Mariane Nava
Doutoranda em Jornalismo pelo PPGJOR e pesquisadora do objETHOS

Jornalismo é imprescindível à democracia. Uma frase que estudantes de jornalismo, jornalistas e leitores já se depararam inúmeras vezes. Mas, qual é esse jornalismo? E para qual democracia ele serve? 

Ora, que tipo de pergunta é essa? O jornalismo, aquele que escreve notícias. Existe outro? E a democracia, pois bem, aquela que nos permite votar e eleger os representantes.

É de surpreender quantas formas de jornalismo existem, e essa variedade não diz respeito propriamente às subdivisões técnicas do conteúdo (esportivo, político, investigativo, cultural, econômico, etc.), mas sim à natureza do fenômeno jornalístico.

A professora Gislene Silva, apresenta uma discussão sobre o campo do jornalismo, ressaltando que este precisa ser “apreendido não apenas como prática profissional, mas em sua integralidade, em sua configuração social, política, econômica, tecnológica, como discurso, narração, imaginário, técnica e manifestação cultural; como constituído e constituinte da vida em sociedade”.

Ou seja, o jornalismo está diretamente ligado à sociedade pela qual é produzido. Nesse sentido, poderia se dizer que o fazer jornalístico é uma prática que, embora possua características que o tornam “jornalismo” em qualquer lugar, é constituído de elementos muito particulares inerentes ao espaço geográfico, histórico e cultural onde é produzido. Desse modo, é possível pensar que existem diferentes jornalismos, com peculiaridades temporais, sociais, culturais e geográficas.

Isso sem esquecer que existem os jornais mainstream, jornais alternativos, jornais de “causas” e etc. Será que todos eles são fundamentais à democracia? Se a resposta for sim, para qual democracia eles são fundamentais?

E aqui, assim como para o jornalismo, podemos pensar em várias formas de olhar para o conceito de democracia. Bobbio faz uma longa discussão sobre a ideia de democracia, contrapondo-a ao liberalismo. Espera! Então, um não coexistirá com o outro? O autor apresenta um “meio termo” que adota características de um e de outro sistema, tornando possível uma democracia liberal. 

Comumente, quando pensamos em democracia, já a percebemos como um regime político, mas, a ideia de democracia é mais ampla, como apresenta Bobbio. Críticas à parte, o autor reforça que nesse sistema pressupõe-se a perseguição da máxima igualdade entre todos, sendo tarefa do governo promover formas para que isso seja possível, aproximando-se da ideia de um estado máximo. Pois bem, o liberalismo, entendido como o regime da livre competição e do estado mínimo é, por definição, o oposto.

Para que seja possível existir uma democracia liberal é necessário não ser tão lá nem tão cá. Dessa forma, a sociedade é setorizada e cada setor é gerido predominantemente sobre características democráticas ou liberais. Por exemplo, o regime político é democrático, agora o regime econômico é liberal. E, para o autor, essa organização é a que melhor funcionou até o momento da escrita do seu livro.

Mas, a discussão sobre a democracia é bem mais extensa. Habermas complexifica o debate ao abordar o agir comunicativo, que contribui para uma visão mais complexa da sociedade. E não apenas isso, apresenta o modelo deliberativo, reforçando o papel da comunicação no meio social e na tomada de decisão.

É a partir dessa perspectiva que boa parte dos jornais constroem a narrativa sobre sua importância para o processo democrático. Mas, parece que há uma lacuna… em teoria, o conteúdo apresentado pelos jornais ajudaria o cidadão a se informar e, com a interação na esfera pública, agir (para ser bem habermasiana). Mas será?

Será que recortes fragmentados e pinçados de conteúdos dão conta de fornecer insumos para que se construa a cidadania e a participação política? E será que há interesse por parte das pessoas em participar efetivamente?

Assim como o jornalismo depende da sociedade em que está inserido, a democracia também. Gomes faz uma observação interessante sobre o tema ao ressaltar que é necessário que haja uma cultura democrática, dentre outros fatores, para que o público seja efetivamente cidadão. O autor faz a observação a partir da perspectiva das possibilidades que a internet abria lá em 2005, embora já tenhamos avançado um pouco na compreensão sobre as tecnologias digitais, parece que ainda patinamos no quesito fundamental que seria uma cultura cidadã, voltada para uma democracia efetiva, principalmente quanto ao papel dos jornais nesse processo.

Nesse sentido, cabe olhar para os jornais e refletir sobre o seu papel efetivo para a democracia. Primeiro, pensando sobre o papel do jornalismo na sociedade em questão e depois olhando para o conceito de democracia entendido neste espaço. Isto é, será que basta que o cidadão escolha os representantes para que se tenha democracia? Em teoria, sim. Mas, a questão é muito mais profunda quando olhamos sob a perspectiva do processo de escolha, dos elementos envolvidos e de como o processo eleitoral acontece.

Nesse sentido, para que possamos afirmar que o jornalismo é fundamental à democracia é preciso termos claro de qual jornalismo estamos falando (e todas as suas implicações envolvidas), assim como a qual perspectiva de democracia ele serve. Só aí é possível pensar que o jornal contribui efetivamente para a construção de um regime democrático.

Mas, qual jornalismo serve à democracia?

Um jornalismo voltado à cidadania. Isto é, pensando em uma democracia em que o público é visto como cidadão (para além de eleitor). Para isso, espera-se que haja pluralidade de conteúdos e de jornalistas, superando o quadro de profissionais classe média e predominantemente brancos. Essa mudança tende a se refletir nas notícias produzidas, seja nos recortes, nas pautas ou no encaminhamento dado.

E, paralelamente, precisamos encontrar formas de fortalecer a cultura cidadã. Em que o público é convidado a se interessar e ser parte efetiva da sociedade, para além de clientelismos eleitorais. 

O processo não é fácil, tampouco rápido. Talvez – por ora – valha pensar a construção de um jornalismo voltado à cidadania, com o afinco com que se busca a objetividade. Nessa proposta, outras visões de mundo são acolhidas a partir do acolhimento de jornalistas de diferentes origens. Mas, principalmente, os jornais não podem permanecer “neutros” e “imparciais” no que se refere às questões que ferem os direitos humanos. 

Não se propõe a eliminação da objetividade, muito pelo contrário, a apuração e o relato devem ser objetivos, mas é necessário que esses conteúdos assumam posição em defesa do público. Ou seja, não basta dizer que “homem morre em viatura policial”, mas, expressar que ele foi assassinado por policiais… e isso faz toda a diferença.

Do contrário, o jornalismo será fundamental à democracia apenas na teoria, porque na prática estará atuando apenas em prol de quem tem poder. 

BOBBIO, Norberto. Liberalismo e democracia. 6. ed. São Paulo: Brasiliense, 1994.

GOMES, Wilson. Internet e participação política em sociedades democráticas. Revista Famecos, v. 12, n. 27, p. 58-78, 2005.

HABERMAS, J. Teoria da la Acción Comunicativa. Taurus, Madrid, 1987.

SILVA, Gislene. De que campo do jornalismo estamos falando?. Matrizes, v. 3, n. 1, p. 197-212, 2009.