Romero

Por Francisco Dantas
Acadêmico de Jornalismo na Universidade Federal de Santa Catarina

O filme Romero, baseado em fatos reais, narra os três últimos anos da vida de Óscar Arnulfo Romero y Galdámez, arcebispo de San Salvador, capital de El Salvador, país da América Central. A primeira cena do filme mostra uma manifestação, em fevereiro de 1977. O povo, em uma praça, sob a mira de militares, clama por liberdade e contesta a legitimidade das eleições presidenciais daquele ano.

A situação de El Salvador retratada em Romero é exemplo do que ocorreu em várias nações da América Latina, nas décadas de 60, 70 e 80 do século XX. Divisão, muitos conflitos, perseguições, torturas, mortes e pobreza compõem o cenário do pequeno país. De um lado, uma elite política e militar procurava manter os privilégios; de outro, pobres do campo e da cidade (alguns na guerrilha) buscavam mais justiça social.

No meio dessa turbulência, surge a figura de Oscar Romero. O arcebispo, a princípio, defendia que a Igreja estivesse no centro, numa posição de vigia. Contudo, o próprio clero estava dividido entre os conservadores e os adeptos da Teologia da Libertação. Ao longo do filme, o personagem principal se transforma. O homem de poucas palavras, com saúde delicada e amante dos livros deixa a neutralidade e passa a defender o povo pobre. A mudança de atitude de Romero é motivada pelas mortes de um amigo, o padre Rutílio Grande, e de outras pessoas, inclusive crianças. A invasão de igrejas por militares também contribuiu para a transformação do arcebispo.

Romero utilizou o rádio para expor suas posições. Numa cena, durante um programa, ele fala: “Nossa fé requer que vivamos atentos ao que ocorre neste mundo. Continuo acreditando que a injustiça econômica é a causa principal de nossos problemas. É dela que provém toda a violência. A Igreja tem que se identificar com os que lutam pela Liberdade, tem que defendê-los e compartilhar sua perseguição”. Em uma das cenas, uma mulher da periferia diz a Romero: “O senhor é nossa voz… O senhor fala por nós”. O arcebispo de San Salvador também utilizava suas homilias nos domingos, algumas transmitidas pelo rádio, para defender seus ideais, como a não-violência e a luta pela justiça. Num desses momentos, Romero pede aos homens do Exército que parem de matar e acabem com a repressão. A voz do arcebispo calou em 24 de março de 1980, quando foi assassinado durante uma missa. Após sua morte, El Salvador mergulhou ainda mais na guerra civil, que vitimou mais de 60 mil pessoas, entre 1980 e 1989.

O filme poderia mostrar, de forma mais aprofundada, como atuaram os meios de comunicação durante os três anos em que transcorre a história. Faltou mostrar qual a posição da imprensa em meio aos conflitos. Além do rádio, encontram-se em Romero referências à fotografia e à televisão. Nos últimos minutos da obra cinematográfica, um membro da elite defende na TV a luta contra os subversivos e os comunistas. Não dá para saber se a transmissão foi para toda a população ou só para os militares, pois, na cena, são eles que estão em frente à TV. Já as fotos, mostram desaparecidos e mortos, alguns com rostos desfigurados.

De modo geral, Romero apresenta questões que ainda permanecem na atualidade, por exemplo: O que é ser terrorista? É válido pegar em armas para lutar pela liberdade? O filme não abusa de cenas chocantes, embora algumas se destaquem, como um corpo encontrado por uma criança em um lixão. Romero tem a função de conscientizar para a importância dos direitos humanos, da liberdade e da justiça social. Como escreveu Aramis Millarch, em artigo publicado em 05 de julho de 1990, no Estado do Paraná, Romero é um “filme de utilidade pública”, na concepção do termo dito pelo crítico de cinema Sérgio Augusto.

 

FICHA TÉCNICA

Título: Romero
Ano: 1989
País: Estados Unidos
Gravação: México
Gêneros: Drama / Biografia
Duração: 102 min
Diretor: John Duigan
Diretor de Fotografia: Geoff Burton, A.C.S
Produtora: Paulist Pictures
Elenco: Raul Julia (Arcebispo Oscar Romero), Richard Jordan (Padre Rutílio Grande), Ana Alicia (Arista Zelada), Eddie Vélez (Tenente Columa), Alejandro Bracho (Padre Alfonzo Osuna), Tony Plana (Padre Manuel Morantes), entre outros.

 

 

Advertisements