Guilherme Longo Triches
Jornalista, mestre pelo POSJOR/UFSC – ESPECIAL para o objETHOS

A queda do avião do time da Chapecoense foi uma tragédia sem precedentes no Brasil. Morreram muitos atletas e outras pessoas ligadas à equipe do oeste de Santa Catarina. Outros que desapareceram foram os jornalistas que fariam a cobertura da final da Copa Sul-americana. A comoção gerada, além do fato de alguns jornalistas terem sucumbido ao acidente, afetou a cobertura da imprensa.

Muito desta cobertura aconteceu “ao vivo”. Dessa forma, longe dos recursos de edição, o jornalista enfrenta duas situações atinentes à profissão: a tomada de decisão e o afloramento das emoções. Em relação à tomada de decisão, no “ao vivo”, o jornalista recebe estímulo do fato e “responde” conforme este estímulo. No esporte também acontece assim. Recorro ao autor Richard Magill (1984, p. 48), para listar o que precede, por exemplo, uma “resposta” no tênis:

(…) a posição do outro jogador, a forma como a raquete dele bate na bola, a velocidade desta, a direção de sua trajetória, onde ela tocará o solo, a altura que vai subir, seu efeito, sua posição quando seu oponente bate na bola, onde você deverá ir para devolvê-la, quão rápido você tem que ser para chegar lá, o preparo da raquete para o golpe, onde você deseja dirigir a bola, a posição correta do corpo para este golpe, o movimento completo para o voleio, o acompanhamento etc.

Não raro chamadas de ping-pong, as entrevistas acontecem exatamente como nos jogos de raquete. Segundo Magill (1984, p. 48), no tênis, “para cada decisão a ser tomada, há uma certa quantidade de informação disponível que você deve considerar, ou processar, a fim de gerar a resposta certa.” No trabalho do repórter, a resposta de lá também determina a continuidade da entrevista (outra resposta) do lado de cá.

Além do repórter in loco, há outros profissionais que trabalham na cobertura de acontecimentos deste vulto. É muito comum você rememorar do jornalista que, do estúdio, ficou narrando, ao vivo, um evento de grande porte. Em relação ao atentado às torres gêmeas, por exemplo, foi Carlos Nascimento quem fez este serviço na TV Globo. Esta lembrança por parte das audiências pode ter a ver com empatia, pois reconhecemos a dificuldade no trabalho daqueles que, por horas, ficam “segurando” a transmissão com talento para gerenciar a informação que chega pelo ponto eletrônico, pela imagem veiculada, pelo conhecimento do assunto…

Por outro lado, a audiência também pode lembrar do jornalista pelo fato do profissional ter “deslizado” na emoção, na pressa ou no azar. Um jornalista pode cometer gafes que a audiência tende a não perdoar. No caso da tragédia do vôo da Chapecoense não notei este comportamento das audiências para com o jornalismo. Talvez a população, como falei, tenha reconhecido a dificuldade desta cobertura. Ou talvez, assim como muitos jornalistas a trabalho, estavam emocionalmente envolvidos com o cerne da tragédia.

Deve ter havido outros, mas vi Ari Peixoto, Guido Nunes, Alberto Gaspar, Helter Duarte, Ricardo Von Dorff e Galvão Bueno (todos do sistema Globo) embargarem a voz ou irem às lágrimas nesta cobertura. Este é o segundo ponto em que quero me debruçar: o afloramento das emoções. O jornalismo é uma atividade que, por seu caráter público, é objeto de análise de qualquer pessoa. O senso comum dirá que o jornalista não pode se envolver com aquilo que ele está cobrindo. No entanto, analisemos o cérebro humano. Segundo o neurocientista português António Damásio, a emoção “(…) auxilia no processo de manter na mente os vários fatos que precisam ser levados em consideração para chegarmos a uma decisão.” (2012, p. 13)

Dessa forma, notamos como a tomada de decisão e as emoções estão intimamente ligadas. Grande parte do que se faz em uma cobertura trágica e “ao vivo” é norteado pelas emoções. Nestas coberturas, é impossível ser impassível. Mesmo com as redes sociais servindo de escapamento aos jornalistas envolvidos na cobertura (eles extravasam muitos sentimentos lá), as emoções vêm à tona no “ao vivo” da TV. E quando eles choram, revelando sua humanidade, as audiências também choram.

É claro que a tragédia e o envolvimento são catalisadores da emoção. Mas o que fica desta cobertura é a demonstração de quão difícil é ficar alheio ao que se está presenciando, apurando e veiculando. Não dá para ficar indiferente, até porque, como vimos, a emoção norteia o trabalho decisório. Seja cobrindo tragédia, esporte ou política, a emoção desempenha “vários papéis no processo de raciocínio.” (DAMÁSIO, 2012, p. 13).

Com quem falar? O que perguntar? Como lidar com a emoção alheia? Qual o momento de entrar ao vivo? Quando cortar a transmissão? Que sentimentos transmitir na narração do fato que está acontecendo? Estas são pequenas decisões simultâneas que, eivadas de emoção, redundarão na cobertura.

Espero que os críticos do jornalismo – muitas vezes egressos dos próprios cursos de comunicação – tenham em mente o quão difícil é não se transparecer. Tomar decisões e emocionar-se é inerente ao ser humano. O “bom jornalismo” que muitos evocam só será possível quando os computadores e os algoritmos tomarem conta plenamente de nossa profissão.

Referências:
DAMÁSIO, A. R.; O erro de Descartes: emoção, razão e o cérebro humano. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.

MAGILL, R.A.; Aprendizagem Motora: conceitos e aplicações. São Paulo: Edgard Blücher. 1984.

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