André Souza Martinello
Professor substituto do Departamento de História e Geografia na FURB

Magali Moser

Mestra em Jornalismo/UFSC e professora substituta do Departamento de Comunicação na FURB

Especial para objETHOS

A ausência de uma discussão participativa e aberta a toda a sociedade sobre os meios de comunicação, a forma como ocorrem as concessões e a propriedade dos veículos tem sido um empecilho para o amadurecimento da democracia no Brasil. Santa Catarina, por exemplo, testemunha sem qualquer debate público desde 2016 a mudança de domínio do maior conglomerado de comunicações do Estado, formado por diferentes emissoras de TV e rádio, além de jornais diários e portais eletrônicos. A quantidade de veículos – entre eles, a TV Coligadas – que a Rede Brasil Sul de Comunicação (RBS) assumiu propriedade e vendeu em território catarinense torna difícil não a configurar como oligopólio. Nesse processo recente de transferência de posse, a participação do público foi reduzida à mera votação da escolha pelo nome, definido como NSC, em alusão à Nossa Santa Catarina, entre outras duas opções apresentadas pelo grupo midiático.

Outro aspecto também merecedor de atenção para o aprimoramento democrático é o maior conhecimento dos estudos sobre as históricas relações do poder das comunicações no Estado. Nesse contexto, ideias como as discutidas no livro Violência e golpe eleitoral (AGUIAR, 1995), mesmo publicado na década de 1990, merecem ser retomadas. Assim como a popularização de uma retrospectiva que aponte como chegamos à atual concentração da propriedade dos veículos e quais forças comandam, ditam e influenciam a comunicação catarinense (GIOVANAZ, 2015; SOUZA, 1999; CRUZ, 1996). Num país onde tem se ouvido áudios de ligações telefônicas gravadas pela Polícia Federal em que senadores repreendem e constrangem uns aos outros sobre suas afirmações em entrevistas de rádio, é urgente pensar a política do poder nas comunicações.

A história, de alguma maneira, é bem-vinda quando confronta as realidades e os limites da imprensa, bem como os critérios das licenças concedidas aos veículos, capazes de lhe garantirem possibilidade de existência. Também é possível de se fazer questionamentos sobre o presente com base no passado dessas concessões. Esses foram alguns dos pontos de partida das disciplinas de História do Jornalismo e Mídia Regional, na graduação de Jornalismo da Universidade Regional de Blumenau (FURB), com a proposta de pesquisa aos estudantes do primeiro semestre de 2017 sobre um dos primeiros canais televisivos da região Sul, a TV Coligadas. Lançada em setembro de 1969, entrou no ar 19 anos depois da primeira emissora do país, a TV Tupi. Foi resultado da união estratégica de empresários e comerciantes, o que permite questionar o início da televisão em Santa Catarina, com fundamento em interesses econômicos, senão, até, de um negócio.

Lançada para ter abrangência e cobertura em todo o território catarinense, a TV Coligadas perdeu o caráter estadual de forma progressiva após a RBS tomar posse da emissora. Assim como veio a fazer com os diários adquiridos mais tarde, o Jornal de Santa Catarina, em 1992 e o A Notícia, em 2006. A exemplo da Coligadas, tais periódicos foram intencionalmente limitados à esfera restrita após a aquisição pelo grupo sulriograndense, que em contrapartida, promoveu a centralização e tentativa de estadualização do Diário Catarinense. A homogeneização e reprodução dos conteúdos passou a ser uma das marcas dos veículos, inclusive com parte da decisão sobre a programação tomada fora do Estado.

Com sede em Blumenau e considerada o primeiro canal de televisão oficialmente legalizado de Santa Catarina, a TV Coligadas iniciou a retransmissão da programação do eixo Rio de Janeiro-São Paulo, tal como o Jornal Nacional, lá no seu início. Cooperando, de alguma forma, com a ideologia da integração nacional em plena ditadura civil-militar. (MARTINELLO, 2012). O grupo empresarial formulador da Coligadas, cerca de dois anos depois inaugurou ainda o Jornal de Santa Catarina. A história da emissora e alguns de seus arranjos, embora durante certo tempo desprezados, começam a despertar maior atenção e interesse. Um exemplo recente é o documentário lançado em junho de 2017 em Blumenau pelo jornalista André Bonomini, editor do blog A Boina.

A carência de estudos sobre a história dos veículos de comunicação da mídia regional foi um dos apontamentos das pesquisas conduzidas pelos estudantes da FURB. Foram realizadas entrevistas com diferentes envolvidos na viabilização da TV Coligadas. Um desses trabalhos, produzido pelos acadêmicos Taynara Schemes Macedo e Gregóry Alves Martins, resultou no vídeo intitulado “Ícone do Vale”, com destaque para o depoimento do considerado “primeiro apresentador” de telejornal em Santa Catarina, Carlos Braga Mueller. A partir da memória e da narrativa apresentada, a entrevista relembra a implantação desse canal. Informa temas acerca da programação, dos ajustes e implementação de infraestrutura, marcada por improvisos, além da própria necessidade de estimular o comércio local a vender aparelhos televisores, ainda incomuns para a época. Enfim, o vídeo, com duração de 15 minutos, trata de temas como a chegada da televisão em Santa Catarina: tanto no sentido “físico”, do aparelho, como também da programação e estrutura necessárias para a implementação do canal.

O apoio público da Empresa Brasileira de Telecomunicações (Embratel) no processo de integração do País, assim como o único programa transmitido em rede e ao vivo para todo o Brasil, o Jornal Nacional, e as transmissões das diferentes telenovelas para cada região são algumas das lembranças comentadas por Braga Mueller. O depoimento reúne informações e novidades para gerações que sequer tiveram notícia da existência da TV Coligadas, como se ela não houvesse existido. Para assistir, acesse o link:

Podemos chamar atenção ainda para outros aspectos e fatos presentes no vídeo “Ícone do Vale”, como a tentativa de buscar profissionalização no início da TV, numa época em que ser amador era quase sinônimo de iniciante e a baixa audiência permitia a experimentação televisiva. Muitas outras temáticas podem ser discutidas, como a vinda de profissionais do rádio para implantação da TV. Outro tema muito pertinente é a influência do empresariado, inclusive no próprio nome de alguns dos programas, tal qual o Jornal Malhas Hering, carro-chefe do conteúdo jornalístico, o que reforça a presença empresarial financiadora da chegada da programação de TV em Blumenau e em Santa Catarina. O interesse empresarial não restrito a anunciante, mas sim promotor desse início da televisão catarinense leva a refletir sobre os limites da liberdade e da crítica, com interferência no que poderia e deveria ser noticiado ou silenciado pela emissora. Dá pistas ainda sobre a submissão da política editorial e dos critérios de noticiabilidade ao poder econômico.

Se a mídia pode ser concebida como um dos elementos da preservação da democracia, questionar as relações de poder da comunicação catarinense é uma necessidade. Tensionar, por exemplo, as disputas nas eleições de representantes e conquistas de cargos em várias instâncias no Estado a partir do uso, popularidade e influência na vitrine midiática torna-se fundamental. A relação entre política formal e imprensa em Santa Catarina parece estar presente também no caso da primeira concessão de TV no Estado e fortalece a necessidade de reflexões sobre proximidades e mútuas interações de poder. Embora até hoje apareça em balancetes veiculados na imprensa com o nome jurídico de TV Coligadas, a emissora não existe como veículo desde 1979. Uma questão final – ou afinal – deve ser feita: o fim ou a venda da TV Coligadas também não teve resultado, interesse ou relação política?

Referências:

AGUIAR, Itamar. 1ª CONFECOM: os interesses em jogo. Florianópolis: Edição do autor, 2014.

___. Violência e golpe eleitoral: Jaison e Amin na disputa pelo governo catarinense. Blumenau: Ed. da FURB, 1995.

CAVENAGHI, Beatriz; EMERIM, Cárlida. Os primórdios da televisão em Santa Catarina: o mercado e produtos. Revista Brasileira de História da Mídia (RBHM), v.3, n.1, jan. 2014.

CHRISTOFOLETTI. Rogério. Quem ganha com a venda da RBS em Santa Catarina? (Publicado em 7 de março de 2016). Disponível em <https://objethos.wordpress.com/2016/03/07/ponto-de-vista-quem-ganha-com-a-venda-da-rbs-de-sc/>

CRUZ, Dulce Marcia. Televisão e negócio: a RBS em Santa Catarina. Florianópolis: Ed. da UFSC; Blumenau: Ed. da FURB, 1996.

GIOVANAZ, Daniel Piassa. Da conquista do canal 12 à compra do jornal A Notícia: as articulações políticas que consolidaram o oligopólio da RBS em Santa Catarina. 2015. Dissertação (Mestrado) – UFSC, CFH, Programa de Pós-Graduação em História, Florianópolis, 2015. Disponível em: <http://www.bu.ufsc.br/teses/PHST0542-D.pdf>

MARTINELLO, André Souza. “A Santa Catarina entre lugares”. In:___. Insulares Santas Catarina. Construção territorial, vínculos de pertencimentos e discursos de desintegração (1950-1970). Dissertação (Mestrado) em História UFSC, Florianópolis, 2012. (cap.02). p.61-80. Disponível em: <http://tede.ufsc.br/teses/PHST0424-D.pdf>

MARTINS, Gregory Alves; MACEDO, Taynara Schemes; MUELLER, Carlos Braga. “‘ÍCONE DO VALE’ – A trajetória de Carlos Braga Mueller na Tv Coligadas.” Reportagem e direção de Gregory Alves Martins e Taynara Schemes Macedo, 2017. Documentário curta-metragem realizado como avaliação nas disciplinas de Mídia Regional e História do Jornalismo na Universidade Regional de Blumenau (FURB), em 2017.1. Link: https://www.youtube.com/watch?v=Gp0gcaD-Xsk&feature=youtu.be

SOUZA, Carlos Alberto de. O fundo do espelho é outro: quem liga a RBS liga a Globo. Itajaí: Ed. da UNIVALI, 1999.

SOUZA, Zair Aníbal de. Imagens de uma conquista: por detrás das câmeras da TV Coligadas. Blumenau: Nova Letra, 2007.

TOMAZONI, Joni César; GOLEMBIEWSKI, Carlos. A história da TV Coligadas de Blumenau. Revista Blumenau em Cadernos. Tomo 49, n.4, julho/agosto 2008, p. 29-70.

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