Lívia de Souza Vieira
Professora da UFBA e pesquisadora do objETHOS

Isso mesmo. Este é o 500º Comentário da Semana publicado no objETHOS, que desde 2009 faz o que seu próprio nome diz: a observação e o monitoramento da ética praticada por jornalistas e meios de informação. Nesta seção do site, sempre às segundas-feiras, um de nossos pesquisadores analisa um acontecimento ou fenômeno atual, com foco no que é o coração desta iniciativa de pesquisa, a ética. Embora não tenham caráter científico, os artigos fazem crítica de mídia, um nicho muito pouco explorado no Brasil e, por isso, preenchem uma lacuna de mercado e de reflexão acadêmica.

Mas por quê falar sobre ética jornalística? Certa vez, quando pensei em mudar meu tema de pesquisa, o professor e fundador do objETHOS Rogério Christofoletti disse: “Não faça isso, Lívia, nós somos poucos”. E é verdade. Estudar ética no campo do jornalismo, olhando para a deontologia, os dilemas e as especificidades da profissão é uma tarefa árdua, pois envolve tensionar valores, condutas e práticas de nossa própria classe. Mantive-me no front.

Um sobrevoo pelos 500 artigos é também um passeio pela história do Brasil e da imprensa. Em 2009, falamos sobre a expectativa em torno da 1ª Conferência Nacional de Comunicação (Confecom), que advogava um Código de Ética conjunto da área de comunicações. “Convocado pelo governo federal, mas reivindicado sobretudo pelos movimentos sociais, o evento pretende ser o mais decisivo historicamente no debate de assuntos que não mais são considerados apenas de interesse restrito de algumas categorias profissionais. Isto é, o espírito que permeia a Confecom é de que comunicação é um direito social, extensivo a todos os cidadãos”, escreveu Rogério Christofoletti. A conferência foi um marco e resultou em mais de 600 propostas aprovadas. No entanto, apenas um terço delas foram, de fato, implementadas.

Ao comentar a eleição presidencial de 2010, identificamos um tom moralista na campanha, com o tema do aborto pautando o segundo turno entre José Serra e Dilma Rousseff. Não se falava em fake news, mas boatos alimentavam parte da imprensa. Semelhanças com a eleição atual não são mera coincidência…

Transparência, avanços e tensão política

Em 2011, acompanhamos o WikiLeaks e o debate em torno do vazamento de informação e preservação de fontes. Destacamos também a série de reportagens “Cartolas jogo sujo” (Rede Record) que, por meio do jornalismo investigativo, descobriu negócios ilícitos de Ricardo Teixeira, então presidente da CBF. No mesmo ano, o Brasil amargava o 47º lugar no ranking da liberdade de imprensa, atrás de países como Kuwait, Senegal e Nigéria.

A Lei de Acesso à Informação entrou em vigor em 2012 para, em nossa avaliação, fortalecer e ajudar a elevar os padrões de cidadania. Olhando para o futuro, previmos que lei só “pegaria” se jornalistas e veículos de informação insistissem na encarnação de delegados do público para buscar dados e explicações. E foi o que aconteceu. Tratamos também do delicado tema da investigação de empresas jornalísticas, a partir das relações questionáveis da revista Veja com Carlinhos Cachoeira e Demóstenes Torres, denunciadas pela revista Carta Capital. Analisamos que o cargo de ombudsman ainda não estava consolidado no Brasil e já apontávamos problemas éticos com o Facebook e sua construção unilateral da “verdade”.

Em 2013, criticamos a cobertura da imprensa das manifestações populares de junho e destacamos a atuação da Mídia Ninja na produção de imagens em tempo real. Também a partir desta cobertura, lançamos reflexões éticas sobre o jornalismo-drone. Do ponto de vista do ensino do jornalismo, analisamos a mudança nas diretrizes curriculares e o lugar das aulas de ética. Criticamos também o paywall, fenômeno então recente, que já suscitava dilemas entre o conteúdo pago e a qualidade da informação jornalística.

2014 foi ano de Copa do Mundo no Brasil e destacamos a cobertura investigativa da Agência Pública, que tratou de remoções e do impacto das obras na vida de muitas pessoas. Foi também ano de eleição presidencial, e novamente mostramos preocupação com hoaxes e boatos, que estavam com cada vez mais facilidade nos jornais. Vimos, desde o início, o jogo midiático em torno do “terceiro turno” e a atuação de colunistas, que alimentaram as desconfianças em torno da legitimidade da eleição de Dilma Rousseff. E também identificamos falta de análise e contextualização nas eleições estaduais. Para além da política, refletimos sobre a influência das métricas na produção jornalística na internet.

Corrupção, crise e traição

A cobertura da Operação Lava-Jato, em 2015, foi objeto de nossa análise desde a gênese. Observamos uma “névoa midiática”, que impedia a imprensa de enxergar os fatos, priorizando algumas versões de interesses escusos. Criticamos a parcialidade da imprensa brasileira no impeachment de Dilma Rousseff. Estiveram também no nosso radar as questões éticas da curadoria digital, a importância do jornalismo sem fins de lucro, as notícias falsas impulsionadas por robôs e a necessidade da apuração criteriosa para separar jornalistas de meros espalhadores online.

O impeachment de Dilma Rousseff marcou o ano de 2016. Discutimos o vazamento para a imprensa da prisão coercitiva de Lula, o grampo de Moro e as responsabilidades da mídia e o efeito da narrativa da imprensa sobre o impeachment na formação da opinião pública. Por outro lado, nos posicionamos contra o boicote de intelectuais e fontes à mídia, salientando que era preciso ocupar esses espaços. Em ano de Olimpíadas no Brasil, criticamos a cobertura da imprensa estrangeira, que reforçou preconceitos e estereótipos. E também refletimos sobre como não agir na cobertura de tragédias, a partir do caso da queda do avião da Chapecoense.

Em 2017, fizemos um dossiê sobre a crise do governo Temer, com 10 artigos que repercutiram desde o plantão do Jornal Nacional com a expectativa da renúncia do então presidente – frustrada logo depois; até os pedidos por novas eleições diretas – jogados na ilegalidade pela imprensa; e o arrefecimento da crise e também da cobertura midiática. Seguimos criticando a midiatização da Lava-Jato e o embate Moro x Lula, com a mídia assumindo que o juiz era parte da luta. Destacamos ainda que a vigilância em massa e outras formas de intrusão estavam sendo subestimadas pelo jornalismo e defendemos a importância do jornalismo regional.

Antes da eleição presidencial de 2018, muita coisa aconteceu. Analisamos as fake news em torno do assassinato de Marielle Franco e o jornalismo caça-cliques, a prisão de Lula e a trajetória da cobertura do ex-presidente nas revistas por meio de suas capas. Vimos desinformação na greve dos caminhoneiros. Criticamos os selos das agências de checagem no caso do “terço do Papa”. À medida que o pleito se anunciava, pedimos ética na cobertura de uma eleição atípica. Analisamos as redes e o ambiente de fake news no caso da facada contra Jair Bolsonaro e observamos omissão e falso equilíbrio na cobertura das manifestações pelo #EleNão. Logo após a eleição de Bolsonaro, cravamos que a grande mídia contribuiu para a ascensão da extrema direita no Brasil. Estiveram também no nosso radar o crescimento do modelo de negócio de membership, o colonialismo de dados na era digital, a movimentação dos veículos em torno de uma maior conexão com o leitor e a necessidade de diversificar as redações, em uma aposta no jornalismo de qualidade.

Revelação, pandemia e desinformação

A Vaza-Jato foi um grande destaque político de 2019 e também mexeu com as estruturas do jornalismo. Mostramos como o The Intercept escancarou falhas da Lava Jato e lançou discussões sobre ética e interesse público. Com o governo Bolsonaro em curso, observamos a apatia da imprensa diante dos repetidos casos de homofobia do presidente. Questionamos ainda a pouca cobertura do aumento das queimadas na Amazônia, que já se mostrava um problema grave. Diante dos ataques de Bolsonaro à imprensa, previmos que a ofensiva continuaria no ano seguinte. Destacamos as constantes demissões nas redações e a impossibilidade de se fazer bom jornalismo sem jornalistas. E também levantamos questões éticas a respeito da utilização de conteúdo patrocinado nas redações.

2020 foi o ano da pandemia de Covid-19 no Brasil e no mundo. Destacamos o ecossistema de desinformação em que a pandemia se inseriu. Olhando para a cobertura brasileira, enfatizamos acertos, desafios e uma chance de recuperar a credibilidade perdida. Mostramos como a falta de transparência do governo na divulgação dos dados da pandemia foi uma estratégia para dificultar o trabalho da imprensa. Os ataques a mulheres jornalistas e a omissão das empresas de mídia foi também motivo de nossa crítica. Na área da tecnologia, levantamos questões éticas do Google Showcase e das técnicas de SEO e argumentamos que é preciso taxar as plataformas para que o jornalismo não dependa delas.

O início de 2021 marcou um ano de pandemia e refletimos sobre as lições de uma cobertura arriscada e difícil. Nesse sentido, não esquecemos o quanto era importante falar sobre a saúde mental dos jornalistas, que estiveram na linha de frente o tempo todo. Fizemos também diversas análises sobre a CPI da Covid, destacando a participação cidadã por meio das redes sociais e a midiatização da política. Discutimos o sigilo da fonte jornalística em tempos de megavazamentos de dados pessoais, as armadilhas do jornalismo declaratório, a incerteza financeira pela qual passa o jornalismo, a procura de jornalistas solo por newsletters independentes e a necessidade de os jornais darem crédito aos veículos independentes.

Este ano de 2022 ainda não acabou e estamos na reta final de mais uma eleição presidencial. Argumentamos que a cobertura eleitoral deste ano exigiria um jornalismo ético, mais do que nunca. Defendemos que os debates eleitorais precisam mudar, observamos como têm sido a circulação de fake news neste pleito e novamente enfatizamos, como em 2018, que a imprensa brasileira ajuda a legitimar a extrema-direita. Escrevemos ainda sobre questões éticas da relação do jornalismo com o YouTube, sobre a irresponsabilidade de parte da imprensa no caso Klara Castanho e sobre o hábito crescente dos leitores de evitar notícias.

Quanta coisa, não? Como pesquisadora do objETHOS desde 2012, desejo vida longa aos Comentários da Semana, pelo menos mais 500 artigos pela frente e reconheço a importância da crítica de mídia para a construção cotidiana de um jornalismo de qualidade.

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