A mestranda em Jornalismo da UFSC Carolina Pompeo Grando apresenta mais algumas reflexões sobre seu projeto de pesquisa, sob orientação do professor Francisco José Karam.

Com o título provisório de “JORNALISMO DE CONVICÇÃO E JORNALISMO DE RESPONSABILIDADE: Estudo das concepções de ética que orientam a prática jornalística”, a pesquisa se propõe a desenvolver uma reflexão teórica no intuito de esclarecer e compreender melhor quais são as éticas presentes nas ações e nas escolhas feitas durante o processo de produção de conteúdo jornalístico. Tomando como referência os estudos nos quais Max Weber (1919) desenvolveu os conceitos de ética de responsabilidade e ética de convicção e considerando o jornalismo como forma de conhecimento (Genro Filho, 1987) e, portanto, agente construtor do imaginário coletivo e gerenciador da arena simbólica (Gans apud Soares, 2001), pretende-se investigar se a ética jornalística é um aspecto já estabelecido do jornalismo, enquanto campo de ação e produção de conhecimento, ou se é um aspecto que pode sofrer interferência de outras concepções éticas próprias de seus agentes, os jornalistas.

Para tal empreitada, o ponto de partida são os conceitos estabelecidos pelo sociólogo Max Weber sobre ética de convicção e ética de responsabilidade. Segundo Weber (2000), o indivíduo que age de acordo com a ética da convicção, age e justifica suas ações baseado muito mais em crenças e princípios pessoais de toda ordem (política, religiosa etc.), sem se preocupar com as conseqüências de tais ações e tampouco considerar que outros podem discordar delas. Já o indivíduo que age e justifica suas ações com base na ética de responsabilidade, ao contrário, leva em grande conta as conseqüências e os efeitos de tais ações e pensamentos, pondera sobre o contexto em que se desdobra determinada realidade e como determinada prática pode transformar ou influenciar esta realidade, positiva ou negativamente.

Aplicando o pensamento de Weber para o jornalismo, deve-se pensar como os jornalistas pensam e agem do ponto de vista ético para alcançar determinados fins (informar, simplesmente, ou opinar, interpretar etc.) e sob qual ética são orientados. Adaptado ao campo da informação tem-se, então, a separação entre o jornalismo de convicção, cuja maior preocupação é a missão de dizer, e o jornalismo de responsabilidade, que relaciona as informações com as conseqüências e efeitos provocados pela sua difusão e se preocupa, principalmente, com a repercussão na vida dos receptores (Cornu, 1999).

Por que o emissor e por que a ética?

O desejo de pesquisar sobre o emissor surgiu a partir da relação de três idéias. A primeira é a definição elaborada por Traquina (2005) que dá conta de uma tribo jornalística, que seria, segundo Hymes (1980: 2), “um grupo unido pelas suas interpretações partilhadas da realidade”.

Zelizer (1993: 402) afirma que os jornalistas possuem um “enquadramento de referência partilhado para trabalhar”. Outros têm feito a mesma afirmação. Bourdieu (1998) defende que a prática jornalística é baseada numa “série de assunções e crenças partilhadas” (p. 47) e que os jornalistas partilham “estruturas cognitivas, perceptivas e avaliativas” (p. 36). (Traquina, 2005: 24)

Para Bourdieu (1998), o jornalismo é um microcosmos e os jornalistas partilham “estruturas invisíveis que organizam a percepção e determinam o que vemos e o que não vemos” (p. 19). Escreve Bourdieu (1998: 19): “Os jornalistas têm ‘lentes’ especiais através das quais vêem as coisas que vêem da forma especial por que as vêem”. (Traquina, idem: 25)

A partir dessas definições, que tratam os agentes especializados do jornalismo enquanto uma tribo com percepções específicas, chega-se à definição elaborada por Gans que trata do objetivo maior das notícias e demais conteúdos jornalísticos, que seria fornecer à sociedade elementos que contribuam para a construção de uma realidade social.

[…] o objetivo primeiro das notícias é derivado do papel dos jornalistas como construtores da nação e da sociedade, e como gerenciadores da arena simbólica. O objetivo mais importante das notícias, portanto, é fornecer à arena simbólica e à cidadania imagens abrangentes e representativas (ou construtos) da nação e da sociedade. (Gans apud Soares, 2001: 26)

Assim, concebendo os jornalistas como um grupo específico e especializado de profissionais que não só compartilham interpretações de uma mesma realidade como também são responsáveis pela difusão de informações e discursos que auxiliem sociedades inteiras a construir a realidade social – o jornalismo, a partir das vozes dos jornalistas, é agente construtor do imaginário coletivo, mediador da arena simbólica. A partir desta constatação, torna-se clara a importância de estudar os profissionais da imprensa, para poder compreender o funcionamento da própria.

Ora, os aspectos da cultura profissional e da sociologia profissional que podem ser estudados são inúmeros e uma só pesquisa não poderia dar conta de todos. Deste modo foi feita a opção de pesquisar apenas um desses aspectos, porém essencial para o funcionamento de qualquer campo de ação e conhecimento: a ética.

Porquê uma interrogação ética? Mesmo sem entrar na discussão sobre os poderes, reais ou supostos, dos media, a simples dimensão da realidade mediática exige uma reflexão sobre o espaço de liberdade de que gozam os seus actores e sobre a extensão da sua responsabilidade. E seja qual for a natureza da função reconhecida ao jornalista, simples peça funcional de um sistema cujos objectivos e mecanismos o ultrapassam ou agente responsável pela informação que fornece, põe-se a questão da legitimidade do seu papel, da sanção da sua actividade pelo público. (Cornu, 1999: 11)

É evidente a dificuldade – e talvez até a impossibilidade – de identificar e estabelecer definitivamente o que é convicção profissional e o que é convicção pessoal nas ações de um jornalista. Esta pesquisa pretende, apenas, verificar a existência do conflito em dados momentos e como o profissional encerra tal conflito – e se (e como) a escolha pode ser percebida no produto jornalístico resultante.