João Somma Neto
Professor do Curso de Jornalismo da UFPR e pesquisador associdado do objETHOS

O exagero semântico, a exploração desmedida de imagens impactantes, o sensacionalismo raso, a pieguice e o jornalismo assumido com ares de paladino da justiça têm caracterizado os telejornais regionais da proclamada maior rede de comunicação do Paraná – RPC.

Tornou-se corriqueiro o telespectador, que busca informações nos noticiários produzidos e veiculados pelas emissoras da rede, deparar com material jornalístico de pouca qualidade, isto quando não comprometido também em aspectos da ética profissional. De algum tempo para cá, quem assiste aos telejornais, junto com imagens apelativas em demasia à emoção, também observa uma tendência crescente à adjetivação desnecessariamente compulsiva nos textos pronunciados por repórteres e âncoras.

Diante desse quadro podemos indagar quais os princípios que na realidade regem a produção jornalística diária dos veículos daquela rede? Estaria na base das orientações editoriais a simples e louvável iniciativa de bem informar o cidadão, ou o que vem primeiro é a sedução do público visando aumentar os índices de audiência e por conseqüência o faturamento da empresa?

Informar bem, para que cada espectador possa usar as informações com proveito social revertido comunitariamente, não parece ser numa primeira análise um dos pilares do jornalismo da RPC.

Um dos acontecimentos mais chocantes deste ano até agora, em Curitiba, o confronto entre professores da rede estadual de ensino e a polícia militar, foi utilizado à exaustão no dia seguinte a esse episódio.

Embora com pouca divulgação na grade de programação da emissora fora dos noticiários, e mesmo no dia do conflito, quando poderia ter sido feita uma cobertura ao vivo e direto, o Paraná TV primeira edição que foi ao ar na hora do almoço em 30 de abril teve 94,35% de seu tempo de duração tomado por reportagens, entrevistas, comentários e notas sobre o confronto. Do total de 42 minutos e 48 segundos do telejornal, nada menos do que 40 minutos e 8 segundos foram destinados a abordagem desse único assunto. Os outros 2 minutos e 40 segundos foram ocupados por uma reportagem a respeito da prisão na cidade de Londrina de fiscais da receita estadual acusados de corrupção.

A edição de 30 de abril incrivelmente teve apenas duas pautas que geraram o tratamento de tão somente dois assuntos. Como a população costuma aferir a realidade pelo que passa nos noticiários de televisão, tudo o mais que possa ter ocorrido à margem desses dois acontecimentos, com maior ou menor relevância em termos de interesse público, é como se não tivesse acontecido, uma vez que mereceu ser solenemente ignorado pelo jornalismo da maior rede de televisão do Paraná.

Não se questiona a importância de mostrar para a população em geral a barbárie praticada na praça do centro cívico de Curitiba, nem de apresentar informações relevantes sobre o comportamento dos políticos no desenrolar dos fatos, mas sim de se atribuir a esse único evento tamanho tal que possa ocupar quase 100% do tempo de um noticiário que pretende ter abrangência estadual. Além disso, também é preciso examinar com cuidado a forma como as informações foram buscadas, apuradas, tratadas e veiculadas no trabalho jornalístico da RPC.

As equipes envolvidas na cobertura incluíram 11 repórteres e 12 cinegrafistas, conforme constaram nos créditos apresentados em GC ao final da edição, e apesar dessa variedade houve pouca ou nenhuma diferenciação tanto nos textos produzidos quanto nas imagens geradas, nos enfoques escolhidos e no tom adotado nas peças jornalísticas, o que permite compará-las a um autêntico “samba de uma nota só”.

Termos usados em profusão, tais como guerra, batalha, conflito, confronto, bombas, balas, tiros, medo, tensão, tragédia, explosões, acontecimento triste, cenas chocantes, pessoas atacadas…, foram repetidos sucessivas vezes nos offs, nas entradas ao vivo de repórteres, nas cabeças de VT e em outras intervenções do âncora.

Ao lado dos textos que enfatizavam e destacavam a belicosidade dos atos dos policiais, se bem que os professores também retribuíram atirando pedras e derrubando alambrados, o material jornalístico apresentado repetiu diversas vezes imagens que apenas realçavam a violência. Em planos abertos a preferência foi para cenas em que havia muita fumaça e bombas explodindo, gente correndo, e o pelotão de choque reprimindo manifestantes. Nos planos mais fechados, rostos aflitos, closes em mãos segurando cartuchos de balas de borracha disparadas, e em mães com crianças no colo.

Aliás, ressalte-se a tomada em que aparece uma senhora com a filha pequena nos braços, e no áudio a criança gritando: “ai, ai, mãe, estou com medo.” Como se não bastassem as imagens fortes, ainda colocaram a fala da criança em GC, para explorar mais o pavor sentido e manifestado.

As sonoras em geral mostravam pessoas perplexas, apavoradas, revoltadas, feridas, quando se fez sempre questão de mostrar os ferimentos, contudo não foi permitido a essas pessoas se pronunciarem por mais do que uns poucos segundos, nunca mais do que 10 segundos. Até mesmo um cinegrafista de outra emissora, mordido por um dos cães do batalhão de choque mereceu destaque, com direito a entrevista em sua casa para contar como foi atacado pelo animal. Será que há algum argumento técnico para justificar esses procedimentos, ou estamos diante de uma séria questão ética que deve ser tratada com urgência nos meandros das discussões acerca do telejornalismo hoje praticado e seu modelo desumano camuflado de humanização em suas histórias repletas de “personagens”?

Para ilustrar um pouco melhor o panorama sombrio desse tipo de jornalismo na televisão pode ser citado um trecho da entrada de uma das repórteres que participou da cobertura. Após ser chamada pelo apresentador de estúdio, ela entra ao vivo dizendo: “Estou aqui na praça em frente à Assembléia Legislativa, onde tudo aconteceu, as cenas de batalha que mostramos aqui na RPC TV […] o que fica é aquela sensação de um dia depois da tragédia, depois de um acontecimento muito triste, as pessoas caminham olhando para o chão, procurando algum resquício, algum vestígio do que aconteceu ontem aqui em frente à Assembléia Legislativa do Paraná. Nossa equipe encontrou, olha, uma cápsula de uma bala de borracha, tem até o cheiro de pólvora ainda. Essa eu vou guardar…é aquela história né? Não esquecer pra não repetir”.

Não é mesmo um texto primoroso no que se refere às informações, ‘informações de qualidade, relevância e interesse público’, repassadas ao telespectador? Constata e informa que a cápsula da bala de borracha tem cheiro de pólvora! Admirável! Seria muito menos interessante, sem dúvida, se o cartucho tivesse cheiro de qualquer outra coisa que não fosse pólvora.

É estarrecedor como são deixadas de lado as premissas mais comezinhas do ético e bom jornalismo, em troca de abordagens medíocres cada vez mais presentes nesse tipo de telejornalismo mercantil que temos que assistir, sem que nos sejam dadas outras opções.

No fim do terceiro bloco do telejornal, depois de informar que a lista dos deputados que votaram a favor do projeto do governo para a reforma da previdência estadual, estopim de toda a manifestação reprimida, pode ser vista no site G1 PR, o apresentador lê parte de um editorial do grupo GRPCOM do qual faz parte a RPC TV, dizendo ainda que o editorial completo pode ser lido no Jornal Gazeta do Povo. Além de tudo, informações e opiniões incompletas, e quem quiser saber mais que procure outros veículos do mesmo grupo, afinal é preciso faturar, não é mesmo?

O fechamento da edição culmina mais uma vez com a repetição de imagens chocantes já mostradas no noticiário por diversas vezes. É como disse a repórter, “não esquecer para não repetir”, então não deixemos passar acriticamente esse jornalismo minúsculo, para não nos esquecermos de buscar outro tipo de Jornalismo, aquele efetivamente ético e compromissado com a relevância social que tem obrigação de apresentar.

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