Sylvia Debossan Moretzsohn
Professora da UFF e pesquisadora do objETHOS

Quem acompanha sistematicamente o trabalho da imprensa sabe como é difícil um jornal reconhecer um erro. Em parte porque o erro expõe uma fragilidade própria a toda atividade humana, e jornais e jornalistas gostam de cultivar a imagem de infalíveis, como se disso dependesse sua credibilidade. Mas, no caso brasileiro, a subordinação dos princípios clássicos do jornalismo aos interesses político-ideológicos dos empresários que comandam a imprensa e a levam a atuar como partido de oposição levanta sempre a suspeita: o que houve foi mesmo um erro ou terá sido uma distorção deliberada, uma mentira proposital, destinada a servir de munição nessa luta política?

Por isso as aspas do título: no último domingo, 8/11, O Globo estampou na primeira página o reconhecimento de que “errou” ao publicar acusação contra um filho de Lula. Pelo alvo da denúncia e pelo tempo decorrido entre a informação falsa e a retificação – quase um mês –, a dúvida sobre se o que de fato ocorreu foi um erro ou algo mais grave é procedente. Mas o mais relevante, nessa história, é o que ela revela sobre certos métodos de apuração e o que ela demonstra quanto à urgência de uma legislação sobre a mídia.

A “delação explosiva”

Correspondendo à expectativa produzida pelo Globo nas semanas anteriores, o jornalista Lauro Jardim, que até então acumulava as funções de editor da coluna e do blog Radar de Veja e de redator-chefe da revista, estreou com uma bomba que garantiu a manchete do jornal, em 11/10: “Baiano diz que pagou contas do filho de Lula”.

Com o selo de “exclusivo”, a chamada “revelava” que Fernando Baiano, o lobista preso na Operação Lava Jato, afirmara em delação premiada que havia pago R$ 2 milhões a Fábio Luis Lula da Silva, o Lulinha, para saldar despesas pessoais do primogênito de Lula. Na coluna, a “revelação” recebeu o título de “delação explosiva”, “destinada a causar um estrondoso tumulto”, ao pôr o filho do ex-presidente “no olho do furacão”.

Reportagem n'O Globo
Reportagem n’O Globo
Matéria na coluna de Lauro Jardim
Matéria na coluna de Lauro Jardim

No dia seguinte o jornal dava a suíte no alto da primeira página: “Oposição quer Lulinha na CPI” da Petrobras. A contrapartida, no corpo da reportagem, era apenas um registro com um breve desmentido do advogado do acusado.

Matéria n'O Globo
Matéria n’O Globo

No mundo virtual, houve a previsível avalanche de manifestações indignadas contra a corrupção, ao mesmo tempo em que apareciam contestações à notícia.

A informação era falsa, mas demorou 28 dias para ser corrigida. Em 8/11, o jornal publicou a retificação na primeira página de sua edição impressa. Uma pequena coluna, completamente desproporcional em relação à manchete que provocou o pedido de desculpas. No site, a correção saiu ao longo do dia e tampouco teve destaque. À noite, já havia desaparecido da home. E quem vai ao arquivo buscar a nota original não encontra retificação – o que reitera a importância das reflexões de Lívia Vieira em sua dissertação de mestrado sobre a necessidade do estabelecimento de critérios para a correção de erros no jornalismo online.

Capa d'O Globo
Capa d’O Globo
Errata discretamente publicada
Errata discretamente publicada

Na coluna e em seu blog – onde a correção ocupou espaço discreto mas, mesmo assim, recebeu mais de 470 comentários no primeiro dia –, Lauro Jardim assumiu o erro, porém, ao mesmo tempo, jogou para um sujeito indeterminado a responsabilidade pela publicação: “No texto, afirmou-se que constava da delação de Baiano…” (grifo meu).

Na verdade, diz Lauro, o delator citou “uma nora de Lula”.

A coluna não menciona outra nota publicada no blog do jornalista em 16/10, dias depois da denúncia bombástica, e igualmente enfática: “A nora de Lula denunciada por Baiano é a mulher de Lulinha”. De onde vinha a certeza? Simples: “quem conhece a família não tem dúvida em apontar a mulher de Lulinha como a nora referida”.

E assim, por ilações, vão sendo formadas as convicções.

Mesmo diante de contradições evidentes: nesta nota, Lauro afirma que Lula têm três noras. No desmentido, são quatro.

Se o nível de imprecisão é tão elementar, fica difícil acreditar em todo o resto.

Coluna de Lauro Jardim n'O Globo
Coluna de Lauro Jardim n’O Globo

Fontes protegidas, bastidores preservados

À parte a disparidade entre o destaque dado à acusação e a retificação, é notável que “a coluna” tenha pedido desculpas apenas “a Fábio Luís, a Lula e aos seus familiares”, e não, também, aos leitores, que deveriam ser a preocupação primordial de qualquer jornal.

Porém, talvez o mais notável seja a absoluta ausência de justificativa para o erro: se a informação não constava do depoimento, como foi obtida?

Retornemos à entrevista que apresentou o colunista a seu novo público, e que, lida agora, soa amargamente irônica: “Eu busco o tempo todo credibilidade, minha informação não pode ser errada ou mesmo imprecisa, o tempo todo eu busco conversar com as pessoas certas pra publicar a informação o mais correta e fiel possível, porque na verdade o leitor hoje tem acesso a trezentos mil sites por dia e a esmagadora maioria deles é composta de sites que não têm o menor compromisso com a informação confiável”.

Pois é assim: o jornalista comum precisa checar documentos. Ao colunista prestigiado, basta falar com as pessoas certas.

Terá sido, agora, uma pessoa errada? Quem seria tão confiável assim para levar um jornalista a bancar uma denúncia tão “explosiva”, e de tão graves consequências?

O problema de jornais e jornalistas que prometem revelar bastidores é a propaganda inescapavelmente enganosa, seja porque as revelações – quando verdadeiras – são sempre seletivas, seja porque jamais alcançam os métodos utilizados para chegar a elas.

Isto coloca em causa um aspecto pouco discutido sobre o sigilo da fonte: trata-se de uma garantia constitucional, inquestionável condição para o pleno exercício profissional. Mas, quando a fonte mente, ou apenas se equivoca, mas em qualquer caso induz o jornalista a erro – na hipótese de que haja erro de fato, e não um acordo entre jornalista e fonte para “plantar” um balão de ensaio –, ela deve continuar anônima?

Se no campo jurídico não há determinação a esse respeito, no campo da ética deveria haver consenso entre jornalistas sobre a maneira de agir em casos assim, e não só quando se trata de informações falsas, que expõem a inconfiabilidade ou as más intenções dos informantes: também em casos de tramas escusas ou ilegais, como as que marcaram o início da projeção pública do então capitão Bolsonaro, recordadas por Luiz Egypto há alguns anos no Observatório da Imprensa.

Direito de resposta e o silêncio dos jornalistas

Mas há um ingrediente a mais nessa história. Na véspera em que apresentou suas desculpas, Lauro Jardim publicou em seu blog uma nota sobre a disposição de Lula em se tornar o “campeão mundial de processos contra jornalistas”.

Como se sabe, Lula está processando a revista Veja pela reportagem principal da edição de 24/7, em que aparece na capa com o título “A vez dele” e insinuações de corrupção passíveis de serem apontadas pela Operação Lava Jato. Mas o mais relevante são as coincidências: no início do mês passado, voltou à baila o tema da regulação da mídia, abordado com cautela pelo novo ministro das Comunicações. E, no início deste mês, a aprovação no Senado do projeto de lei que regulamenta o direito de resposta também provocou protestos, não só das entidades representativas do patronato mas também da ABI.

À parte o que se possa questionar a esse respeito – e um dos temas essenciais, como mostrou Valéria Said em artigo publicado no Observatório da Imprensa há quase três anos, é o significado da resposta “proporcional ao agravo” –, é certo que qualquer tentativa de legislar sobre a mídia detona invariavelmente uma reação exaltada dos empresários do setor. Assim, o recurso à Justiça tende a ser visto como uma tentativa de intimidação aos jornalistas, algo abusivo, odioso, incompatível com a liberdade de expressão.

Sabemos como são falaciosos e recorrentes esses argumentos, mas a nossa incapacidade de avançar nesse campo demonstra a força dos que desejam manter a situação como está. Daí a relevância desse “erramos” do Globo: seria muito oportuno que o pretendido “estrondoso tumulto” a ser provocado por essa nota falsa saísse do âmbito estrito da política para pôr em causa a atuação de nossa imprensa.

Seria, também, libertador para os próprios jornalistas, cujo silêncio diante desse caso pode sugerir uma errônea apatia: bastaria considerar o mal-estar que causa a contratação de um jornalista a peso de ouro quando tantos outros vêm perdendo seus empregos. Para piorar, esse medalhão estreia justamente com uma barriga – para dizer o mínimo – que seria fatal para qualquer profissional de status inferior. Por que os jornalistas não protestam? Porque a concentração dos meios e a proeminência do Grupo Globo têm esse poder intimidatório: quem ousa falar arrisca não apenas o emprego mas compromete seu futuro imediato, mesmo que vá trabalhar em assessoria, pois a engrenagem exige o cultivo de boas relações. Uma legislação que desmonte o quadro atual de oligopólio não favorece, portanto, apenas a diversidade de pautas, mas a liberdade de expressão dos próprios jornalistas.

Atualizado em 14/11/2015:

Às 18h01 do dia 11/11, O Globo incluiu, na abertura da nota original que resultou na manchete sobre o filho de Lula, o reconhecimento do erro. E, às 23h55 do dia seguinte, informou que “eliminou de seu site, e outros canais digitais, matérias relacionadas à notícia publicada com erro envolvendo Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha” (http://oglobo.globo.com/brasil/o-globo-retira-da-rede-materias-relacionadas-informacao-errada-sobre-filho-de-lula-18039220) , entre elas uma que é citada neste artigo.

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