Ricardo José Torres
Doutorando em Jornalismo no POSJOR e pesquisador do objETHOS

Não há dúvidas, estamos enfrentando tempos de cólera, descrença e desumanidade. De uma forma geral, as sociedades democráticas estão declinando e retrocedendo rapidamente. Valores e liberdades estão derretendo de maneira assustadora sob o calor de fraquezas humanas ligadas ao moralismo, ao preconceito, a mentiras e mesquinharias. A primeira semana de outubro de 2017 demonstrou essas evidências através de atos chocantes e episódios avassaladores que provocam inquietude, comoção e reflexão.

Em um microcosmo informativo perverso e inacreditável estivemos diante de situações-limite e escolhas irreversíveis. A morte do reitor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) Luiz Carlos Cancellier (02/10/2017), o ataque do ex-contador Stephen Paddock contra a plateia de um festival de música country em Las Vegas (02/10/2017) e o ataque do vigia Damião Soares dos Santos à creche Gente Inocente em Janaúba/MG (05/10/2017) são situações completamente distintas, porém os diferentes contextos apresentam questões jornalísticas delicadas e problemáticas, relacionadas ao tratamento de temáticas ligadas ao suicídio e à morte.

Algumas das questões que se colocam são: Os jornalistas podem se preparar para esses momentos? Como abordar essas temáticas? O que é informação e o que é exploração em casos extremos? Eu diria que jornalistas profissionais, com formação superior, precisam se preparar para coberturas complexas que envolvem o inesperado e o impactante. Para tanto, devem se reconhecer como profissionais que desempenham uma atividade com reflexos sociais, devem estar cientes das possíveis consequências e danos irreversíveis que podem ser causados por informações incoerentes e desequilibradas.

O que transpassa os fatos que ocorreram em Florianópolis, Janaúba e Las Vegas são aspectos de humanidade e dignidade. A dimensão humana do jornalismo está atrelada ao entendimento de que informações jornalísticas estão relacionadas com a construção da civilidade e o reconhecimento de nossos semelhantes. Já a dignidade é uma qualidade moral que remete ao respeito, honra e consciência pessoal de valor em relação à sociedade. É algo que não se ganha, é algo que se conquista, intransferível, frágil, que informações jornalísticas podem afetar de maneira irremediável. A prisão injusta e consequente morte de um homem, o ato terrorista de um estadunidense que matou mais de 50 pessoas e a insanidade brutal de um abjeto que incendiou uma creche são produtos vendáveis ou sintomas estarrecedores de mazelas sociais?

Nessas situações, os jornalistas não podem se abster. Se o jornalismo não preza pela humanidade e pela dignidade dos indivíduos, ele enaltece a artificialidade e a impiedade, minimiza posições e desconhece consequências, o inumano é indigno. As ações jornalísticas impactam diretamente na convivência social e na estruturação dos sentimentos e sentidos que movem determinados grupos sociais. Dessa forma, são um elemento constitutivo significativo de interpretação do entorno e do cotidiano dos indivíduos. O desconhecimento dessa condição singular da atividade jornalística é muitas vezes utilizado e se manifesta por meio de álibis descabidos de jornalistas que culpam o “calor do momento”, o “imediatismo” ou as “informações desencontradas das fontes” para eximir-se de suas responsabilidades.

Jornalismo artificial destrói reputações e a civilidade

Várias teses alimentam a noção de que o jornalista é um mero observador, uma entidade neutra, sem sentimentos e intencionalidades. Essas falácias negligenciam a dimensão humana da atividade jornalística e estimulam a propagação de um sentido jornalístico extremamente artificial e apático. A mera reprodução de tendências homogêneas e hegemônicas pode produzir a naturalização da barbárie e a destruição sumária de reputações. Ao reproduzir a boçalidade de “autoridades” públicas e a insensatez de bárbaros assassinos de maneira acrítica, os jornalistas abastecem a desumanização e gradativamente se aproximam da insanidade, do vale tudo mercadológico.

Predominantemente, o valor monetário está solapando o valor informativo do conteúdo jornalístico. Ao se deparar com casos extraordinários os profissionais não parecem idealizar a verdade, mas o que seria bom para vender. Em inúmeros casos o jornalista explora a superficialidade e não explica a particularidade dos fatos. O debate sobre essas questões é premente, as dimensões ligadas à humanidade e à dignidade que envolvem a ética jornalística devem ser discutidas com seriedade profissional, como elementos e condutas inalienáveis. A responsabilidade e a densidade informativa devem prevalecer diante da criação de “inimigos” e lugares comuns. O jornalista que permanece omisso está sujeito, toda inação é uma ação, uma escolha que desconhece limites, menospreza impactos sociais, favorece a opressão, a intolerância e a idiotice.

O desajuste das convenções jornalísticas e a desvalorização dos profissionais aumentam a probabilidade de erros, desbloqueiam dispositivos repressores e condutas opressivas. Toda produção jornalística envolve movimentos e escolhas, pode ser norteada por inúmeras qualidades positivas (empatia, compaixão, etc.) ou negativas (destruição, aniquilação, etc.). Alguns profissionais classificam esse tipo de posicionamento como ingênuo, no entanto, ingênua é a incapacidade de mensurar o que informações jornalísticas podem ocasionar no cotidiano e na biografia de pessoas, jornalistas afetam e lidam com vidas alheias. Diante da finitude da vida e dos absurdos humanos os jornalistas demonstram humanidade através de condutas, procedimentos e entendimentos.

O sentimento de justiça, a vaidade e a tirania

A justiça é um ideal social difícil de ser mensurado. A sensação de justiça é instável e em inúmeras oportunidades esvaziada de sentido. Atualmente, de maneira açodada informações jornalísticas se filiam com a tirania dos órgãos de justiça em detrimento do que é justo, princípios humanísticos e civilizatórios são constantemente desprezados. A vaidade transforma jornalistas em protagonistas, oráculos da “sabedoria declaratória” que destilam pontos de vista maniqueístas respaldados pela “objetividade”. O podre se apodera das informações que analogamente funcionam como “ataques controlados” em que bombas atingem escolas e hospitais.

A ausência abrupta de diálogo e a existência de imunidade para classes e sujeitos específicos amenizam possibilidades de indignação e questionamento. “Justiceiros” e fontes oficiais também falham, e são apenas um dos diversos lados que envolvem fatos e problemáticas sociais. Onde estão as vozes dissonantes da cobertura jornalística convencional? Esse tipo de posicionamento e abordagem molda diversas perspectivas e convicções assustadoramente absurdas, desumanas e bárbaras. Inúmeros grupos sociais estão revelando, de múltiplas maneiras, facetas preconceituosas, xenófobas e aniquiladoras que pareciam minimizadas e retidas em períodos históricos anteriores. A naturalização, assimilação e reverberação de posturas odiosas e destruidoras é um sinal claro de desesperança, enfraquecimento de princípios de convivência. Vários episódios recentes nos remetem a tempos sombrios e obscuros, períodos de restrições à liberdade, de abusos e de morte.

Nas questões humanas artificializadas, as mazelas do mundo parecem ser absorvidas apaticamente caminhando na mesma direção das informações jornalísticas desconectadas da sua essência. O que constitui o jornalismo são as histórias do cotidiano, com a natureza humana dos fatos sociais.

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