A falsificação

Por Marcone de Souza Tavella

Acadêmico de Jornalismo na Universidade Federal de Santa Catarina

O filme Die Fälchung (1981), ou “a falsificação” em alemão, segue o jornalista da Alemanha ocidental Georg Laschen (Bruno Ganz) em sua ida a Beirute para cobrir acontecimentos da guerra civil libanesa. Filmado na própria capital do Líbano, as cenas foram gravadas em “áreas seguras” enquanto os combates aconteciam em outras regiões. Os resquícios dos conflitos estabelecem o fundo constante do filme de Volker Schlöndorff.

Como jornalista, Georg – quase sempre acompanhado por um fotógrafo – é improdutivo. Vê muito, escreve pouco. Mas como poderia? Na forma de ocasionais momentos de narração, o protagonista deixa transparecer o que pensa ou sente, e revela uma quantidade progressiva de cinismo. Conversando com colegas europeus no seu hotel (um Holiday Inn bombardeado), é confrontado pela maneira parcial com que escreve: “Não bastam os fatos?” pergunta o inglês; “Os leitores precisam saber quem é bom e quem é mau” é a resposta.

Um tema que permeia o filme é esse confronto da perspectiva europeia com o caos e a crueldade das ruas de Beirute. Frente aos massacres e bombardeios, Herr Laschen quer ser mais que um “gentleman indignado”, e constantemente critica o leitor alemão para quem deve escrever. Reforçando o contraste entre sua terra natal e o inferno libanês, quando vemos Georg na Europa, chove. Lá vive em uma casa no campo, com a mulher, os filhos e o tédio. Por mais sórdida, a ida a uma guerra é uma oportunidade de escapar. No fim das contas, é o que Georg proporciona também para seus leitores: uma dose segura de “realidade” para escapar do dia-a-dia sem eventos.

O posicionamento do jornalista em relação aos grupos envolvidos na guerra é tão confuso quanto o caso que tem com Arianne, viúva alemã de um libanês rico. Laschen encontra revolucionários palestinos e visita o líder das famílias dominantes do país, cristãos recém-convertidos. Ele confronta alguns, observa em silêncio outros. É difícil acompanhar sua opinião pois é difícil acompanhar os fatos da guerra em si. A perspectiva do cidadão ocidental é como Georg, que cai de paraquedas na realidade intrincada da situação. Ele age e pensa com um Norte ético, mas lhe falta a compreensão total dos fatos para que seja significativo. É isso, aliado à sua convicção de que não consegue pôr em palavras as atrocidades que testemunhou, que o impede de escrever.

Há também a mulher, Arianne. Georg se apaixona por ela com a mesma paixão que se indigna com a guerra. Os dois têm um caso, ele a ajuda a adotar um bebê. Tão ilustrativo do seu envolvimento com a guerra é este romance que seu término é sincronizado com uma cena de um combate climático, depois do qual a visão de Laschen muda consideravelmente.

A guerra civil libanesa foi complicada. É possível que um melhor entendimento do que aconteceu ajude na compreensão do filme, mas não é necessário. A impenetrabilidade parece proposital. Entre cenas fortes, diálogos diretos e paralelos ilustrativos, Die Fälchung consegue não só mostrar uma crueza meticulosa no tratamento da guerra, como da nossa imagem dela. Em uma das melhores cenas, um contrabandista de armas tenta vender fotos de um massacre para Georg, que acaba perdendo a chance em um leilão improvisado, para um jornalista belga. “São fotos sujas para se ver em lugares limpos” diz o contrabandista, resumindo o jornalismo de impacto.

FICHA TÉCNICA

Título original: Die Fälschung
Produção: Alemanha, 1981
Duração: 119 min.
Diretor: Volker Schlöndorff
Elenco: Bruno Ganz, Hanna Schygulla, Jerzy Skolimowski


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