João Somma Neto
Professor do Curso de Jornalismo da UFPR e pesquisador associado do objETHOS

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Os jogos olímpicos do Rio de Janeiro já fazem parte da história, e com sua fugacidade são somente lembranças enquanto as atenções se voltam agora às paraolimpíadas, se bem que sem o mesmo impacto midiático das competições que envolveram cifras astronômicas e que por isso mesmo se apresentaram como o evento queridinho dos veículos de comunicação.

Mas antes de falar dos custos de mais esse megaevento para os brasileiros é interessante atentar para o tratamento que alguns dos muitos personagens olímpicos receberam, sobretudo por parte da emissora oficial dos jogos.

Os competidores, principalmente os ditos representantes de nossa padecida pátria, foram tratados como verdadeiros “heróis”, diga-se “heróis” voláteis e inconsistentes para o que se pode designar por esse termo. Segundo o dicionário Aurélio, a palavra herói vem do grego héros, héroos, e do latim heroe, e significa o homem extraordinário por seus feitos guerreiros, seu valor ou sua magnanimidade. E atribui ainda ao termo equiparação ao mitológico semideus.

Fica clara a intenção de supervalorizar os feitos supostamente grandiosos desses competidores por meio deste tipo de designações, como se o esforço para obtenção de uma medalha estivesse num plano totalmente inalcançável, afinal “SOMOS TODOS OLÍMPICOS”, não é mesmo?

Ocorre que absolutamente não somos todos olímpicos como quiseram nos fazer acreditar durante todo o período dos jogos. Apenas quem alcançou a condição mínima de competir é que pode ser incluído nessa qualificação. Ou seja, são os atletas.

Ainda de acordo com o utilíssimo Aurélio, a palavra atleta vem do grego athletés, e do latim athleta, pessoa que na antiguidade greco-romana se exercitava na luta para entrar em combate nos jogos solenes, lutador. Pode ser empregada também para se referir à pessoa que pratica um esporte determinado, e que, geralmente, é treinada para competições esportivas.

Esses atributos muito bem expressos pelas definições do Aurélio não são comuns a todos nós, senão a um pequeno número de pessoas, por conseguinte restritos e que por si só diferenciam os atletas eficazmente treinados do conjunto dos simples mortais. Portanto parece incorreto denominar alguns deles como heróis, pois assim seriam os indivíduos que sem serem atletas conseguissem feitos semelhantes aos dos vencedores de provas olímpicas.

Junto com essas adjetivações exageradas, elogios fáceis e manifestações de ufanismo quase pueril, as transmissões da maioria das competições pelo canal oficial foram marcadas por autêntica gritaria. Narradores confundiram freqüentemente a ênfase necessária para destacar algo com o grito incontido, o berro meio alucinado, como se esse comportamento conferisse mais emoção às imagens que na maior parte das vezes falam por si só.

Além disso, a cobertura jornalística das olimpíadas na televisão, em especial na maior rede nacional, em geral deixou bastante a desejar, se concentrando sobremaneira em informações secundárias, em apurações mal feitas junto a pouquíssimas fontes, e com uma preocupação excessiva em emocionalizar o conteúdo.

Como se não bastasse esse panorama durante todo o tempo em que duraram as provas, logo na primeira edição do Jornal Nacional após o término do maravilhoso evento, no dia 22 de agosto passado, houve algo fenomenal em se considerando os parâmetros usuais do telejornalismo propagados aos quatro cantos do país a partir dos critérios de produção do conglomerado global. Uma única matéria jornalística sobre a recém encerrada olimpíada durou mais de 14 minutos ininterruptos.

Tudo começa já na escalada do noticiário, onde surge uma chamada para a reportagem que abriu o bloco inicial: “O primeiro dia depois da festa…” Dessa forma é licito se indagar o seguinte: então tudo não passou de uma festa?

Após a vinheta de identificação do programa jornalístico entra a reportagem em que o âncora destaca o movimento recorde no aeroporto Ton Jobim. As informações realçam que 85 mil passageiros passaram por lá, e enfatizam que se registrou o dobro da movimentação normal, resultando em 28 toneladas de bagagem transportadas. O telespectador também é informado que o velocista jamaicano Usain Bolt já havia ido embora no dia anterior.

Outro dado essencial foi passado à audiência; a “gigante do esporte” ginasta norte-americana Simone Biles “do alto de seus 1,45 m de altura” estava levando 4 medalhas de ouro e uma de bronze na mala. E o repórter ainda conseguiu o grande feito de encontrar no aeroporto um casal norte-americano que passou a lua de mel em ares, mares e terras cariocas.

Em complemento ao material gravado e devidamente editado, foi colocada no ar entrada ao vivo do repórter direto do aeroporto, mostrando que mesmo com o movimento excepcional não houve grandes filas no embarque em virtude da contratação de mais de 200 funcionários. Também informou algo de extrema relevância: a venda de chocolates no aeroporto foi cinco vezes maior do que o normal. O jornalista ainda registrou que as pessoas ali presentes estavam muito satisfeitas, tendo inclusive encontrado um russo que classificou a “festa” como inesquecível.

Em seguida entra em cena a festa de encerramento, com a frase marcante: “teve carnaval ontem no Maracanã”. Aliás, essa parte da matéria é primorosa quanto às informações importantes, pois o repórter diz o seguinte: “O fogo olímpico já não brilha mais na cidade olímpica. Ficaram alegria e orgulho pela missão cumprida misturados com um sentimento de nostalgia de tudo que vivemos tão intensamente. O nome disso o mundo agora já sabe: é saudade”. Não faria melhor se tivesse que redigir um texto por encomenda realizada pelo comitê olímpico.

Apesar de ser feita uma citação de abordagens da imprensa internacional, onde apareceram referências aos desafios futuros do Rio de Janeiro e do País, notadamente com a crise política, desemprego e insegurança e também aos pesados gastos com o evento, todos esses aspectos surgem genericamente.

Outro ponto presente na matéria foi o balanço positivo apresentado pelo comitê olímpico brasileiro, com destaque para o desempenho dos atletas, mesmo sem ser atingida a meta original de conquistar 27 medalhas, cujo objetivo era ficar entre os 10 primeiros colocados. A colocação brasileira foi em 13º lugar. Nossos “heróis” obtiveram 19 medalhas, sete de ouro, seis de prata e seis de bronze, recorde do Brasil em olimpíadas, resultado da participação de 465 atletas de nossa delegação, o que representa 0,04 medalhas por integrante.

Ao fazer a avaliação positiva, um dos representantes do comitê olímpico apareceu afirmando que os atletas brasileiros pediram para que o governo brasileiro mantenha o projeto de concessão da bolsa pódio, bolsa olímpica, e o plano medalha, que é fundamental para melhorar o desempenho do país.

Uma vez que o JN concedeu espaço e tempo para tanta coisa irrelevante, podia ter aproveitado a oportunidade e informado melhor o público. Por exemplo, poderia ter mostrado que dos 465 atletas brasileiros, que disputaram as provas olímpicas, 358 (77% do total) receberam algum tipo de bolsa com valores variando do mínimo de R$ 950,00 por mês a R$ 15.000,00 mensais. Isto sem falar dos patrocínios de empresas privadas ou de órgãos públicos ou de economia mista como Caixa Econômica, Banco do Brasil, Petrobrás, etc., valores esses que não se sabe a quanto chegaram. Outros dados relevantes omitidos incluem o investimento direto do governo apenas com as bolsas totalizando R$ 80 milhões, e o fato de que 68% das 19 medalhas brasileiras foram conquistadas por atletas militares.

Se formos levar em conta todo esse investimento feito pelo povo mesmo sem ser consultado a respeito, o cidadão que chegou próximo ao ídolo de pano Neymar à beira do gramado, na final do jogo Brasil x Alemanha e lhe disse que não tinha feito mais do que a obrigação, está com toda a razão. Esses “heróis” preparados e treinados por anos a fio, com dedicação quase exclusiva a essas atividades não fizeram mesmo mais do que a obrigação, em que pese o endeusamento da mídia capitaneada pela emissora oficial dos jogos, cujo faturamento em cima do evento também deveria vir a público.