Lívia de Souza Vieira 
Doutoranda no POSJOR/UFSC e pesquisadora do objETHOS

Num tempo em que tudo está em transformação no jornalismo, o que não muda? Este texto pretende refletir sobre o tema, problematizando alguns valores fundantes da profissão, em contraste com o presente cenário de crise.

Para isso, vamos voltar no tempo. Após arrefecer-se o controle da Igreja sobre a sociedade na Idade Média, a era Moderna inicia com uma imprensa muito próxima do poder. Daniel Cornu (1999) lembra que os primeiros periódicos feitos à mão, anteriores à impressão, se destinavam a informar os príncipes, banqueiros e comerciantes. “Se os jornais se desenvolvem, apesar de tudo, é porque a informação, que não deixou de acompanhar os progressos das trocas e do comércio, tende ela própria a tornar-se uma mercadoria” (p. 137).

Na França, a nova burguesia começa a se reunir nos salões. Na Inglaterra, nos cafés. Nestes espaços públicos, a informação circula junto aos primeiros periódicos, num período de transição entre a esfera privada e a pública. Conversar e debater sobre os acontecimentos da cidade se torna cada vez mais importante, embora tal ato estivesse restrito a determinada classe social.

A prensa móvel de Gutenberg, em meados do século XVIII, conferiu à imprensa o status de atividade profissional. No entanto, Amado (2005) chama atenção para a tensão que se instaura, a partir daí, com a circulação da informação como uma mercadoria. “Es decir que el periodismo se desarolló, desde que existe, como um negocio. Y hay quienes sostienen – precisamente por eso – que el periodismo ha vivido siempre atravesado por crisis” (p. 34).

Ao investir em pesados maquinários industriais de impressão, os donos de jornais encontraram na publicidade um meio de não só repor esse investimento, mas também de lucrar com a atividade jornalística. Genro Filho (1987) destaca que o crescimento da população urbana e a diminuição do analfabetismo contribuíram para aumentar o número de leitores. A utilização dos avanços técnicos e o aumento da circulação, que foi impulsionado com a baixa do preço do exemplar, aumentaram os gastos. “O próprio desenvolvimento do capitalismo mostrou a solução através da publicidade. Os anunciantes se encarregariam de financiar os custos” (p.165).

Dessa forma, se por um lado há uma busca por informação, aliada a todas as discussões a respeito da liberdade de expressão, há também o nascimento de um negócio intrinsicamente ligado ao capital e à era industrial.

Tal engrenagem contrasta, desde então, com a função social do jornalismo. Ao longo da história, não foram raros os momentos em que interesses das grandes empresas de mídia se chocaram com o interesse público. E hoje, quando esse modelo de publicidade entra em crise, devido à queda nas vendas do jornal impresso, à falta de rentabilidade na internet, e à pluralidade de narrativas produzidas por cidadãos comuns nas redes sociais, questionamos: a atividade jornalística ainda é viável e necessária?

Concentremo-nos então na reflexão a respeito dos valores cânones desta profissão, para tentar responder à pergunta. A informação jornalística, conforme aponta Cornu (1999), liga-se a um aspecto específico da verdade, que é a de interesse público. Ao jornalista, a rigor, não competem as verdades privadas.

A partir desse valor – o da verdade de interesse público – já podemos estabelecer a primeira reflexão. Por que, então, o jornalismo atual se dedica tanto à vida privada de celebridades? Ao jornalismo cabe encontrar o ponto de equilíbrio entre a liberdade de imprensa e a proteção à pessoa. Manchetes como a abaixo destorcem o que a profissão realmente é e acaba por contribuir para seu descrédito.

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Fig. 1: Matéria do site Ego noticia a ida do cantor Chico Buarque à padaria[1]

O jornalista é, também, um homem político, segundo Max Weber. Sua responsabilidade é, antes de tudo para com o público, pelo direito deste último ser informado. “Essa missão pública é a primeira condição da democracia. A ignorância favorece o poder dos que detêm nas suas mãos a informação e a protegem pelo segredo” (CORNU, 1999, p. 382). Isso não significa uma prática política, no sentido estrito. Mas a responsabilidade que todo jornalista tem de “restaurar as faculdades críticas da informação” (p. 390). Ou seja, a informação jornalística, tida como um direito, deve contribuir para a formação crítica do cidadão.

Tal valor não aconteceu no início da cobertura sobre o crime ambiental em Mariana (MG), em que as primeiras matérias eram reproduções das versões das assessorias de imprensa da Vale e Samarco. Além da posição acrítica, muitos veículos ainda desinformaram, como no exemplo abaixo, em que a Folha de S. Paulo reproduz declarações da Samarco e da Guarda Municipal, insinuando que o rompimento da barragem havia acontecido após um abalo sísmico. Se o próprio observatório da USP disse que o impacto registrado nem seria sentido pelas pessoas, pra quê noticiar uma informação visivelmente falsa?

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Fig 2: Trecho de matéria do jornal Folha de S. Paulo[2]

Sendo o jornalista responsável pela verdade, o rigor e seu método investigativo – a saber – a objetividade do relato – é também um cânone. “É a recolha de todos os fatos confirmados disponíveis. É tudo o que se opõe à falsificação, à deformação, à mentira. O rigor é um caminho balizado” (CORNU, 1999, p. 391). Em tempos de proliferação de boatos na internet, este talvez seja o papel mais importante do jornalismo em nossos tempos: o de apurar, verificar e publicar a informação mais precisa possível. E, para isso, o repórter dispõe de alguns privilégios: só ele pode entrar em determinados lugares, como em coletivas de ministros, em hospitais, em departamentos públicos, em nome do direito da sociedade à informação. Dessa forma, reproduzir fatos não confirmados é, novamente, contribuir para o descrédito da profissão.

Como fez a revista Veja, ao publicar reportagem de capa às vésperas do segundo turno da eleição presidencial de 2014, acusando Dilma e Lula de saberem sobre a corrupção na Petrobras. A presidente processou a revista e ela teve que se retratar.

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Fig. 3: Capa da revista Veja[3]

Enfrentar os dilemas do cotidiano recorrendo a interrogações éticas é também essencial em tempos de crise. “La ética no sólo ayuda a saber discernir, sino que ensena a dudar razonablemente y a buscar salidas razonables al impasse al cual nos aboca la duda irrestringida” (GUISÁN, 1986, p. 21). Com isso, não queremos dizer que a ética jornalística é um conjunto de regras imutáveis. Pelo contrário, ela é sempre fruto de uma interrogação que se move junto à dinâmica das relações sociais e à cultura. Como disse Eugênio Bucci (2000), muitas vezes a decisão ética não se faz entre o certo e o errado, mas entre o certo e o certo.

Diante disso, não é difícil constatar que programas jornalísticos como os apresentados por Datena e Marcelo Rezende por vezes assumem posturas antiéticas ao apelarem para o sensacionalismo. Ou casos em que o jornalista trabalha como assessor de imprensa em órgão público ou privado concomitantemente com a função de repórter de redação. Ou ainda ocasiões como a do extinto jornal “News of the World”, de Rupert Murdoch, acusado de fazer escutas ilegais de ligações de políticos e celebridades inglesas.

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Fig. 4: Última capa do “News of the World”, após escândalo[4]

Além da importância canônica da verificação, da qual já tratamos, nos parece igualmente essencial checar a informação e as versões com o maior número possível de pessoas, a fim de garantir a pluralidade. Cornu (1999) ressalta que o jornalismo deve procurar “pôr em discussão, no respeito pelo pluralismo, a universalização dos interesses universalizáveis” (p. 396). Isso quer dizer que os interesses das fontes não podem sobrepor-se ao interesse público e que o jornalista deve recorrer a outras vozes além das oficiais, evitando assim, o tom declaratório nas matérias.

Exemplo recorrente nos últimos tempos tem sido a simples reprodução de afirmações feitas por políticos em delação premiada. Muitos veículos jornalísticos têm tratado a informação desses réus como verdade absoluta, deixando espaço irrisório para outras versões. No exemplo abaixo, do jornal O Estado de S. Paulo, o contraponto à acusação de um dos delatores na operação Lava-Jato aparece só no último parágrafo do texto.

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Fig 5.: Matéria do jornal O Estado de S. Paulo[5]

O respeito pela pessoa e a não espetacularização da notícia igualmente são virtudes permanentes de um jornalismo responsável. “É contestável o uso dos testemunhos, dos documentos e das imagens como meios de uma informação que só se satisfaz com o seu próprio espetáculo – e não como fim de uma informação que procura a verdade no respeito pelo homem” (CORNU, 1999, p. 409). No exemplo a seguir, a repórter da TV Band constrange um rapaz preso diversas vezes, debochando da forma como fala e o acusando diretamente.

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Fig. 6: Frame de vídeo com reportagem da TV Band[6]

Dessa forma, compreendemos que, mesmo num cenário de instabilidade econômica, a atividade jornalística ainda se faz extremamente necessária para o registro dos acontecimentos do tempo presente com responsabilidade, precisão e ética. No entanto, os exemplos citados mostram o quão difícil é o cumprimento de valores fundantes do jornalismo, capazes de garantir a tão sonhada legitimidade diante do surgimento de narrativas muitas vezes feitas por não jornalistas. São eles, a saber:

– A verdade de interesse público

– A informação que contribui para a formação crítica do cidadão

– O rigor e a objetividade do relato

– O enfrentamento de dilemas do cotidiano recorrendo a interrogações éticas

– A pluralidade de fontes e versões

– O respeito pela pessoa e a não espetacularização da notícia

Certamente esses valores não se esgotam aqui, mas ressaltamos o fato de que eles independem de suportes midiáticos. Seja no impresso, rádio, TV ou internet, recorrendo a esses cânones, o jornalismo pode ser capaz de sobreviver e tornar-se essencial para a formação de uma sociedade mais democrática. Simplesmente porque não há outra profissão ou cidadão que se preocupe com tantos aspectos dos acontecimentos da realidade. Por isso mesmo, abdicar desses valores em nome de outros interesses é um enorme erro. Algumas coisas não mudam. E não devem mesmo mudar.

Referências

AMADO SUÁREZ, Adriana (Ed.). Se puede saber lo que se pasa? Buenos Aires: Norma, 2005.

BUCCI, Eugênio. Sobre ética e imprensa. São Paulo: Cia das Letras, 2000.

CORNU, Daniel. Jornalismo e Verdade: para uma ética da informação. Tradução de Armando Pereira da Silva. Lisboa: Instituto Piaget, 1999.

GENRO FILHO, Adelmo. O segredo da pirâmide – para uma teoria marxista do jornalismo. Porto Alegre: Tchê, 1987.

GUISÁN, Esperanza. Razón y pasión en ética: los dilemas de la ética contemporânea. Barcelona: Anthropos, 1986.

[1] Disponível em: http://ego.globo.com/Gente/Noticias/0,,MUL1363727-9798,00-CHICO+BUARQUE+COMPRA+BAGUETES+PARA+O+LANCHE+DA+TARDE.html (acesso em 4 dez 2015)

[2] Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2015/11/1702906-rompimento-de-barragens-atinge-distritos-em-mariana-mg.shtml (acesso em 04 dez 2015)

[3] Disponível em: http://veja.abril.com.br/blog/ricardo-setti/politica-cia/exclusivo-dilma-e-lula-sabiam-de-tudo-diz-alberto-youssef-a-pf/ (acesso em 04 dez 2015)

[4] Disponível em: http://portalimprensa.com.br/noticias/internacional/62035/procurador+acusa+ex+chefes+do+news+of+the+world+de+envolvimento+com+escutas+ilegais (acesso em 4 dez 2015)

[5] Disponível em: http://politica.estadao.com.br/blogs/fausto-macedo/delator-diz-que-pediu-ajuda-a-amigo-de-lula-por-sua-relacao-com-palocci/ (acesso em 4 dez 2015)

[6] Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=1lk0yMCCWso (acesso em 4 dez 2015)

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