apurada tecnicamente. É dever do jornalista zelar pela ética e resistir em caso de pressão para critérios que violem os códigos deontológicos, mas num contexto de remuneração baixa e mercado saturado, o jornalista pode ter a sua atuação limitada pelo medo e pelos fatores financeiros.

Ter um piso baixo desqualifica a profissão. O Brasil tem um longo histórico de desvalorização institucional do Jornalismo. São várias ações que vão desde a queda da obrigatoriedade do diploma até o fim da exigência do registro profissional. São inúmeros os casos em que o Executivo, o Legislativo e o Judiciário agiram pelo enfraquecimento do Jornalismo. E a quem interessa que o Jornalismo não avance em qualificação? A quem interessa que o jornalismo tenha seu poder fiscalizatório enfraquecido?

Na pós-verdade, a desinformação está disponível a um clique nos smartphones de todos. Não à toa, o Brasil é um dos países com população mais propensa a consumir conteúdos falsos. Por aqui, a educação básica não foi priorizada e há alta incidência de analfabetismo funcional.

Mesmo que o piso seja apenas um valor básico e referencial, saber a remuneração que é efetivamente praticada no mercado não é muito animador. O Perfil do Jornalista de 2021 mostrou que 59,2% dos jornalistas têm salário inferior a R$ 5,5 mil – uma remuneração inversamente proporcional à responsabilidade que um profissional de imprensa tem nas mãos.

Aumentar o piso dos jornalistas não teria tantos efeitos práticos nos contracheques, visto que os empregadores já praticam valores mais elevados do que o piso estabelece. Apesar de visarem o lucro, as empresas têm ciência que Jornalismo bom se faz com dinheiro, qualificação e  investimento. Logo, aumentar o piso poderia ter impactos na valorização do jornalista numa sinalização de que a profissão é respeitada.

Apesar de tudo, há uma ironia: mudar o piso dependeria da mobilização dos próprios jornalistas numa união de forças para negociação e exposição da importância desse ato. No entanto, estão todos muito ocupados dobrando o turno e trabalhando para vencer os prazos. Afinal, se não seguirmos fortes, a desinformação toma conta!

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