Amanda Miranda e Lívia Vieira
Doutorandas no POSJOR/UFSC e pesquisadoras do objETHOS

O jornalismo se destaca em cenários de grandes tragédias e catástrofes porque é nesses momentos que ele cumpre uma das suas principais funções: informar com credibilidade, veracidade e um mínimo de profundidade em meio à comoção. Nunca é fácil, principalmente quando essa tragédia vitimiza 71 pessoas, entre atletas, dirigentes e jornalistas, como ocorreu nesta madrugada, com a queda do avião que transportava o time da Chapecoense para disputar uma final da Copa Sul Americana.

Com mais de oito milhões de seguidores no Facebook até o início desta terça-feira, nenhum veículo de comunicação chamou mais atenção durante a cobertura do que o Catraca Livre, portal que tem como lema “comunicar para empoderar” e que recebeu uma enxurrada de críticas dos leitores após adotar uma estratégia controversa para tratar de um assunto delicado, comovente e dolorido. O portal chegou a ficar entre os primeiros no Trending Topics do Twitter, tendo sendo citado em mais de 19 mil tweets até o início da mesma tarde.

O caso nos permite refletir sobre como veículos que conquistam reputação junto ao público podem perdê-las ao buscarem audiência a qualquer custo. Para se ter uma ideia, ainda não se tinha a relação oficial das vítimas do acidente quando a fanpage do portal publicou a chamada “10 mitos e verdades sobre viajar de avião”. Outra chamada controversa mostrava imagens de pânico, com o sugestivo título “Passageiros que filmam pânico em avião”. Outra prometia ajudar o internauta a “lidar com o medo”. Por fim, o derradeiro post com “10 fotos de pessoas em seu último dia de vida”.

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A estratégia repercutiu mal entre os leitores, que fizeram campanhas em seus perfis e nos espaços destinados aos comentários. “Tem curso de jornalismo pra vocês do Catraca Livre? Talvez com uma aula inaugural sobre empatia e bom senso…”, escreveu uma leitora. “Catraca Livre, para de postar coisas por hoje. Ou pela semana. Ou pra sempre, talvez!”, desabafou outro internauta.

Uma rápida passagem pela fanpage do portal, que tem entre seus fundadores o respeitado jornalista Gilberto Dimenstein, mostra que a estratégia está muito próxima daquilo que se chama de “caça-cliques”. Além do excessivo número de postagens, que nos permite entender o que o veículo julga ser “relevante” ao leitor, há uma séria confusão entre informação, entretenimento e curiosidade. Minutos depois das primeiras publicações sobre o acidente, uma das chamadas que mereceu comentários indignados dos leitores dizia: ““Rede social divertida bomba reverenciando o bumbum”.

O fundo do poço do jornalismo caça-cliques

No final dos anos 1990, quando as TVs descobriam a medição em tempo real da audiência, um episódio protagonizado pelos apresentadores Faustão e Gugu marcou o que foi chamado de “guerra pela audiência”. O “Domingão” da Globo apresentou o quadro “sushi erótico”, com as especialidades japonesas servidas sobre o corpo de mulheres nuas. No SBT, o programa comandado por Liberato levou ao ar o quadro “Sentindo na Pele”, em que o apresentador se fazia passar por mendigo. Em determinado momento, ele tentou alugar um bebê de uma mendiga de verdade.

O episódio de hoje, protagonizado pelo Catraca Livre, mas longe de ser um caso isolado, mostra que a internet desceu ao patamar do que era a TV há 20 anos: chegamos ao fundo do poço do jornalismo caça-cliques.

A justificativa comum que se ouve para a busca por cliques a qualquer custo é que eles são o principal indicador para venda de anúncios. No entanto, o mercado publicitário já se deu conta de que clicar não significa consumir e já está utilizando há bastante tempo estratégias mais eficazes (como mídia programática e anúncios em sites de nicho) para realmente atingir a audiência desejada. Ou seja: o jornalismo se baseia numa métrica pouco efetiva e que lhe tira a credibilidade para agradar anunciantes que já entenderam que engajamento não significa necessariamente cliques.

Para o Catraca Livre, por exemplo, qual é a métrica mais importante no episódio de hoje? O número de cliques em suas páginas ou a perda de 12.000 seguidores por hora, em média?

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Fonte: Quintly (faça login no Facebook e depois clique na foto acima para ver o gráfico atualizado)

Dessa forma, é urgente pensarmos para além das métricas comercialmente direcionadas, como visitantes únicos e visualizações de página. É preciso basear editorialmente a análise da audiência e utilizar indicadores que realmente nos levem a conhecer nossos leitores, como o tempo de leitura e o impacto das reportagens.

O leitor não é refém

O que os portais de informação deveriam saber – e que os jornais já vêm aprendendo – é que leitor nenhum é seu refém. Isso significa lembrar que, em meio a tanta oferta de conteúdo e de informação, é praticamente impossível manter um leitor fiel quando não se presta atenção nele, ou, como dizem os teóricos, quando há uma quebra, uma ruptura no “contrato de comunicação”.

O contrato é basicamente a negociação tácita entre emissor e receptor da informação, que sugere um conhecimento mútuo da linha editorial, um reconhecimento estético e ético por parte da audiência e confere aos veículos a prerrogativa para dar ao seu leitor aquilo que ele espera. Uma das ferramentas para compreender esse contrato é o discurso institucional dos veículos. E é assim que o Catraca Livre se apresenta no seu site:

Empoderar se traduz, em nosso jornalismo, na busca do maior número possível de informações que mostrem possibilidades acessíveis e de qualidade, virtuais ou presenciais, em todas as áreas da atividade humana: da cultura, passando pela saúde e mobilidade, até educação, esportes e consumo.

Temos um foco especial em cultura, mas também selecionamos diariamente as melhores oportunidades gratuitas ou a preço popular nos mais variados serviços em São Paulo, Belo Horizonte, Brasília, Curitiba, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro e Salvador.

Abrangendo educação, esportes, consumo, trabalho, saúde e empreendedorismo, revelamos personagens, tendências e projetos que, em qualquer parte do mundo, inspirem soluções comunitárias inovadoras e inclusivas. Queremos ajudar as cidades a serem mais educadas, acolhedoras e criativas.

Como apostamos na engenhosidade da comunidade, a seleção das notícias é complementada por milhares de pessoas cadastradas em nossa rede.

O texto é confuso e diz muito pouco sobre a orientação do portal (“foco em cultura”, mas abrange de educação à consumo; “maior número de informações”, como se quantidade fosse sinônimo de qualidade). Mesmo assim, ao recorrer ao verbo “empoderar”, que significa “dar poder a”, promete uma alternativa transformadora. Promete, também, ajudar “as cidades a serem mais educadas, acolhedoras e criativas”. Em suma, não se vende somente como um portal de informação, mas como uma instituição que fomenta valores.

Ao utilizar as redes sociais para relacionar a tragédia a conteúdo desqualificado e pouco relevante, o portal não apenas afugentou o leitor, mas quebrou de forma brusca seu contrato com ele. A situação se revela ainda mais curiosa quando se percebe, na capa do portal, que não há qualquer menção ao acidente. O caso foi explorado somente nas redes sociais, numa típica artimanha para caçar-cliques.

O Catraca Livre mobilizou comentários raivosos e foi alvo de “vomitaços”, estratégia comum dos usuários do Facebook para mostrar seu descontentamento. Isso nos leva a reiterar aquilo que vem sendo dito desde a década de 1980, com o boom dos estudos de recepção: o receptor é, sim, uma das chaves para compreendermos o fracasso e o sucesso dos meios de comunicação. E não é pelos cliques que faz, mas sobretudo pelo seu engajamento e pela crítica que elabora ao que consome.

Alteridade e exercício da ética

“Rasos, baixos, inconvenientes e insensíveis”, foram os adjetivos utilizados em um dos comentários da fanpage do portal. Estes milhares de depoimentos dizem muito sobre o que o leitor espera do jornalismo e dos jornalistas durante uma cobertura de tragédia. Profundidade, bom senso e sensibilidade – para ficar nos contrapontos ao que o leitor expressou.

O primeiro talvez seja o mais difícil de se alcançar: é natural que uma cobertura em tempo real tenha problemas de desinformação, desencontros e falhas pontuais. Mas os dois últimos pertencem ao campo da ética e contemplam uma dimensão cujos deslizes são imperdoáveis e marcam para sempre a reputação de um profissional ou veículo.

Num primeiro post de retratação, o Catraca Livre disse que entendia as críticas e as respeitava, mas apelou para a relevância das informações compartilhadas para eximir-se do erro: “Consideramos relevante jornalisticamente mostrar outros aspectos da tragédia como, por exemplo, o medo de voar e os mitos. Em momentos assim, o pânico se espraia: é necessário mostrar que o avião é o meio mais seguro de transporte. É um meio de contribuir para que as pessoas saibam lidar com problemas.Estamos, como a nação, de luto. Mas precisamos não apenas lamentar, mas informar”.

A justificativa é bastante problemática, justamente porque não há relevância em tentar conter um possível (e inverificável) pânico da população quanto à segurança das aeronaves num momento em que se conta mortos e se sofre por eles. O exercício da alteridade e do bom senso é o exercício da humanidade e do respeito. Nada pode ser mais relevante, neste momento, do que as vidas perdidas e do que a dor daqueles que sofrem por elas.

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Por volta das 14 horas, um post com um pedido de desculpas foi fixado no topo da fanpage do portal. O Catraca Livre alega ter sido “premido pela rapidez” e reconhece que os posts “feriram a sensibilidade” dos leitores. Mas também se justifica dizendo que quis mostrar “diferentes ângulos da tragédia”, o que também se revela equivocado, já que esses ângulos parecem estar bem distantes do que se considera relevante em uma cobertura de tragédia. “Lamentamos que nossa abordagem tenha provocado essa dor e fosse interpretada como desrespeito. Erramos ao não sermos mais cuidadosos. Pedimos, assim, desculpas ao leitor e agradecemos suas críticas que nos ajudam a fazer um jornalismo cada vez melhor”, encerram.

O encerramento da nota mostra uma certa insistência do portal em firmar-se como um veículo de jornalismo, ainda que sua entrada na cobertura tenha se dado com material que não contribui para o aprofundamento acerca da tragédia, tampouco oferece abordagens relevantes ao fato. Catraca Livre não ofereceu ao leitor nada próximo a uma cobertura jornalística e parece ter ultrapassado os limites daquilo que se espera de um produto informativo.

No início da noite, por volta das 18 horas, o próprio Gilberto Dimenstein publicou postagem se responsabilizando pelo erro, e disse inclusive que “toda a redação foi contra e, numa conversa franca, expuseram suas discordâncias”. O jornalista, após dizer que já ganhou muitos prêmios, pede desculpas e afirma que “errar é uma fonte de aprendizado enorme”. Os leitores, no entanto, continuaram discordando do posicionamento do veículo. “Coloca o título da próxima de ‘perdi seguidores e quero me redimir’, vai ser mais honesto”, escreve uma leitora cujo comentário foi curtido por mais de 16.000 pessoas.

O caso serve para nos mostrar o quanto a reputação e a credibilidade são, ainda, patrimônios caros e invioláveis. E como esquecer o leitor é das estratégias mais arriscadas para mantê-lo.

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