Ricardo José Torres
Mestrando em Jornalismo no POSJOR e pesquisador do objETHOS

Ao tratar de princípios relacionados a ética jornalística é natural buscarmos referências que estão na essência da profissão. Apesar de parecer uma abordagem tautológica esse esforço pode ser vital para que possamos clarear a prática jornalística no que Castells (2013) chama de era da informação. Paradoxalmente, no momento histórico de maior possibilidades de comunicação e inter-relação social, os jornalistas parecem estar perdidos e temerosos em meio às múltiplas vozes que perpassam os nossos cotidianos e impactam diretamente nas ações que envolvem o jornalismo. Kucinski (2005), aponta que esse contexto contém elementos de uma revolução que apresenta a possibilidade de uma atividade jornalística norteada pela adaptação, pelo entendimento e pelo aproveitamento das novas características tecnológicas, culturais e econômicas que se apresentam.

A emergência das mídias sociais e a consolidação da internet está operando um processo de construção e reconstrução da atividade jornalística. Nesse momento de transição não podemos perder de vista os princípios e valores que formataram e consolidaram o alicerce da profissão ao longo dos anos. Para Karam (2014), o patrimônio ético, a linguagem e a estruturação do texto, as técnicas de checagem e apuração, e os valores associados a credibilidade, veracidade e legitimidade podem apontar os traços distintivos da atuação dos jornalistas. Nesse sentido, o suporte que irá ser utilizado para disseminar o conteúdo jornalístico não pode ser o único balizador para a produção das informações e a busca pela relevância deve continuar sendo um norte para os jornalistas.

Algumas ameaças éticas permeiam esse novo contexto como, por exemplo, às pressões que advêm da falta de dinheiro, da redução de efetivos, das múltiplas tarefas e da atualização permanente das informações. Singer (2014), destaca que esse panorama propicia o surgimento de erros e o aligeiramento das práticas de verificação gera à transferência, para os públicos, da produção de notícias que os profissionais já não têm tempo ou meios para garantir. De uma forma geral, as práticas estão sendo orientadas pela pressão do tempo e pelas efemeridades que inundam a internet, especialmente as mídias sociais. O tratamento das informações e as técnicas estão sendo deixadas de lado e os jornalistas estão replicando as informações oriundas de diferentes fontes, sejam elas, profissionalizadas ou não. Essa infinidade de fontes de informação impõe uma série de adaptações imediatas e pouco planejadas ao segmento jornalístico.

Jornalismo de causa e a causa do jornalismo

O jornalismo deve propor debates sobre determinados temas, personagens e controvérsias que visem o bem comum. Em linha com essa premissa Aznar (2005), assinala que as ações jornalísticas deveriam priorizar grandes questões relacionadas a sobrevivência da humanidade, articulando debates norteados pelo esclarecimento, que permitam a compreensão dos fatos. Baseado em um conjunto de valores e crenças que são formatados por termos que evoluem ao longo do tempo a atividade jornalística se liga a causas específicas. Percebe-se a existência de um tipo de engajamento que está, essencialmente, relacionado ao advocacy journalism, isto é, jornalismo em prol de uma causa ou de causas.

Conforme Waisbord (2009), as práticas que envolvem o jornalismo de causa são impulsionadas por uma noção de que os meios de comunicação devem ser um instrumento de mudança social e as informações contribuem para a sensibilização das prioridades e agendas relacionadas a definição de problemas públicos. Trata-se de uma estratégia jornalística baseada na mobilização. Esses fatores estão na base do reconhecimento e da consolidação da reputação do conteúdo jornalístico que, em um mundo ideal, deveria constituir um espaço público plural fornecendo uma multiplicidade de fontes e de fatos alinhados com as necessidades sociais.

As possibilidades do ambiente digital facilitaram o surgimento de diferentes perspectivas para o jornalismo que incluem a defesa de causas que eram constantemente ignoradas pelos meios de comunicação tradicionais. Sampedro (2014), ratifica que a atividade jornalística está esquecendo ou escondendo a verdadeira notícia que é pré-requisito para o exercício dos direitos civis, atuando em defesa de suas alianças econômicas e eleitorais, para garantir resultados relacionados a favores financeiros, legais ou judiciais. Contudo, observa que a tecnologia digital abre espaço para novas alternativas caracterizadas pela geração e pelo compartilhamento de informações que dão origem ao que chama de bem comum. “A imagem não é apenas de degradação. Também assistimos ao surgimento de um quarto poder em rede, que substitui o anteriormente desempenhado pela imprensa. Melhor dizendo, ele vai ajudar a retomar a sua responsabilidade social” (p. 475).

Em linha com Sampedro (2014), a partir das tecnologias digitais, as audiências se tornaram públicos mobilizados e engajados. Uma parcela desses indivíduos orienta os seus esforços para demonstrar que a mídia corporativa é refém de seus credores bancários e de suas carteiras de publicidade. A informação que se resume em um produto a venda ocasiona a incessante busca pelo barateamento da produção jornalística e uma espécie de imunidade para determinados grupos de poder político e econômico. Essas ações tornam as práticas jornalísticas efêmeras e às aproximam de questões estritamente individuais que ocasionam discussões despolitizadas e distantes do interesse público e do bem comum.

Dader (2014) alerta que a peculiaridade do verdadeiro serviço democrático do jornalismo não está relacionado a escolha das razões mais benevolentes ou mais carregadas de razões, mas em permanecer distante e independente, aplicando os seus critérios profissionais de precisão, contraste e relevância guiado pelo interesse público. Serão critérios profissionais que irão garantir o papel de intermediário do jornalismo, resultado de um trabalho exigente e rigoroso, o serviço assim executado será democrático pela maneira que é exercido e não pelas causas com que os profissionais se identifiquem. A criação de narrativas jornalísticas conectadas e coerentes não irá abrir mão das suas convicções essenciais.

A velocidade extraordinária das formas de produção e disseminação do conteúdo jornalístico, particularmente nas mídias sociais, expõe novos dilemas e um conjunto de novas preocupações e desafios ligados à ética jornalística. Em meio às inúmeras informações como atrair a atenção e manter o compromisso com os parâmetros relacionados a relevância, sem falar no desafio apresentado pelas adaptações culturais e pela quebra de alguns paradigmas que permaneceram intactos durante décadas.

A mudança de cenário sugere um conjunto de tendências que têm bastante impacto no modo de concepção, organização e no trabalho jornalístico. Fatores elementares como reconhecimento (importância que o público concede ao conteúdo), atenção (capacidade de despertar a atenção dos indivíduos diante da infinidade de informações que estão a sua disposição), tempo (capacidade de incentivar os indivíduos a investir o seu tempo no conteúdo) e reputação (a confiança que os indivíduos depositam nos conteúdos) são particularidades fundamentais para o entendimento, para o aprimoramento e para longevidade das atividades jornalísticas.

Referências:

AZNAR, Hugo. Ética de la comunicación y nuevos retos sociales. Barcelona: Paidós, 2005.

CASTELLS, Manuel. Redes de indignação e esperança: Movimentos sociais na era da internet. Rio de Janeiro, RJ: Zahar, 2013.

DADER, José Luis. El periodista, entre el Poder. Revista Latina de Comunicación Social. p. 637-660. 2014. Disponível em: http://migre.me/rEu8Z. Acesso em: 22 set 2015.

KARAM, Francisco José Castilho. Jornalismo, ética e liberdade. 4. ed. São Paulo: Summus, 2014.

KUCINSKI, Bernardo. Jornalismo na era virtual: ensaios sobre o colapso da razão ética. São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo/ Editora UNESP, 2005.

SAMPEDRO, Víctor. Periodismo veraz, bien común y el Cuarto Poder en Red. Razón y Fé, nº 1377-1378, p. 471-482, mai. 2014. Disponível em: http://migre.me/rEvqa. Acesso em: 20 set 2015.

SINGER, Jane B. Sem medo do futuro: ética do jornalismo, inovação e um apelo à flexibilidade. In: CHRISTOFOLETTI, Rogério; FIDALGO, Joaquim. Ética na Comunicação. Comunicação e Sociedade, vol. 25, 2014. p. 49-66.

WAISBORD, Silvio. Advocacy Journalism in a Global Context. The handbook of journalism studies. p. 371-385. 2009. Disponível em: http://migre.me/rHBMe. Acesso em: 03 out 2015.

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