Ricardo José Torres
Doutorando em Jornalismo no POSJOR e pesquisador do objETHOS

Será a picaretagem uma tradição? É difícil refletir de forma equilibrada diante do cenário que se apresenta no contexto político brasileiro. O que estamos acompanhando desde a publicação das informações do colunista político de O Globo Lauro Jardim, na noite de 17/05/2017, a respeito da delação “sigilosa” de Joesley Batista, dirigente do grupo JBS, é estarrecedor. As informações obtidas pela operação controlada da Polícia Federal Patmos (o nome faz referência à ilha grega onde o apóstolo João teve visões do Apocalipse) escancaram o modus operandi de representantes hipócritas, de criminosos, da podridão que assola os espaços de representação da democracia brasileira. Replico o mesmo questionamento que a professora e pesquisadora da UnB Flávia Biroli fez no Facebook: Como um Congresso cuja maior bancada é patrocinada pela JBS conduzirá a crise? A empresa doou R$ 54 milhões para os deputados eleitos em 2014, bancou a campanha de 162 parlamentares de 21 dos 28 partidos com representação no Congresso.

Diferentemente da maior parte, quase totalidade, dos analistas políticos e econômicos do mainstream, esse é um momento que exige desequilíbrio, indignação e cobrança. Não basta enaltecer os fatos, precisamos avaliar o contexto. Michel Temer, Aécio Neves e os demais estavam cientes das investigações e do envolvimento de Joesley Batista em inúmeras investigações – o empresário criminoso está encaminhando acordo de leniência de mais de R$ 200 milhões – e ignoraram a possibilidade de punição de suas condutas. Diante do amplo número de indícios apresentados, fica evidente o uso do poder político para negociatas sem nenhum pudor. Pareciam estar certos da impunidade, caíram, mas não tiveram dignidade para admitir os seus atos canalhas, mesmo após a materialização dos ilícitos. Homens públicos que desprezam completamente o interesse público e contam com a complacência histórica da maior parte dos grandes veículos de comunicação brasileiros que sempre avalizaram atos de Estado obscuros e ações indignas.

Durante os desdobramentos das revelações, vários veículos e o próprio Temer encobriram, como de praxe, um aspecto político sem precedentes com questões econômicas, índices e métricas. Esse é um bom momento para mandar o famigerado mercado financeiro às favas. Fenômenos como a JBS e a Odebrecht são frutos desse complexo degradante, os dirigentes dessas organizações, detentores de poder econômico, sempre se aproveitaram do cenário para lucrar e trataram a República como um supermercado. Não se deixe enganar por essa falácia. Esse discurso está alinhado ao conformismo e à sujeição em um momento que precisamos de combatividade. O ideal jornalístico não pode ser desvinculado de suas ações, ele é constituído e sustentado por princípios. Andamos, perigosamente, por caminhos hipotéticos que se aproximam do metafórico. Nesse cenário, as armas utilizadas são ideológicas e a verdade é um problema concreto que as ações jornalísticas precisam clarear, distanciando-se do corpo de crenças que surge no calor e na ebulição dos acontecimentos.

Boa parte da cobertura jornalística está apoiada nos bastidores, em fontes viciadas e pouco plurais. O próprio furo que desencadeou todo o processo precisa ser mais bem verificado. É no mínimo curioso algo dessa magnitude partir de um colunista político um dia antes do desenvolvimento da operação pela Polícia Federal. O que motivou essa fonte secreta a vazar informações? Desde o início da Lava-Jato e, particularmente, a partir da produção em série de delações, a cobertura da ampla maioria dos meios jornalísticos está entregue a uma dinâmica perversa de especulações. Vivenciamos a apoteose da mentira espetacular sobre a coerência e o esclarecimento presentes em fatos e informações, meros anunciadores sob o controle das fontes especializadas.

Jornalismo, linearidade e o caos

Como controlar uma situação fora do controle? Como transformar contextos dinâmicos, instáveis e imprevisíveis em algo linear? Esse é um fator que se sobressai em coberturas como a do vazamento do dirigente da JBS e a iminente queda de Temer. Por mais enigmático que o caso seja, os jornalistas e principalmente os comentaristas tentam encontrar argumentos que justifiquem a situação imponderável. Para tanto, na maioria dos casos, valem-se de esquemas e conexões absolutamente descabidas, apoiados em comentários opinativos esvaziados de informações e substância. Delações não são fatos, a prática de apuração deve impor-se à conjectura leviana. Os jornalistas precisam lidar com o desconhecido e organizar o caos, mas isso não significa que essa construção de busca pelo esclarecimento será linear e sem sobressaltos. Pelo contrário, na maioria das vezes o detalhamento das informações jornalísticas implica um contexto caótico composto de inúmeros elementos, interesses e aspectos.

Cabe ao profissional apresentar os fatos, o que está por trás dos fatos e o que motivou os fatos. Os conteúdos jornalísticos que nascem dos elementos próprios da apuração e da checagem são os únicos duráveis, pois estão assentados no trabalho vigoroso que, seguramente, não depende apenas de um conjunto de “bons contatos” de bastidores que caem ao menor sopro de vento. O verdadeiro sentido do jornalismo não está atrelado à derrubada de governos, essa não é a sua função. O episódio que envolve a iminente queda de Temer é emblemático, mas não é motivo de comemoração. A técnica jornalística, especificamente nesta situação, não foi realmente significativa, foi apenas um instrumento de divulgação.

Situações enigmáticas da prática jornalística formatam sempre a expressão de épocas emblemáticas; informações indeterminadas geram consequências nocivas, mas quando os elementos de um determinado contexto são aproximados e integram um quadro mais amplo, condensam-se em uma possibilidade de avaliação e julgamento dos conteúdos apresentados. Em muitas ocasiões em que lamentamos o declínio da democracia, a propagação da intolerância e o julgamento apressado presentes no cotidiano da sociedade nós visualizamos o que nos falta: informação. Não porque ela nos falte, mas porque ela é o reflexo do trabalho jornalístico norteado por ambições mesquinhas, interesses desconhecidos e lógicas enviesadas.

Não devemos alimentar a insanidade 

O jornalista José Martí, um dos pensadores cubanos mais influentes de toda história, ao se referir à Revista Venezuelana (1881) dirigida por ele em Caracas, destaca contribuições relevantes e extremamente adequadas para o contexto atual: “Devemos dar ao público não aquelas explicações que tenham por objetivo cortejar gostos vulgares ou ceder aos apetites da frivolidade; senão aquelas que tratem de assegurar o êxito de uma obra sadia e vigorosa, encaminhada, pelos caminhos do amor e do trabalho, a dar á luz com veemência filial, tudo quanto interessar à fama e à ventura destes povos” (MARTÍ, 1983, p. 67). Martí afirma ainda que os jornalistas não devem tentar coisas mesquinhas, mesmo que elas tragam maior proveito do que tentar coisas grandes. A ilusão proporcionada pelos elogios e as críticas tendenciosas não devem nortear ações, pois conteúdos jornalísticos vigorosos sempre encontram muitos inimigos.

Em momentos históricos como os que estamos vivenciando o trabalho jornalístico não deve alimentar a loucura de um cenário de hiperinformação. Quando nos deparamos com verdades tão escancaradas e chocantes não podemos perder de vista o dever de esclarecer e informar com densidade. Para além disso, devemos confessar que não temos mais informações, sendo também um fator importante que deve ser praticado. Entre a inexatidão e a sinceridade, a segunda opção é sempre a mais equilibrada e menos danosa. A ansiedade por informar não deve ultrapassar o limite da verificação, a emergência do furo não pode comprometer a credibilidade e a lisura do jornalista norteada por parâmetros éticos.

Referência: 

MARTÍ, José. Nossa América. Tradução de Maria Angélica de Almeida Traiber. São Paulo: HUCITEC, 1983.

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