Mariana Rosa
Mestranda em Jornalismo no POSJOR e pesquisadora do objETHOS

Ao longo da semana, os protestos do dia 13 de março, realizados em diversas cidades brasileiras pedindo o impeachment da presidenta Dilma Rousseff, foram repercutidos pela imprensa como a maior manifestação política do país. Pouco espaço se deu, no entanto, para o teor dos discursos professados na situação. Que a reivindicação principal era o combate à corrupção, sobretudo a praticada pelo PT, fica evidente em todos os registros, pelos dizeres estampados na maior parte das faixas e cartazes, assim como pela presença de inúmeros e, diga-se de passagem, opulentos para tempos de crise econômica, bonecos infláveis de Lula e Dilma.

Em meio aos pedidos de “Fora corruptos” (com destaque em vermelho para pt) são professados, em menor medida, porém chamativos o suficiente para serem notados – por quem quiser ver – discursos de ódio e preconceito à presidenta Dilma, ao ex-presidente Lula e a outras lideranças políticas. Sem contar com o perigoso saudosismo ao golpe militar de 1964, assim como pedidos genéricos de intervenção militar, que insistem em aparecer nas manifestações. Casos isolados ou não, é preocupante o silenciamento dos mesmos na grande imprensa brasileira.

Na medida em que se cala a respeito, a imprensa consente que seja razoável a presença – e, mais que isso, a aparente aprovação geral – de tais discursos em um processo que pretende a transformação do país. Se for assim, qual é a mudança que nos espera?

Violência e preconceito, em público e em privado

Alguns episódios como “piadas” com temas de cunho racista ou sexual chamam a atenção neste sentido. Sem destaque nos jornais da grande mídia, a faixa com os dizeres “Balança que essa quenga cai”, na manifestação em Recife, foi lembrada no Facebook pelo projeto Catarinas. Casos semelhantes repercutiram na rede social, assim como o cartaz que pedia “Femininicídio sim! Fomenicídio não! #fora PT”, também divulgado na página do projeto.

Outro, talvez o mais representativo deste fenômeno de silenciamento, foi protagonizado pelo deputado Jair Bolsonaro, durante discurso aos manifestantes no ato pró-impeachment em Brasília, dia 13. Defendendo a prisão de Lula, Bolsonaro disse que, uma vez preso, o ex-presidente receberia visita íntima do deputado Jean Wyllys – e foi aplaudido com entusiasmo pelos presentes. Publicado pelo blog Socialista Morena, o trecho foi omitido na publicação do discurso pelo jornal O Globo, que se limita a mostrar o trecho anterior da fala e termina alguns segundos antes da frase de intenção ofensiva.

Vale lembrar que o caso, em parte semelhante, das frases polêmicas de Lula teve um tratamento radicalmente diferente pelo jornal. Em parte, porque guarda uma diferença fundamental: a fala de Lula era em âmbito privado e não público (esta questão, assim como as demais implicações da divulgação de grampos, é comentada pelo professor e pesquisador do objETHOS Rogério Christofoletti no artigo Grampos e as responsabilidades da mídia). Ainda assim, uma vez tornada pública pelo vazamento das gravações, a mesma foi analisada em reportagem do jornal que conta com a análise de três especialistas, entre outras fontes. Sobre a mais polêmica delas, a ativista feminista Stephanie Ribeiro lembrou: “Lula é nordestino, e ‘grelo duro’ é uma expressão usada nessa região do país. E é no sentido de mulher porreta”. Ainda assim, o título da matéria é enfático: “Expressões chulas de grampos telefônicos de Lula reproduzem preconceitos”.

Os flagrantes da vez

Se, por um lado, falta atenção ao que se grita nas ruas, sobra para sensacionalizar o que se dá no cotidiano das figuras públicas. Em meio à tamanha crise, ainda há espaço para as notícias que se prestam a “flagrar” o irrelevante, como a nota sobre as compras da deputada federal petista Benedita da Silva na coluna de Murilo Ramos na Revista Época, na terça-feira. “Benedita da Silva ignora a crise do governo petista e vai às compras”, informa o título.

No blog de Lauro Jardim, colunista do jornal O Globo, destaca-se que “Eleonora Menicucci, das Mulheres, ignora piadas machistas de Lula e vai à posse”. A nota reproduz o conteúdo das conversas privadas de Lula mas não dedica uma linha a qualquer manifestação da secretária especial de Políticas para as Mulheres, que sequer  é ouvida pelo repórter da coluna Guilherme Amado.

Os dois exemplos, que em muito se assemelham aos conteúdos de uma coluna social, demonstram o máximo da degeneração vivida pelo jornalismo que se diz especializado em política. Como adverte o pesquisador do objETHOS Ricardo Torres no artigo Por que o jornalismo político está destruindo a política?, “é hora de repensarmos o jornalismo “político”, a sociedade e a democracia precisam de um jornalismo sobre política pautado pelo respeito e pela pluralidade”.

O “Brasil” e os “aliados de Dilma e Lula”

Por fim, uma rápida comparação entre as manchetes principais nas capas do jornal O Globo nos dias 14 e 19 de março, demonstra até que ponto o jornal se dispõe a interpretar os motivos que levaram os brasileiros, todos eles, às ruas ao longo da turbulenta semana.

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Diferença de tratamento entre manifestantes contra e a favor do PT

Na primeira, é o “Brasil” quem se manifesta, na segunda, os “aliados de Dilma e Lula”. Enquanto em uma temos a impressão de estarmos diante do país como um todo, das suas diversas expressões, na outra, a sensação é de que estamos tratando de um grupo restrito ligado ao governo por algum tipo compromisso – é a isso que a palavra aliados costuma se destinar no noticiário político e este é, de fato, o seu principal significado, outro , é o de ser solidário a alguém.

Na nota de chamada para a reportagem do dia 19, logo abaixo da manchete principal, os manifestantes são descritos como “pró-Dilma e Lula”. De fato, quem foi às ruas no dia 18 demonstrou apoio ao governo Dilma, foi solidário, no sentido de se colocar contra o impeachment. No entanto, chama a atenção no texto, assim como no título, a escolha de não trazer à tona a proposta principal dos atos em questão, que era a defesa da democracia, o que se mostra evidente desde o nome do evento (Ato unificado em defesa da Democracia) até sua principal palavra de ordem: “não vai ter golpe!”.

Resta, assim, a incômoda questão: por que nenhuma delas, proposta e palavra de ordem, ousa ser citada pelo jornal?

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