Rogério Christofoletti
Professor da UFSC e pesquisador do objETHOS

Os editoriais dos três principais jornais brasileiros desta sexta-feira, 19, pintam um cenário bem menos grave que o mostrado por suas reportagens nos últimos dois dias. Se as revelações de áudios comprometedores envolvendo Michel Temer e Aécio Neves ocuparam páginas e mais páginas em suas edições, as cúpulas diretivas de Folha de S.Paulo, O Estado de S.Paulo e O Globo deram alguns passos atrás e não pediram a cabeça desses políticos, como já o fizeram com outros. Mais ainda: a julgar pelos editoriais, não há certeza de que houve crime e a solução para a crise deve ser mesmo uma eleição indireta para recompor a presidência da República.

Folha

Em “Na tormenta”, a Folha considera que a gravação de diálogos entre Michel Temer e o empresário Joesley Batista são “inconclusivos”: “Certamente confidencial e sibilina, a conversa não parece todavia constituir a devastadora peça de evidência que se imaginava inicialmente”. E para alicerçar esse argumento, convoca o saber das leis: “Do ponto de vista jurídico, o episódio resulta por enquanto inconclusivo, dependendo de evidências complementares”. Para escorar ainda mais suas certezas, o diário paulista tropeça um pouco nas funções e atribuições esperadas de um jornal: duvidar das autoridades e dos poderes constituídos, e fiscalizar seus atos. “Tal impressão se reforça diante do pronunciamento do próprio presidente, negando em termos incisivos as suspeitas que o cercaram”. Isto é, basta que Temer negue um ato para que ele simplesmente deixe de existir. Ora, jornalistas devem ser tão reverentes à palavra dos políticos? Os editorialistas esperavam que alguém que luta para manter o governo venha se admitir culpado de um crime? Que dose de ingenuidade, afinal, as redações devem se permitir?

Estadão

No concorrente, O Estado de S.Paulo, o editorial “A hora da responsabilidade” critica os vazamentos de parte da delação de Batista. “Não foi um acidente”, argumenta. “Seguramente há, nos órgãos que têm acesso a esse tipo de documento, quem esteja interessado, sabe-se lá por quais razões, em gerar turbulência no governo exatamente no momento em que o presidente Michel Temer parecia ter arregimentado os votos suficientes para a difícil aprovação da reforma da Previdência”. Isso mesmo! Um órgão de imprensa criticando que informações de interesse público tenham vindo à tona para a sociedade pela mídia! Mas será que os editorialistas do Estadão não leem suas próprias páginas? O jornal também noticiou e vem noticiando o caso desde que o concorrente O Globo trouxe a informação em primeira mão, na terça, 17. Talvez seja isso! Um desconforto de ter sido, como se diz nas redações, “furado” pelo rival nas bancas… Curioso é perceber que o jornal paulista não se queixou em seus editoriais anteriores quando ele mesmo liderou a mídia na revelação de outros vazamentos seletivos que chacoalharam a república nos últimos anos…

Mas para além disso, a queixa de O Estado de S.Paulo recorre a um raciocínio que beira o nonsense. Quem cobre os acontecimentos do mundo político – e o Estadão faz isso desde 1875! – sabe que sempre há um lado interessado numa denúncia, num agravo, e que a publicização de certas informações pode beneficiar um grupo em detrimento de outro, que lhe é concorrente direto. O jornalista que acompanha os movimentos no xadrez político deve ter a certeza de que as disputas não são apenas por cargos ou espaço, mas também por discursos e narrativas. Daí que precisa se desviar dos interesses particulares e orientar o seu trabalho para satisfazer um interesse maior, o da coletividade, de caráter público.

Céticos de que crimes tenham sido cometidos no Palácio do Jaburu, os editorialistas de O Estado de S.Paulo clamam para que haja discernimento e responsabilidade por aqueles que orientam os rumos da nação. “Nesse clima de fim de mundo, revoam os urubus. Parlamentares e líderes políticos, uns mais criativos que outros, propõem as soluções mais estapafúrdias para uma crise que só existe porque grassa a insensatez entre aqueles que deveriam preservar a estabilidade no País. Resta demandar que a Constituição não seja rasgada ao sabor das conveniências daqueles que lucram com o caos”. Mais uma vez, o jornal tropeça na ingenuidade.

Afinal, se voltarmos para ler o primeiro parágrafo do editorial, veremos que “este grave momento da vida nacional deverá passar à história como aquele em que a irresponsabilidade e o oportunismo prevaleceram sobre o bom senso e sobre o interesse público”. Ora, O Estado de S.Paulo, ao rogar pela responsabilidade, devolve a prerrogativa para solucionar a crise para quem a alimenta e a torna mais aguda!

O Globo

O diário paulista não nomina quais saídas são as constitucionais, mas O Globo – protagonista jornalístico nesse escândalo Temer – não poupa palavras. Seu editorial “Não há saída da crise fora da Constituição” deixa muito nítido que o jornal carioca é contrário à tese emergente e dissidente do status quo de que eleições diretas devam ser a solução: “Emendas para antecipar eleições e similares só fazem ampliar o grau de incertezas, já bastante elevado”. Antes de concluir assim, os editorialistas de O Globo listam as resoluções de crises políticas anteriores desde o ocaso de Fernando Collor em 1992. O jornal enaltece a assunção de Itamar Franco, a edição do Plano Real e a deposição de Dilma Rousseff como exemplos de saídas constitucionais. Para um leitor estrangeiro ou alienígena, todas as tormentas que atravessaram os últimos 25 anos se dissolvem numa meia dúzia de linhas e a democracia brasileira parece ter sempre encontrado seu melhor rumo. Se assim o é, por que tanto temor pelas Diretas Já de agora?, poderia perguntar um leitor mais exigente.

ATUALIZAÇÃO: às 15h20, O Globo publicou um novo editorial em seu site e nele, rompe definitivamente com Michel Temer. Afirma que os detalhes das gravações divulgadas são contundentes e que ele teria perdido as condições morais, éticas políticas e administrativas para permanecer no cargo. O Globo reconhece que apoiou o projeto reformista de Temer desde o primeiro momento, mas é hora de renunciar. O jornal carioca continua a desconsiderar o grito das ruas e ignora a saída por eleições diretas. O Globo rechaça “inovações e atalhos”…

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