Resenha: Crime Verdadeiro

Crime Verdadeiro

Por Leonardo Gorges
Acadêmico de Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina

O experiente repórter Steve Everett (Clint Eastwood) não é mais o mesmo. Depois de rodar por grandes jornais de Nova Iorque e denunciar peixes grandes da cidade, ele vai parar no pequeno Oakland Tribune, na costa californiana. Com a vida pessoal em frangalhos, ele tenta se recuperar do alcoolismo e das constantes traições à mulher, a dedicada Barbara (Diane Venora). Como em boa parte dos filmes de Eastwood, em Crime Verdadeiro sua personagem representa o pale rider, aquele sujeito de princípios morais polêmicos, que duvida do mundo, mas confia no instinto para solucionar seus problemas.

Sua rotina de escrever notas é mudada quando ele assume a cobertura da execução de Frank Beechum (Isaiah Washington), após a morte da colega Michele (Mary McCormack) em um acidente de carro. Beechum foi condenado à morte após ter sido acusado de assassinar uma jovem que lhe devia 96 dólares. Everett é escalado para entrevistar o condenado no dia de sua execução. Devia ser apenas uma “matéria de cunho humano”.

O assunto, amplamente divulgado pela imprensa local, parece caminhar para o desfecho anunciado. Só que, contrariando tudo e todos, Everett desconfia da inocência de Beechum. Ao apurar os dados e cruzar as informações, a desconfiança se torna certeza. Mas o tempo é curto. A falta de provas e o histórico recente do repórter não o ajudam em sua cruzada pela verdade. Ninguém lhe dá crédito, embora possua a confiança do editor-chefe Alan (James Woods). Em meio à trama, questões raciais e morais – ao bom estilo Eastwood – são trazidas à tona.

Do ponto de vista jornalístico, muitas das ações do veterano repórter são questionáveis. Baseado puramente no instinto – o faro de repórter -, ele se deixa levar por premissas que nem sempre são verdadeiras. Algo que deve ser evitado na profissão, já que não raramente leva ao erro. Sua desobediência a ordens e dificuldade de manter boas relações com os chefes o levam a perda de credibilidade no mercado de trabalho. Porém a capacidade de apuração e a facilidade para achar boas histórias a partir de fatos batidos o creditam como repórter de qualidade. Ao não se contentar com a simples versão oficial, os furos sempre fizeram parte de sua carreira.

Embora tenha sido produzido com um orçamento baixo, a habilidade de direção e produção de Eastwood fazem do suspense uma boa pedida para profissionais e estudantes de jornalismo no que diz respeito à capacidade de apurar fatos. Adaptado do livro de Andrew Klavan, o roteiro inicia morno, esquenta com o passar da história e termina de forma eletrizante. Um bom exemplo da velha escola de jornalismo investigativo, cada vez menos presente na imprensa.

FICHA TÉCNICA:

Gênero: Suspense
Elenco: Clint Eastwood, Isaiah Washington, James Woods, Diane Venora, Bernard Hill, Denis Leary e Lisa Gay Hamilton
Duração: 127 min
Origem: EUA
Ano: 1999
Direção: Clint Eastwood
Roteiro: Larry Gross, Paul Brickman e Stephen Schiff, baseado em livro de Andrew Klavan
Produção: Clint Eastwood, Lili Fini Zanuck e Richard D. Zanuck

O clássico renovado de um mestre

Nesta entrevista exclusiva ao objETHOS, Alberto Dines fala de diploma, Lei de Imprensa e dos valores que o jornalista jamais deve perder diante da fome das empresas por resultados

Por Marcelo Barcelos

Todo bom jornalista que preze a paixão pela leitura e que tenha se dedicado aos clássicos e indispensáveis livros da profissão – àqueles que não só debatem a teoria, mas a contextualizam com a prática – não pode passar batido diante da nova edição de O papel do jornal e a profissão de jornalista, escrito por Alberto Dines, uma lenda viva da imprensa brasileira.

Aos 77 anos, dono de uma crítica pontual e consistente, o autor vai fundo em uma ferida ainda latente: a extinção da obrigatoriedade do diploma de jornalista para o exercício da profissão pelo Supremo Tribunal Federal (STF), decisão polêmica que dividiu opiniões em junho de 2009.

Mas a nova edição apresenta outras novidades, como a discussão sobre a revogação da Lei de Imprensa e o esquecimento intencional, segundo o jornalista, da celebração dos 200 anos da imprensa nacional, em 2008, ato silencioso que teria sido patrocinado pela grande mídia e seus financiadores.

Dentro dessa obra ampliada de 12 capítulos, que guiou gerações de jornalistas, outro destaque são textos publicados originalmente no Observatório da Imprensa, renomado veículo dirigido por Dines, que nasceu graças a sua atuação no Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor) da Unicamp, em um esforço conjunto de colegas e estudantes.

Nestes textos, o debate em torno do diploma se reacende, é descortinado e provoca novas reflexões. Muito além mais do que apenas criticar a decisão do STF, o autor prova, por A mais B, que a profissão de jornalista é específica, sim, e está indiscutivelmente ligada à manutenção da democracia, à geração de conhecimento e à vigilância do Estado.

“Como que o ministro Gilmar Mendes compara nossa história, nossa cultura e nossos códigos próprios com a profissão de um cozinheiro. Ele acabou com uma atividade secular, de relevância reconhecida pela sociedade. Não temos competências exclusivas? Qualquer um pode desempenhá-la? Queria ver o Mendes à frente de um jornal”, dispara o autor.

Dines não defende uma bandeira de forma pura e simples, como vez ao longo de sua brilhante carreira desde 1952. Ele chama atenção também para a queda do profissionalismo nas redações e na baixa qualidade da informação prestada ao leitor, descrevendo décadas da evolução da imprensa nesses 35 anos do lançamento da 1ª edição.

Duas ponderações que aparecem como consequência do “modelo de negócio” adotado pelas empresas de comunicação, aonde a competição, as jornadas infindáveis, as amarras comerciais do marketing e o imediatismo “de publicar primeiro seja o que for” parecem ser premissas contemporâneas que superam o caráter missionário que legitimou a essência do jornalismo um dia.

Nesta obra-prima, que chegou à mão dos leitores em sua 1ª edição no ano de 1975, está a comprovação de que o jornalismo é mutante e perspicaz tanto quanto o livro, que traz ainda uma homenagem ao Patrono da Imprensa Brasileira, o jornalista Hipólito da Costa.

Figura genial, na qual Dines se diz inspirado, o idealizador do Correio Braziliense (1808) é reverenciado como um homem iluminado e cujo discurso, 202 anos depois do primeiro texto publicado no primeiro periódico a circular no Brasil, parece caber perfeitamente nos dias de hoje.

Na página 13 de O papel do jornal e a profissão de jornalista, Dines reproduz esse material, uma escolha que o autor considera indispensável para que o jornalista repense sua prática, enquanto é absorvido pelas novas tecnologias e incorpora ainda a função extra de um gestor dentro da redação.

Em tempos de tanto descrédito na profissão, função e contribuição do jornalista a sua comunidade, Hipólito da Costa fornece argumentos para a defesa de uma imprensa sadia e estimula valores que, em algum momento ou por toda a carreira, nortearam quem decidiu se dedicar a ela.

“Ninguém mais útil, pois do que aquele que se destina mostrar, com evidência, os acontecimentos do presente e desenvolver as sombras do futuro… As luzes que ele espalha tiram das trevas ou da ilusão àqueles que a ignorância precipitou no labirinto da apatia, inércia e do engano”, diz um trecho do documento escrito por Hipólito da Costa.

Confira os principais trechos da entrevista:

objETHOS – Passados 35 anos da 1ª edição de O papel do Jornal, que conflitos éticos ainda se mantêm e que não se alteraram na era da informação digital? Isto é, quais são, hoje, os maiores desafios no campo da ética à medida que o Jornalismo se apresenta em novas e desafiadoras plataformas como a Internet, onde tudo parece ser permitido, publicável?

Alberto DinesIsso de ser tudo é publicável não é novo. O slogan do New York Times (All the news that’s fit to prints/tradução livre: todas as notícias que devem ou merecem ser publicadas) mostra que isso não é novo e não veio com a Internet. É o compromisso da liberdade, onde você não deve adulterar nada, esconder nada e nunca manipular. Isso é um compromisso mais do que secular. Agora focando nos paradigmas éticos do jornalismo, lembro que em 1973 não tínhamos um debate sobre a mídia ou ele era muito restrito. A mídia não era assunto da mídia. Fizemos nesse contexto, na época, uma experiência no Jornal do Brasil (JB), mas que foi encerrada com a minha demissão do jornal. Tratava-se do Caderno de Jornalismo, revista que lancei em 1965. Era uma publicação que saía duas, três vezes por ano e acontecia meio que à revelia da direção. Não era clandestina, claro, mas a direção não queria saber de despesa. Então, dava-se um jeito, daqui, dali e o suplemento saía.

objETHOS – Retomando à questão da ética jornalística, o senhor lembra de algum fato marcante naquela época que possa ser contado para ilustrar esse debate e que sirva de exemplo de postura aos jornalistas hoje?

Alberto Dines – Sim, recordo de um caso que aconteceu na década de 70, e que exprime bem o que é esse código na nossa profissão. Um belo dia, um de nossos melhores repórteres descobriu que um homem tentava se jogar de um prédio na praia do Flamengo. O jornalista subiu em um prédio ao lado, conseguiu manter um diálogo com o rapaz e ele não se matou. Foi uma cobertura fantástica, com fotos e tudo. O repórter tinha uma reportagem sensacional na mão. E eu tive que tomar uma das decisões mais difíceis da minha vida. Nós não demos a matéria. Demos uma nota com as iniciais da pessoa, mas tudo bem resumido. Era nossa obrigação dar uma chance a esse rapaz de ele se recuperar. Tínhamos, ali, um compromisso com a vida. Então, desde aquela época, já havia um debate interno sobre ética, que, hoje, cresceu muito, muito por parte das escolas de jornalismo, através das disciplinas de ética. Mas eu sempre procurei ensinar, até mesmo quando dava aulas sobre a técnica da reportagem, que a ética era algo intrínseco ao bom texto, como ouvir os dois lados da história, não manipular, etc…

objETHOS – E onde a Internet entra nessa história hoje, caro Dines…?

Alberto Dines – A Internet, ao mesmo tempo que favorece uma vigilância ética, ela também favorece o contrário: favorece a pirataria, a canalhice, o plágio, isso sem falar na produção sem autoria, sem responsabilidade… Os emails falsos, o anonimato… Isso não é bom para o jornalismo. A Internet é uma via de duas mãos: instiga o debate e o amplia sobre a ética, mas também estimula a falta dela.

objETHOS – Ainda sobre a ética. Qual é a sua opinião sobre o principal embate que o jornalista brasileiro enfrenta dentro das redações, no seu cotidiano…?

Alberto Dines – Vou falar o que penso sobre as redações dos jornais organizados de médio e grande porte. A grande imprensa está hoje oprimida pelo chamado modelo de negócio, com a presença do marketing embutida. E isso, às vezes, cerceia o potencial criativo do jornalista. Essa presença massiva e aprisionante do marketing começou a aparecer na década de 80. A propósito, há algo que deve ser dito. A imprensa após a ditadura, acabou criando mecanismos em que ela própria se aprisionou, com uma série de regras empresariais, o que, por fim, tirou um pouco da espontaneidade do jornalismo. Uma dessas algemas foi a criação da Associação Nacional dos Jornais, a ANJ.

objETHOS – Sem crise do papel, mas diante de uma crise existencial/conceitual, o jornalismo pode sobreviver ocupando que espaço na sociedade? Isto é, qual é o papel do jornalismo na contemporaneidade?

Alberto Dines – O jornalismo tem seu lugar garantido na sociedade. Isso é fato. O que está acontecendo é uma atitude psicológica niilista de que o bom jornalismo impresso e de revista acabará, sucumbirá diante das novas tecnologias. Donos de jornais impressos dizem isso abertamente. Uns dizem: ‘daqui a 40 anos minha revista ou meu jornal não estará mais no papel’. Eu acho isso um crime. Primeiro, porque é uma autocondenação. Segundo, porque se apresenta como um veículo fragilizado. Penso que o grande problema é que, quando surgiu o boom dessa bolha que é a Internet, a própria imprensa se colocou numa posição de derrotada, frágil, capaz de ruir. E isso, sem dúvida, tira da imprensa a vitalidade que ela sempre teve, deixando-a moribunda. Aí, diante desse cenário, fica claro também o esforço de marketing, com jogadas para vender mais jornal, para sobreviver diante da falácia de que eles (os jornais) irão morrer. Está tudo errado na posição da grande imprensa impressa. Parece que não sabe mais se impor afirmadamente e com orgulho. Esqueceu do seu passado? Parece que ela está de olho se o Google vai conseguir pagar aos jornais o que os visitantes estarão acessando na versão on-line. A Internet nasceu livre e gratuita. Acho muito difícil a imprensa um dia sobreviver com ganhos a partir da cobrança de seu conteúdo na rede. Pagar por jornais na rede? A grande massa. As classes C e D, por exemplo? Impossível.

objETHOSMas o senhor também se rendeu à Internet, não é verdade, e virou um grande produtor de conteúdo on-line? Foi no ambiente virtual que ganhou prestígio e reconhecimento um dos seus mais recentes projetos de jornalismo, em parceria com dezenas de profissionais de todo o Brasil, o Observatório da Imprensa…

Alberto Dines – Tudo que disse sobre a Internet não pressupõe, de maneira alguma, que eu sou contra ela. Pelo contrário, sou um grande usuário, tanto que é através dessa rede incrível, que estamos conversando agora. Tudo começou com o Labjor, em 1996, na Unicamp. Pensamos em criar um veículo que discutisse a imprensa, mas uma revista impressa mesmo custaria muito caro. Eu mal conhecia a Internet. Mas logo o Ministério da Ciência e Tecnologia descobriu que estávamos abrindo uma porta para o debate da imprensa, um canal aberto para compartilhar conhecimento… daí tocamos em frente. Como disse, eu acho a Internet um meio fantástico. Apenas não vejo nela essa invencibilidade que estão lhe conferindo. Ela é ainda muito limitada, ainda mais no Brasil, onde sua função está bastante atrelada à função de tesoura e cola. Querendo ou não, a referência em geral dos meios on-line é a mídia imprensa.

objETHOS – Quando o senhor teve o livro pulicado em 1974, os jornais não viviam a revolução que vivem hoje, como a convergência e a integração de meios. A crise era outra. Na atualidade, e principalmente nos EUA, os impressos vivem uma luta para não desaparecer frente à concorrência de conteúdos digitais. Muitos enxugaram redações, reduziram tiragem e alguns até sucumbiram, tendo hoje apenas versões online. Trazendo esse panorama para a realidade brasileira, que adaptações os jornais impressos precisam fazer para se manter no mercado?

Alberto Dines – As adaptações que os jornais impressos deveriam fazer, não estão acontecendo. Primeiro, os jornais estão desperdiçando muito papel. De novo o marketing está dominando a redação. Veja o que acontece com as páginas nobres, como as capas dos diários, nas edições de domingo. Os jornais estão bombardeados por chamadas de cadernos que, na sua maioria, trazem assuntinhos. Tudo bem, eu também gosto de ler coisas leves, mas assuntinhos é brabo. A Folha de São Paulo tem a obrigação de dar uma chamada grande para a sua revista, que é muito ruim na verdade, sem criatividade nenhuma. Aí o redator abre uma foto na capa que não diz nada e ocupa lugar de quatro chamadas que poderiam ter algo realmente a dizer. Isso é desperdício de papel. E pior: reduz a qualidade da informação. Parece que ninguém reflete sobre isso. Vimos nos anos 90 essa tendência de cadernizar o jornal, que foi um erro. Para quê? Para ter mais capas coloridas e vender mais anúncios coloridos. Os jornais do Brasil hoje são uma confusão de cadernos que não se entende. Daí o jornal perde a sua unidade de cosmos, de uma peça inteira que registrou os acontecimentos do dia. E, como uma onda, os jornais passaram a ser iguais, a seguirem um padrão ditado pela ANJ. E para piorar teve ainda essa mania de contratar consultorias internacionais, como a da Universidade de Navarra, na Espanha, para reorganizar e redesenhar os jornais. Teve um dia que lembro em que a capa do Dia, jornal popular do Rio de Janeiro, era igual da do Estadão, de São Paulo.

objETHOS – O Jornalismo Cidadão, como defendem alguns teóricos, é uma tendência que veio para ficar a partir da abertura e popularização dos canais de tecnologia, principalmente. Pouco a pouco, os veículos tradicionais, até mesmo os jornais impressos – e os grandes ainda mais – abrem sua produção à contribuição do leitor, que é instigado a participar. Até que ponto esse movimento põe (se é que põe) em risco a qualidade da informação jornalística oferecida ao próprio público? Essa prática, que começou na rede e hoje invade os impressos, seria uma das formas encontradas por eles para se reinventar e garantir sua sobrevivência nessa época de interação?

Alberto Dines – Isso não é novidade. Esses dias eu olhava uma coleção do Globo, do Jornal da Noite, dos anos 20, e já havia espaço no jornal impresso para o repórter amador. Era uma espécie de anúncio que dizia algo “ligue para a redação e seja um repórter amador”. Veja só, isso foi nos anos 20. Aliás, os jornais foram criados para isso, para dar vazão à produção de quem tinha algo a dizer. As cartas dos leitores, por exemplo, são muito antigas. Depois, sim, os jornais ficaram mais monolíticos e o leitor acabou sobrando mesmo. Vejo que o cidadão hoje dá contribuições importantíssimas para a redação. Só que esse processo não dispensa o jornalista profissional. É claro que o leitor hoje, com uma câmera na mão, pode estar no lugar certo e na hora certa, e acabar dando um flagrante noticioso. Só que ele não tem a consciência de contextualizar o assunto, por exemplo. A notícia não vale se você não contextualizar. Se não disser quem, quando, onde, como e por que no texto. Só com um mero relato amador você não faz jornalismo. O verdadeiro trabalho jornalístico está calcado na edição, no cortar, comparar e relacionar. Essa tarefa o cidadão não fará. O trabalho de edição, como sabemos, pressupõe uma série de técnicas muito específicas, que outras profissões não têm. Entre elas: a capacidade de síntese, concisão, a devoção ao leitor… Coisas que o ministro Gilmar Mendes não saberia fazer se fosse dono de um jornal. Sinceramente, não tenho restrições quanto ao modelo do jornalismo cidadão. Entendo que o verdadeiro jornalismo cidadão é feito pelos pequenos jornais de comunidade. E é por isso que surgiu nos Estados Unidos um movimento agora para que os jornais de comunidade sejam considerados empresas não lucrativas. Portanto, eles não pagam impostos e conseguem sobreviver. A justificativa é a de que desempenham um papel muito relevante na vida americana, falam do local, da esquina. São os chamados Provincial Papers. Considero essa ação de isentá-los de impostos uma grande sacada, que também atinge outros jornais de pequeno e médio porte do interior dos EUA. É como se esses veículos assumissem um caráter de instituição ao invés de empresa.

objETHOS – Uma das novidades nesta 9ª edição atualizada de O papel do jornal é a retomada do debate em torno do diploma de jornalista. Que rumo o senhor imagina que essa discussão tomará daqui para a frente? É possível acreditar em uma revisão dessa determinação ou em alguma nova regulamentação da profissão?

Alberto Dines – Minha posição não difere muito daquela que eu assumi quando falei sobre o diploma antes. Eu acho que o diploma é necessário e imperioso, porém acredito que o jornalista profissional não poderia se limitar à graduação. Ele teria de ter uma pós-graduação profissionalizante, em nível de mestrado, como é nos Estados Unidos. Isso eu defendo desde quando passei pela Universidade de Columbia. Como sabemos, o candidato chega lá com graduação, seja como jornalista ou em outra área, por exemplo, como o Direito. O aluno entra e já vai fazer matéria no primeiro dia. São dois semestres de aulas, mas poderiam ser três. É como se os professores “quebrassem” aquele cidadão ali já maduro e fizessem a partir das partes um jornalista. O jornalista graduado hoje em dia é jovem demais e muitas vezes não tem discernimento para tornar decisões. Poucos têm, mas geralmente esses são gênios natos. O restante vai aprendendo de orelhada em orelhada. Quanto ao diploma mesmo, penso que a solução para qualificar as redações seria a exigência de pós-graduação. Pelo menos um mestrado profissionalizante, não teorizante. Nós, brasileiros, ainda estamos seguindo uma linha de formação francesa muito acadêmica e isso não resulta em nada na prática. Na década de 70 recordo que já havia uma corrente que ficava endeusando semiótica, o estruturalismo. É claro que você tem que ter noção de temas como estes, mas não é estudando em profundidade disciplinas assim que será um excelente jornalista. Sobre a questão legal da queda pela obrigatoriedade do diploma, o que compreendo é que se trata, infelizmente, de uma sentença definitiva e irreversível, afinal, falamos da Corte Suprema, que é o STF. Agora, estão tentando votar a PEC dos Jornalistas, mais creio que essa proposta de emenda constitucional irá encontrar barreiras na lei. Eu imagino que o caminho para tentar vencer essa questão do diploma deve ganhar outro caminho. É preciso mostrar a algumas empresas de comunicação de que elas erraram ao apoiar a queda do diploma. Elas próprias já se dão conta da burrada que fizeram ao estar de acordo com a derrubada da Lei de Imprensa, principalmente em relação ao direito de resposta. De volta ao diploma, o que assistimos é uma barbaridade. O ministro Gilmar Mendes foi longe demais. Ele não acabou apenas com o diploma, mas com a profissão também do jornalista. Declarou que não é uma atividade específica, ou seja, qualquer um pode desempenhá-la. E o mais impressionante: até hoje praticamente ninguém da grande imprensa se diz a favor do diploma. As empresas de comunicação passaram os últimos anos dizendo que o maior inimigo da liberdade de imprensa era o diploma, e agora descobriram que é o Judiciário.

objETHOS – Seu livro, mais uma vez, chama a atenção do empresariado, da academia e da sociedade para a definição de um rumo, de uma função social para o jornalismo, a despeito de crises e reacomodações mercadológicas. Como o senhor vê hoje a função do jornalista na manutenção da democracia? Por décadas, a este profissional foi atribuída à responsabilidade de “cão de guarda” da sociedade, um vigia da ordem. Esse papel, na sua visão, reforça-se atualmente?

Alberto Dines – Na verdade esse papel não se universalizou. As redações, hoje, cada vez mais estão empenhadas na tarefa do lucro, de dar resultados e ganhar em produção. É o modelo de negócio em ação de novo e ampliando seu espaço. O jornalista virou um gestor em muitos casos, um burocrata da redação. Esse papel missionário e romântico do jornalismo realmente está desaparecendo e sendo borrado por uma série de circunstâncias, como a competição e a pressão. Assim, até mesmo com o medo de perder o emprego, o jornalista vai se retraindo e perdendo a sua chama sagrada que é a missão social. É uma pena, afinal, nossa profissão era chamada de a última profissão romântica. E para piorar se criou nas redações grupinhos com remunerações altíssimas. É uma discrepância tremenda. Alguns trabalham como desgraçados e ganham muito bem, e outros também trabalham como desgraçados, mas tem um salário extremamente pequeno. Mas, sem distinção, o modelo de trabalho hoje é massacrante.

objETHOS – E qual a alternativa, se é que há, para buscar uma forma de trabalho mais equilibrada dentro da redação em que o jornalista possa ser compensado com uma demanda de trabalho relativamente em conformidade com a sua remuneração?

Alberto Dines – Penso que o jornalista de hoje perdeu muito da iniciativa. Na história do jornalismo mundial, verificamos que a grande maioria dos jornais antigos foi criada por jornalistas. Estes, depois de trabalharam para alguém, procuravam montar a sua própria empresa. Ao longo da minha vida criei inúmeros veículos. Muitos deles fracassaram, outros não como o Observatório da Imprensa, apenas para ilustrar. Nesse mercado acirrado e faminto, o jornalista tem que ser esperto e criar o seu emprego, localizando novos nichos de trabalho e ampliando as oportunidades. Até pouco tempo, o jornalista se formava e sonhava apenas em trabalhar em uma grande empresa, ao lado do Willian Bonner (risos). Agora, a situação é outra. É possível brilhar, sobreviver e dar uma contribuição à sociedade com mais autonomia, criatividade e iniciativa, ainda mais se você dominar a tecnologia.


SERVIÇO
:

O papel do jornal e a profissão de jornalista
9ª edição revista, atualizada e ampliada
Alberto Dines
Summus Editorial
192 páginas
R$ 48,90


Pensata #14

O repórter deve possuir a fibra robusta dos carteiros, a face impertubável dos caixeiros viajantes, a calma de um guarda civil em sentinela. Naturalmente, quando um homem consegue reunir tantas qualidades eminentes e tão raras, seria excessivo exigir dele que conheça ainda um pouco de sintaxe e de gramática
Gangolin ‘Luigi Arnaldo Vassalo’

As pessoas não param de confundir com notícias o que lêem nos jornais
J. Liebing,

Resenha: Bob Roberts

Bob Roberts

Por Daniela Ferreira
Acadêmica de Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina

Bob Roberts é uma sátira à vida política dos Estados Unidos – se bem que muitas de suas críticas poderiam ser aplicadas facilmente ao Brasil. Tim Robbins se esmerou para trazer às telas a história de um candidato republicano ao senado pela Pensilvânia. Para dar o toque de realidade desejado, Robbins, que assina o roteiro, escolheu a forma de um documentário fictício. O formato é interessante, pois deixa entrever as características do personagem e sua forma de atuar na política sem que para isso sejam necessários diálogos ou situações muito explícitas. Um jornalista acompanha o candidato durante sua campanha, mostrando os bastidores. É pela visão desse repórter e da câmera que segue Roberts que descobriremos tudo o que está por trás da figura do futuro senador.

Roberts é um cantor folk popular, um investidor na bolsa agressivo, e que utiliza seu carisma e fortuna para tentar uma vaga no senado. Robbins, que além de dirigir também interpreta o protagonista, escreveu a música especialmente para o filme e a interpreta durante o longa. As letras das canções são essenciais para que se entendam as idéias conservadoras do personagem, o que, durante o filme, podemos entender como apenas uma atitude hipócrita do cantor, mais do que suas crenças verdadeiras. Tudo para conquistar uma determinada fatia do eleitorado e vencer a eleição. Roberts é um republicano conservador e extremista, que canta contra os imigrantes, faz críticas às drogas e aos programas sociais, coloca o consumo e a atividade econômica como prioridade, defende a presença de Deus e de interpretações religiosas nas escolas. Pelo menos, essa é a face que ele procura mostrar a seus eleitores. Mas os democratas não escapam da crítica. O candidato rival de Roberts ao senado é um senhor apagado, sem expressividade, e que enfrenta um escândalo sexual.

A imprensa e sua forma de retratar a política são abordados em momentos importantes do filme, a começar pela presença constante da câmera e do jornalista que acompanham Roberts. Uma cena significativa é a entrevista com uma repórter negra e os confrontos tanto nos bastidores quanto em frente às câmeras, mostrando como nem sempre é possível ser neutro com relação a determinado entrevistado. Outro personagem importante que aparecerá de forma recorrente na trama e terá um papel preponderante no resultado final da eleição é um repórter de um jornal pequeno e obscuro, chamado Troubled Times, e que busca desmascarar Roberts. Ele possui evidências que envolvem Roberts e seu império financeiro com o tráfico de drogas, realizado por meio de uma organização supostamente beneficente do candidato. Ninguém lhe dá ouvidos, o que pode ser explicado tanto pelo porte do jornal a que representa, como pelo fato de ser negro e agir de forma atribulada. Apenas quando as denúncias chegam à grande mídia por meio de um canal de TV, é que o candidato se vê obrigado a rearticular sua estratégia de campanha. E a forma como decide fazê-lo demonstra a que nível a disputa eleitoral pode chegar. Roberts não tem caráter ou escrúpulos, mas vence. E então a ficção se mistura à realidade, como no próprio documentário fictício que acabamos de ver.

FICHA TÉCNICA
Título original: Bob Roberts
Estados Unidos, 1992
Direção: Tim Robbins
Elenco: Tim Robbins, Giancarlo Esposito, Alan Rickman, Ray Wise, Gore Vidal, Brian Murray, Rebecca Jenkins, Susan Sarandon
Roteiro: Tim Robbins
Gênero: comédia
Idioma: inglês

Profissionalização e Capacitação

Por Aldo Schmitz
Mestrando em Jornalismo na UFSC

(Publicado originalmente no blog do autor, Quando as fontes pautam)

As estratégias das fontes são múltiplas
Érik Neveu

As fontes trataram de contratar jornalistas para aperfeiçoar o relacionamento com a mídia. Dados de sindicatos e da Fenaj comprovam que a maioria dos jornalistas brasileiros atua em assessoria de imprensa, cerca de 60%. A partir de meados da década de 1980, eles vêm ocupando espaços que, em tese, são específicos dos profissionais de relações públicas.

Este fenômeno muda o papel do jornalista na sociedade, ao invés de um narrador, assume a função de moderador e gestor da comunicação, representando 29,4% dos profissionais que atuam nos departamentos de comunicação das empresas (Databerje, 2008), 73% nas agências de comunicação (*) e 82% no serviço público (Sant’Anna, 2009).

O crescente nível de profissionalização da comunicação, tanto nas organizações como na assessoria às personalidades, também aparece em outros países, a exemplo da França e Espanha, onde proliferam as assessorias e agências de comunicação que atraem os jornalistas e paralelamente ocorre a capacitação dos porta-vozes.

A preferência é por jornalista com passagem pelas redações, porque “conhecem perfeitamente o trabalho jornalístico e apresentam conteúdos completos, que facilitem o trabalho do jornalista. Mas isto nos leva ao seguinte resultado: a fonte, praticamente, é quem redige a notícia” (Alsina, 2009, p.170).

Philip Schlesinger (1992) e Érik Neveu (2006) também verificam esse processo de profissionalização e capacitação em desenvolver estratégias para antecipar as rotinas e práticas jornalísticas, abastecendo a mídia com material pronto para veicular, “que pode ser de utilidade para um jornalista sobrecarregado”, diz Neveu (2006, p.96), além de evitar o custo para coletar a informação original.

Aproveitando a disponibilidade de jornalistas em seus quadros de pessoal, as organizações não-midiáticas desenvolvem e mantém as suas mídias próprias (jornal, revista, rádio, TV, portal na internet), para interagir na espera pública (Sant’Anna, 2009).

Igualmente ocorre a capacitação de empresários como interlocutores de informações econômicas e de negócios. Assim como as personalidades políticas e as instituições públicas, as organizações privadas e do terceiro setor também passaram a treinar e sensibilizar seus porta-vozes sobre as suas responsabilidades no contato com a imprensa.

“Quanto maior a perspectiva de visibilidade de uma organização, maior deve ser sua preocupação com a qualidade das informações que circulam na mídia”, alerta Luciane Lucas (2008), aconselhando a realização de treinamento (media training) para desenvolver ações sistemáticas de relações com a mídia, notadamente na preparação para a contingência e gestão de crises.

Com o propósito de revelar os métodos, ritos e atitudes de repórteres e editores, esse treinamento também aborda a comunidade interpretativa dos jornalistas, estudada por Barbie Zelizer (2000), que aponta uma maneira própria de falar, utilizando seus jargões; uma forma de perceber o valor de notícia e interpretar; uma cultura profissional rica em mitos, símbolos e representações sociais.

Enfim, a “tribo jornalística” forma uma comunidade “unida pelo seu discurso partilhado e pelas interpretações coletivas de acontecimento públicos relevantes” (Zelizer, 2000, p.33) e criam uma rede informal de contatos.

Na capacitação dos porta-vozes são abordados temas como a dinâmica da mídia e a construção da imagem e reputação institucional; os bastidores e as estruturas dos veículos de comunicação; regras básicas no atendimento de jornalistas, formas de entrevistas; potencialização do trabalho da assessoria de imprensa; além de dicas e orientações para melhorar o desempenho no contato com os jornalistas.

(*) Pesquisa realizada pelo autor entre 365 agências

30 códigos deontológicos

O Observatório da Ética Jornalística (objETHOS) retorna das férias escolares com suas atividades. Para iniciar a semana, o mês de fevereiro e o ano de 2010, disponibiliza 30 códigos deontológicos do mundo inteiro. São documentos de associações profissionais ou empresariais, de conglomerados de mídia ou mesmo de clubes de imprensa que tratam da conduta dos jornalistas em situações reais do seu cotidiano profissional.

A lista desses guias está em constante atualização e ampliação e pode ser acessada na página Códigos.

A ética da convicção, não da responsabilidade

Por Aldo Antonio Schmitz
Mestrando em Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina

Recentemente ministrei um workshop no encontro nacional de jornalistas em assessoria de comunicação, em Goiânia, onde tive o privilégio de travar pessoalmente discussões sobre as fontes de notícias com o professor Manuel Carlos Chaparro. Estávamos no aeroporto à espera de um voo em atraso e ele fez a seguinte pergunta: O que você está pesquisando sobre a ética dos valores? Confesso, fiquei sem resposta. Depois descobri que os estudos sobre o tema são incipientes, o que não justificava a minha ignorância. Com seu convicto sotaque português, apesar de quase 50 anos de Brasil, Manolo, como é chamado pelos amigos, vem defendendo a tese da revolução das fontes e suas interferências no jornalismo, meu objeto de pesquisa no mestrado. Para ele não existe uma ética jornalística, mas sim uma ética deontológica, da profissão.

Chaparro considera que uma ação legítima não é boa nem má. Por exemplo, achar que toda fonte de notícia tem interesse particular, como se de um lado estivesse o bem (o interesse público), e do outro, o mal. Esse “papo cabeça” fez que eu chegasse a Max Weber (1864-1920), que em 28 de janeiro de 1919 fez uma palestra (*) na Universidade de Munique, indicando que uma ação ética ajusta-se a duas orientações, que diferem entre si: a ética da convicção e da responsabilidade, perfeitamente aplicáveis ao jornalismo. Weber fala da política da profissão, não como a “arte de governar”, mas a respeito das habilidades nas relações humanas para obter os resultados desejados.

A ética dos princípios, dos fins, ou da convicção, como é conhecida, tem caráter deontológico, como defende Chaparro. Regula-se por normas e valores aplicados à prática profissional, independentemente das consequências que possa provocar. Refere-se à ética do dever, quando se está absolutamente convicto sobre algo. Trata-se do compromisso com a verdade, objetividade. Ao contrário da ética tradicional, não segue a cartilha do certo e do errado, mas a ponderação de um caráter incorporado por alguém. O jornalista convicto do fato pode revelar que alguém é corrupto, mesmo que isto possa denegrir a imagem do denunciado e futuramente não se confirme. Ou seja, uma ação bem intencionada pode produzir consequências desastrosas, mas isto não é responsabilidade do jornalista e sim das evidências que não se confirmaram ou dos equívocos das fontes de informação.

A ética da responsabilidade relaciona um fato à causa final, tem caráter teleológico. Centra-se nas consequências, nos resultados, na avaliação dos riscos. Embora o jornalista seja responsável pelo conteúdo e reflexo fiel dos fatos, ele não se guia pela responsabilidade das consequências. Tome-se o caso da Escola Base, em que os jornalistas, convictos de um caso de pedofilia e movidos pelo sensacionalismo, provocaram a depredação e saque da escola, prisão dos donos e degradação de suas vidas e de crianças, em março de 1994. Ao final, provou-se que a denúncia não tinha fundamento, mas os jornalistas não foram responsabilizados por isso, embora haja algum processo em andamento. Após 14 anos, a TV Globo, Folha de S. Paulo, IstoÉ e O Estado de S. Paulo foram condenados a pagar indenizações às vítimas. Então, confirma-se a frase de Weber (2004: 122): “a responsabilidade pelas consequências não cabe a mim, mas a quem eu presto os serviços”.

Ambas as éticas geram conflitos para as fontes de notícias. Algumas ignoram esta formulação deontológica e, ao primeiro sinal, buscam em vão na Justiça “os seus direitos”; outras aprenderam a separar uma ética da outra e atuam com transparência, prevenção contra informações deturpadas e agilidade na correção, respeitando os princípios do jornalismo, mesmo a contragosto. Pois, não falta responsabilidade na ética da convicção nem convicção na ética da responsabilidade, afinal, “nenhuma ética no mundo nos diz em que medida um fim moralmente bom justifica meios e consequências moralmente perigosos”, ensina Weber (2004: 91). Mas para as fontes continua existindo um abismo entre ambas as éticas.

(*) A política como vocação, capítulo do livro Ciência e política: duas vocações, de Max Weber, editado pela Cultrix, em 2004.

Resenha: Intrigas de Estado

Intrigas de Estado

Por Joana Caldas
Acadêmica de Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina

Suspense e drama é o que você vai encontrar em Intrigas de Estado. O protagonista é Cal McAffrey (Russell Crowe), um jornalista que trabalha há anos no impresso The Washington Globe. No começo do filme, a grande notícia é a morte de Sonia Baker, uma assistente de um congressista americano. Este é amigo de faculdade de Cal e chama-se Stephen Collins, interpretado por Ben Affleck. Juntamente com Della Frye (Rachel McAdams), que trabalha para a parte online do veículo, Cal vai investigar mais a fundo essa história.

Vários dilemas do jornalismo são apresentados no filme. O primeiro, e constante durante todo o longa, é o fato de Cal ser amigo de Stephen. É um problema ético, pois o jornalista já possui um envolvimento com a fonte e poderia tentar favorecer o político. O melhor talvez seria se a história fosse investigada por outro repórter. Decorrente do mesmo problema, está a separação amigo/profissional. Stephen tem dificuldades em saber quando está falando com seu colega de faculdade ou com um jornalista, assim como Cal às vezes não sabe qual dos dois é no momento.

O conflito impresso/online também é visto aqui. Cal parece o típico profissional de jornal do imaginário do cinema: mais velho, com o mesmo computador há 16 anos, investigador. Já sua colega Della é jovem, inexperiente e mais conformada com a preocupação dos donos do veículo em vender. Os dois têm algumas discussões. Em um dado momento, Cal diz que são os jornais que fazem as matérias investigativas. A chefe do Washington Globe, Cameron Lynne (Helen Mirren), está sempre recebendo reclamações dos donos, que querem mais resultados nas vendas. Ela faz uma ponte entre a redação e o topo da hierarquia da empresa, tentando conciliar interesses. Surge aí um fator que o jornalismo atual vive: os conglomerados de mídia. O Washington Globe pertence a uma grande corporação, cujo interesse parece pender mais para os lucros do que para a relevância e conteúdo das matérias. Como fazer jornalismo dentro de um conglomerado?

A parte especulativa da grande mídia também foi abordada. Logo após a notícia de que Sonia Baker havia morrido, já se falava em um caso amoroso dela com Collins e na morte ser suicídio, tudo com pitadas de sensacionalismo. Na verdade, pouco havia de concreto sobre o caso e a impressão era de que a mídia estava mais interessada em criar polêmica do que em investigar melhor o assunto. Uma das grandes questões do filme também é o lado investigativo. Qual é o limite? Até onde o jornalista pode ir? Como delimitar a área do jornalismo e da polícia? Até quando segurar uma matéria que ainda não foi totalmente investigada, mesmo sofrendo pressão dos donos do jornal? E o risco de levar furo da concorrência? Como saber se chegou o final da investigação e não existe mais nada a ser descoberto? Isso tudo é discutido entre Della, Cameron e Cal constantemente.

É interessante assistir a um filme sobre jornalismo investigativo com tantas discussões pertinentes nos dias atuais. No entanto, por ser obra ficcional, concessões devem ser feitas para a atuação de alguns personagens em situações que provavelmente não ocorreriam na vida real. É um suspense divertido e emocionante, daqueles em que se espera ansiosamente o desenrolar das cenas. As performances são excelentes, o elenco é de primeira linha. O diretor Kevin Macdonald é o mesmo de O Último Rei da Escócia e um dos roteiristas, Tony Gilroy, é o mesmo de Conduta de Risco, que concorreu ao Oscar em 2007, e da trilogia de filmes de ação Bourne. Vale lembrar que Intrigas de Estado é baseado em uma série de mesmo nome feita para a televisão britânica. Os seis episódios foram ao ar nas terras da Rainha Elizabeth em 2003.

FICHA TÉCNICA

Título original: State of Play
Elenco principal: Russell Crowe (Cal McAffrey), Helen Mirren (Cameron Lynne), Rachel McAdams (Della Frye), Ben Affleck (Stephen Collins)
Diretor: Kevin Macdonald
Roteiristas: Tony Gilroy, Matthew Michael Carnahan e Billy Ray
Gênero: Suspense/drama
Duração: 127 minutos
País: Reino Unido, França e Estados Unidos
Idioma: inglês
Ano: 2009

Confecom aprova Código de Ética do Jornalismo Brasileiro

(Do site do Sindicato dos Jornalistas do Município do Rio de Janeiro)

A formulação de um Código de Ética do Jornalismo Brasileiro foi aprovada por grupo de trabalho na 1ª Conferência Nacional de Comunicação que se encerra nesta quinta-feira (17) em Brasília.
Na defesa da proposta, o presidente da Fenaj (Federação Nacional dos Jornalistas), Sérgio Murillo, disse que o Código deve conter normas que definam os compromissos dos jornalistas e dos proprietários e dirigentes dos veículos de comunicação e os direitos do cidadão.
Deve preservar ainda a garantia do direito de resposta do acusado por matéria jornalística, a definição do que é abuso do direito à liberdade de imprensa e principalmente as penalidades por denúncias de transgressões, preservando ampla defesa ao acusado.
A liberdade de imprensa, segundo Sérgio Murillo, não pode ultrapassar limites constitucionais nem se transformar em abuso desse direito para garantir o livre exercício do jornalismo e consolida-lo como uma atividade de utilidade pública para ser defendida.
O Código de Ética do Jornalismo Brasileiro, na proposta da Fenaj, será um guia para orientação ética do exercício da atividade profissional e empresarial do setor, e garantirá o pleno exercício livre e democrático do jornalismo.
“Estabelecerá regras e limites bem claros para que não se desrespeitem os direitos do cidadão brasileiro, de nossas instituições e o mais prejudicado direito democrático de resposta para o ofendido por matéria jornalística, historicamente deixado ao relento no Brasil.”

Pensata# 13

Para um escritor, o mais perigoso dos ofícios é ser jornalista, pois o jornalismo se parece com a literatura o suficiente para contaminá-la.
Jorge Luis Borges

Será a imprensa realmente um representante do povo ou será um usurpador, um representante auto-nomeado que defende os seus próprios pontos de vista e não os de seus constituintes?
Deni Elliot

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