Rogério Christofoletti
Professor de Jornalismo na UFSC e pesquisador do objETHOS

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Gerações acreditaram que lugar de reportagem era nos jornais, revistas, telejornais e boletins de rádio. Era neles que desfilavam os fatos, que eram ouvidas as vozes mais esperadas e que o grande quebra-cabeças da realidade passava a fazer sentido. Foi assim por décadas e em quase todos os cantos do mundo. Mas as coisas mudaram! Há quem ainda alimente as velhas ideias, ignorando que “talvez o mundo não seja pequeno nem seja a vida um fato consumado”. Há quem ainda reserve um único espaço para o jornalismo, como se ele fosse produto exclusivo do meio de comunicação ou da empresa que o fornece. Os últimos anos têm mostrado que a realidade é mais complexa, o que não é necessariamente uma notícia ruim. Temos visto que o jornalismo pode viscejar em terrenos inóspitos, em condições precárias e a partir de motivações singulares. Como as ervas daninhas. Isso também não é necessariamente uma notícia ruim.

Ao mesmo tempo em que se martela na tecla de que o jornalismo está em crise, um conjunto expressivo de iniciativas do tipo se apresentam às sociedades. São sites de checagem de dados, pequenos veículos para coberturas especializadas e coletivos que se dedicam a reportagens investigativas. No Brasil, dezenas de projetos estão em atividade, já mostrou o mapa do jornalismo independente da Pública, esta também uma iniciativa para além da corrente principal dos meios. À medida que se tornavam realidade, uma primeira questão se impôs: o que esses projetos podem oferecer em termos de jornalismo? Ou ainda: fazem um jornalismo diferente do convencional? Não tardou para que viesse outra pergunta igualmente importante e incômoda: como esse jornalismo vai se sustentar financeiramente?

Ainda que as respostas não sejam definitivas, já é possível dizer que a sustentabilidade é um nó górdio, que não só antecipa a mortalidade dessas iniciativas como também reforça a ideia de que ainda estamos presos a alguns dogmas sobre modelos de negócios. Enquanto uns vaticinam o apocalipse e outros lamentam o leite derramado, outros empreendem, buscam soluções. No convés do Titanic, você pode escolher: desesperar-se, acompanhar o concerto final da orquestra ou ainda encontrar uma forma de não afundar.

Contra tudo

A história ajudou a calcificar a noção de que o bom jornalismo era feito nas empresas jornalísticas. Nelas estavam as condições ideais para se exercer a atividade: a redação como lugar privilegiado de produção das notícias, as rotinas e os rituais para moldar as práticas, o aparato tecnológico para a produção em série, um arcabouço ético para justificar todas as condutas… A história recente tem mostrado que muitas fronteiras que ajudavam a definir o jornalismo têm ruído diante de nossos olhos. Em 2013, Clay Shirky, Emily Bell e C.W. Anderson chamaram a atenção para que o batizaram de jornalismo pós-industrial. A premissa é simples: antes, o jornalismo era produzido por uma indústria e ela era restrita porque os meios e os modos de produção eram restritos a um clube limitadíssimo de atores. Mudanças na tecnologia e na cultura produziram terremotos na área e permitem hoje que se exerça o jornalismo para além das condições anteriormente impostas. A indústria perdeu a exclusividade, e há quem fale de “atos de jornalismo”, que podem ser “cometidos” não apenas por profissionais do ramo.

No Brasil, além das dificuldades de ter os meios de produção, havia uma barreira adicional: a jurídica. Até junho de 2009, só podia exercer jornalismo quem portasse registro profissional obtido a partir de um diploma de nível universitário. Quando o Supremo Tribunal Federal decidiu abolir a exigência, mais poroso ainda ficou o balcão que separava produtores de consumidores de informação.

Então, o que restou? A meu ver, a última linha de defesa do jornalismo é a que define uma ética própria. Cidadãos podem hoje ter seus veículos de informação de forma muito prática e barata; podem produzir narrativas e conteúdos, emulando as técnicas de confecção jornalística; podem alcançar grandes públicos e influenciar multidões, gozando de credibilidade e fidelidade de acesso, mas essas condições somadas fazem desses cidadãos jornalistas? Ora, é necessário algo mais: motivações internas para fazer jornalismo, incentivos externos para fazer isso de forma continuada e rotineira, valores e princípios que guiem suas condutas, preocupações e convicções legítimas.

Não é à toa então que alguns jornalistas busquem fazer jornalismo para além das empresas. Eles enfrentam condições precárias – não têm recursos ou grandes aparatos produtivos -, mas colocam na rede seus sites simples e baratos, como alternativas de informação. Seus projetos muitas vezes  abordam temáticas complexas e nem sempre populares, embora sejam relevantes para a vida social – como é o caso da cobertura sobre o meio jurídico do Jota ou de segurança pública da Ponte. Isto é, os terrenos palmilhados são inóspitos. E em diversos casos, são motivações singulares que movem as engrenagens: frustrações dos repórteres por não terem mais espaço para matérias que julgam importantes, falta de liberdade e independência editorial nos grandes meios, desejo por maior aprofundamento em certas temáticas, identificação de lacunas na cobertura de alguns assuntos…

Entre utópicas e mambembes, entre corajosas e suicidas, essas iniciativas jornalísticas surgem contrariando expectativas de longa duração, regras mercadológicas de sustentabilidade e dogmas profissionais. Elas se insinuam como alternativas ao modelo hegemônico de oferta dos serviços de informação; apresentam-se como independentes editorialmente, denunciando o cinturão de hipocrisia que abraça as cúpulas diretivas da mídia; insistem em novos pactos com suas audiências, num diálogo mais horizontalizado e cúmplice; discursam em torno de causas e interesse público, em detrimento de objetividade e imparcialidade.

Abrir mão dos dedos

Há uma outra razão que leva alguém a deixar seu emprego para empreender num projeto em que acredita, correndo todos os riscos: perceber que tudo o que está fazendo não é jornalismo. Alguém de fora do mercado pode se surpreender, mas é notório que algumas empresas da área têm abandonado o jornalismo por seus custos financeiros, desgastes políticos ou indisposições sociais. As empresas não tornam isso claro, mas deixam de fazer jornalismo com o ímpeto, a disposição e a coragem necessárias. De forma prática, priorizam temas fúteis em detrimento dos necessários, restringem verbas e tempo para a produção de conteúdos mais aprofundados, evitam zonas de atrito com outros núcleos de poder, e desencorajam seus profissionais de fiscalizar os poderosos.

Um exemplo recente ilustra esse cenário.

No final de junho, chegou à rede o Farol Reportagem, site catarinense que promete oferecer conteúdo jornalístico de qualidade com base em dados públicos, com foco na transparência e nos direitos humanos. Iniciativa de um único jornalista – mas que pretende atrair mais profissionais para a montagem de um núcleo de reportagem -, o site já começou a produzir efeitos: em três semanas, trouxe um punhado de investigações bem apuradas e com alta carga de interesse público; sozinho, pautou parte da mídia local e chamou a atenção das redes sociais; e vem paulatinamente obtendo doações e assinaturas que poderão garantir sua sobrevivência no restrito ecossistema midiático de Santa Catarina.

O Farol noticiou, por exemplo, documentos do Tribunal de Contas do Estado que demonstram crime de responsabilidade do governador Raimundo Colombo, e denunciou que o governo havia liberado recursos públicos para um evento privado da RBS, o principal grupo de mídia de Santa Catarina. Outra reportagem trazia à luz documento, antes restrito ao circuito judicial, e que revela uma realidade do sistema prisional muito diferente da alardeada pelas autoridades oficiais. Este exército de um homem só está ocupando espaços porque os meios convencionais têm aberto generosos flancos. Não tanto por escolha, mas por omissão.

Os veículos da RBS não fazem cobertura sistemática dos meios políticos locais. Há alguns anos, já não contam mais com setoristas na Assembleia Legislativa ou acompanham de perto os parlamentares que representam o estado em Brasília. Também não mordiscam os calcanhares do Poder Executivo, sabe-se lá porquê. Uma decisão de dois anos atrás reforça essa impressão: o principal jornal do conglomerado – o Diário Catarinense – modificou sua estrutura editorial, extinguindo as seções de Política e Economia, entre outras. Isso se deu em pleno ano eleitoral, quando a redação já tinha inclusive planejamento de cobertura para a campanha e o pleito! A justificativa era de que – com as editorias recém-criadas – os repórteres poderiam continuar cobrindo os assuntos convencionais, mas também transitariam entre as áreas…

A segunda força midiática no estado também deu sinais evidentes de qual jornalismo quer oferecer. Em abril passado, o Grupo RIC publicou um controverso editorial, afirmando que “no momento em que a crise toma conta do noticiário, faremos um contraponto à imprensa nacional, reforçando o lado bom de Santa Catarina. Neste momento difícil, estaremos sempre ao lado do cidadão, mostrando pautas positivas, mas também os problemas que exigem solução”. O editorial concluía a intenção de mostrar que “Santa Catarina não é o Brasil, mas um estado de excelência, capaz de encarar as adversidades com atitudes vencedoras”. Impossível não enxergar aí uma renúncia do papel que o jornalismo consolidou para si ao longo dos últimos dois séculos: colocar o dedo nas feridas e apontar o dedo para os responsáveis. Com tantos dedos, o que se conclui é que a mídia tradicional catarinense não abriu mão apenas dos aneis para conservar o que tem… Pode estar perdendo coisas mais preciosas…

Ao que interessa

As matérias que o ainda-nanico Farol fez são impossíveis para redações maiores? Não. O acesso às fontes e aos documentos são prerrogativa exclusiva do site? Não. As técnicas utilizadas são distintas das consagradas pelos grandes meios? Também não. Então, o que difere o Farol da mídia convencional de Santa Catarina?

Em menos de um mês, o quixotesco Farol Reportagem demonstrou que pode oferecer serviços de qualidade e com exclusividade, já que os grandes meios abriram mão do jornalismo-que-incomoda. A mídia consolidada prefere oferecer um jornalismo que acomoda interesses e que conforma, em vez de informar. Felizmente, o Farol não está sozinho e outras iniciativas minúsculas começam a se espalhar por todas as partes. Sobreviverão? Difícil prever. São relevantes? Em alguma medida sua existência mostra que sim, até para evidenciar por contraste o que os grandes meios não fazem. Vão substituir a estrutura hegemônica atual? Seria exagero admitir.

O exemplo do Farol me lembrou o episódio de estreia do seriado televisivo The Newsroom. Nele, uma meia dúzia de jornalistas convence Will McAvoy, um acomodado apresentador de TV, a criar um novo telejornal, orientado por nítidos critérios jornalísticos e dirigido ao interesse público. Depois de enfrentarem crises de ego e da própria empresa, e de insistirem em fazer as coisas da forma certa, todos percebem que são capazes de oferecer ao público um jornalismo de verdade. Numa das cenas finais, o diretor de jornalismo Charlie Skinner aborda Will e explica como conseguiram: “Nós apenas decidimos fazer”.

Onde mora, então, a reportagem?, pergunto no título deste artigo. Arrisco dizer que ela não reside nas redações nem nas grandes corporações jornalísticas. Não está nos livros ou manuais. Não se pode encontrá-la nos códigos de ética ou nas cartas de princípios dos veículos. A reportagem está com o repórter, e se ele decidir pelo jornalismo, é muitíssimo provável que irá encontrar maneiras de nos oferecer jornalismo.

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