Evandro de Assis
Mestrando no POSJOR e pesquisador do objETHOS

Participo de eventos sobre a crise do jornalismo desde 1998, ano em que cometi minha escolha profissional. A maior parte semelhante ao que o falecido colunista do New York Times, David Carr, descreveu como um encontro de sobreviventes ao redor de uma fogueira cochichando: “Continuamos vivos, certo?”.

No fim de semana passado, em São Paulo, Google e Fundação Knight promoveram outra reunião do tipo, o Newsgeist América Latina. Gente do Brasil, Argentina, Peru, Venezuela, México, além de norte-americanos e europeus.

Desta vez, porém, o clima de Ilha de Lost não predominou, embora estivesse presente. Desconfio que o formato do evento, sem temas pré-definidos e baseado em conversas horizontais, e a mistura de indústria tradicional + plataformas de tecnologia + empreendedores do jornalismo + acadêmicos tenha permitido debates instigantes. Resumo alguns deles abaixo:

1) Fake news.

Google e Facebook estão muito preocupados com repercussões do fenômeno das notícias falsas em suas imagens. Termos como fake news, pós-verdade, trolls e discurso de ódio estavam presentes em 16 das 56 sessões de conversa. Em todas havia no mínimo um representante da Google. Numa das mais tensas, contei cinco profissionais da empresa na sala. O Facebook adotou postura parecida, mas tinha comitiva bem menor. Alvejado por jornalistas e publishers, que acusam as plataformas de permitir a expansão das notícias falsas, Google e Facebook admitem que são parte do esforço contra o deterioramento da esfera pública, mas negam a condição de editores de mídia. As posições do vice-presidente de News da Google, Richard Gingras, estão resumidas nesta entrevista à Folha de S.Paulo.

2) Colaboração.

Jornalistas precisam deixar de lado a competição pelo furo para unir forças e evitar retrabalho. Com cada vez menos recursos, faz sentido enviar dezenas de repórteres para colher informações commodity em entrevistas coletivas, por exemplo? Como tornar possíveis novos Panamá Papers? Jornalistas independentes não deveriam formar uma rede para compartilhar fontes, apurações, histórias? Ferramentas tecnológicas como Blockchain e Github foram mencionadas como úteis neste sentido.

Quanto à colaboração com o público, as conversas sobre conteúdo gerado pelo usuário superaram as dúvidas quanto a sua validade. Os colegas interessados no tema estão de olho em técnicas para engajar comunidades e ferramentas tecnológicas para organizá-las.

3) Startups jornalísticas.

Algumas das conhecidas iniciativas brasileiras estavam representadas, como Nexo, JOTA, Canal Meio, Ponte e Agência Pública. Faltam modelos, planejamento e estímulo aos jornalistas empreendedores. Como incubar novos negócios de modo a dar-lhes preparo e condições para se desenvolver e inovar? Dentre os resultados do Newsgeist está a promessa de criação de um grupo para ampliar e aprofundar os debates no Brasil, ideia compartilhada no Twitter pelo professor e jornalista Sérgio Lüdtke.

4) Olho no retrovisor.

Seja no Brasil, na Argentina, no México ou na Venezuela, publishers e editores da indústria tradicional seguem focados em descobrir o novo modelo de negócios que vai lhes garantir sobrevida. Paywall, branded content e métricas de audiência, dentre outros temas, geram debates que sempre voltam ao mesmo lugar: quem vai pagar a conta? A professora Ana Brambilla discorreu sobre o assunto (diferente de Ana, não acho que as preocupações da indústria tenham dominado a agenda do Newsgeist). Valem menção a proposta do jornal mexicano El Universal, que lançará uma maneira de o público avaliar a qualidade de cada reportagem publicada online, e um programa da Carta Capital que publica textos dos leitores desde que assinem a revista. Ambos geraram boas discussões, mas representam pouco, muito pouco.

5) O que é jornalismo, afinal?

Qual o real valor que entregamos à sociedade? Para que serve o jornalismo? O que é jornalismo? Nas melhores sessões sobre cenários futuros, questões profundas como essas surgiram naturalmente, sem que fossem discutidas exaustivamente. O ecossistema pós-industrial expõe nossas fraquezas conceituais e, no caso brasileiro, denuncia o abismo entre mercado e academia. O jornalismo do futuro não virá de drones, realidade virtual ou aplicativos de celular, mas das melhores respostas para estas perguntas.

Observação: conforme as regras do Newsgeist, os participantes não podem divulgar quem disse o quê nas sessões, de forma a conceder maior liberdade aos debatedores. Por isso esse texto aborda os resultados das conversas em linhas gerais.

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