Texto, entrevista e tradução: Juliana Rosas

Revisão e foto: Dairan Paul

No último dia 25 de março, a professora e pesquisadora alemã Susanne Fengler esteve em Florianópolis e proferiu a aula inaugural do semestre 2019.1 do Programa de Pós-Graduação em Jornalismo (PPGJOR) da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), intitulada “Mídia e migração na Europa”. Aproveitamos a ocasião para realizar uma breve entrevista. Nesta, Fengler respondeu perguntas sobre sua pesquisa e projetos em que coordena e participa na Europa, a exemplo do European Journalism Observatory (EJO) e Media Accountability and Transparency in Europe (MediaAcT). Também esteve na pauta o tema da palestra, migração. Sobre esse assunto, sem mencionar as palavras Holocausto ou Segunda Guerra Mundial, a pesquisadora aponta a culpa que carrega seu país sobre tais eventos.

Rogério Christofoletti, professor da UFSC e coordenador do objETHOS, nos lembrou o fato de este conceito – media accountability – ser um desdobramento do pensamento de Claude-Jean Bertrand, pesquisador que conhecemos por dois livros já editados no Brasil: A deontologia das mídias (EDUSC, 1999) e O arsenal da democracia (EDUSC, 2002). Perguntamos à pesquisadora sobre a evolução do conceito a partir dos resultados de sua pesquisa.

Também quisemos saber sua perspectiva sobre o escândalo envolvendo um jornalista de uma renomada revista alemã, Der Spiegel. Fengler relatou que a revelação surgiu apontada por jornalistas americanos. Aqui no Brasil, ficamos sabendo do fato sobretudo por meio da matéria publicada no El País e posteriormente traduzida para o português. Talvez na Alemanha tivesse havido indicações prévias do jornalismo americano que não chegaram até nós, pelo menos não na língua portuguesa. De fato, nesta matéria do El País, o jornalista espanhol radicado na Alemanha, Juan Moreno, coletou várias informações nos Estados Unidos envolvendo reportagens inventadas do jornalista Claas Relotius para a Der Spiegel.

Susanne Fengler é professora de jornalismo na Universidade de Dortmund e desde 2008 diretora acadêmica do Instituto Erich Brost de Jornalismo Internacional. Atualmente, é chefe da MERCUR Graduate School of International and Intercultural Communication e coordenadora da Graduate School Media Assistance in the 21st Century – Applied Research, Improved Practice, (MEDAS-21), junto com os professores Jens Loenhoff e Barbara Thomas, projeto financiado pela Fundação Volkswagen.

De 1996 a 2000, foi pesquisadora assistente na disciplina de Jornalismo e Gestão Editorial na Universidade Livre de Berlim, onde também colaborou para a criação de bolsas de jornalismo europeu. De 2001 a 2003, trabalhou com comunicação política. De 2004 a 2006, foi professora assistente no Instituto de Comunicação de Massa e Pesquisa de Mídia (IPMZ) da Universidade de Zurique, na Suíça. De 2007 a 2008, foi pesquisadora independente e professora visitante nas universidades de Zurique, Basileia, Lucerna, na Escola de Jornalismo Suíço (MAZ) e no Instituto Internacional de Jornalismo (IIJ).

É autora e editora de vários livros sobre jornalismo e responsabilidade da mídia, bem como editora associada da série de livros Kompaktwissen Journalismus. No campo da pesquisa científica, tem especial interesse em estudos comparativos em jornalismo internacional, responsabilidade da mídia, jornalismo político e teoria econômica do jornalismo.

Mais sobre seu trabalho pode ser visto aqui. A seguir, acompanhe a entrevista.

O European Journalism Observatory (EJO/Observatório Europeu de Jornalismo) é uma rede de institutos independentes de pesquisa de mídia sem fins lucrativos em 14 países. O objetivo é unir a pesquisa e a prática do jornalismo na Europa e promover o profissionalismo e a liberdade de imprensa. Você poderia nos contar um pouco mais sobre o EJO e sua participação neste?

É uma rede de pesquisa e também uma rede de 15 institutos europeus de jornalismo. Temos sites, penso agora, em 12 línguas europeias – do inglês ao albanês. A ideia é trocar interessantes resultados de nossas pesquisas de comunicação para conscientizar jornalistas sobre esses resultados. E também para tornar os pesquisadores de outros países conscientes dos resultados. É uma plataforma europeia de comunicadores em pesquisa de jornalismo. Lá encontram-se interessantes estudos de outros países. Pode-se também encontrar alguns debates interessantes sobre mídia, qualidade de mídia e crítica de mídia. Em muitos países que participam da EJO, como a Albânia, Ucrânia, Romênia… não existem observatórios, conselhos de imprensa ou crítica de mídia na mídia de massa. Portanto, esses sites, como o EJO, são as únicas plataformas para discutir a qualidade da mídia.

Em relação ao projeto MediaAcT, uma pesquisa sobre, entre outras coisas, a coleta de dados sobre a responsabilidade da mídia, você poderia nos dizer se houve um avanço no conceito de accountability? A partir dos resultados e experiências do projeto, podemos dizer se Europa e parte da África desenvolveram práticas concretas para tornar a mídia mais transparente?

Estudamos a percepção de jornalistas sobre instrumentos de responsabilização da mídia em 40 países europeus e árabes neste estudo do MediaAcT. Então, podemos realmente medir (vamos dizer, “medir”) como eles percebem esses instrumentos. Nós encontramos uma divisão clara entre a mídia da Europa ocidental e do norte europeu, por um lado, onde você tem muitos instrumentos de responsabilidade na mídia. Mas no sul da Europa e na Europa Oriental, encontramos muito pouco ou quase nenhum instrumento de responsabilização da mídia. Isso ocorre porque às vezes eles são muito influenciados pelo governo; ou porque a mídia toma lados políticos e eles não se sentem responsáveis ​​pelo público em geral e sim por alguma ideologia política. Ainda, eles não se percebem como representantes do público.

Vemos culturas de responsabilização da mídia muito diferentes em toda a Europa e agora estamos trabalhando em um manual global de responsabilidade da mídia, onde comparamos este conceito no cenário ocidental com conceitos de responsabilização da mídia em países com liberdade de imprensa restrita. Porque mesmo nesses países você tem alguma forma de responsabilização da mídia. Pode ser a imprensa privada criticando a imprensa estatal ou, como na Rússia, você não tem liberdade de imprensa, mas há algum debate sobre a qualidade da mídia e mídias sociais. Assim, em regimes autoritários ou regimes repressivos, é possível encontrar alguma forma de prestação de contas. Queríamos diversificar e des-ocidentalizar o debate sobre a responsabilidade da mídia, porque até agora é um debate muito ocidentalizado.

Como estamos falando de accountability, recentemente tivemos o escândalo do Der Spiegel, envolvendo uma série de histórias falsas e inventadas. Como você acha que a revista lidou com o escândalo? Foi de forma responsável e accountable? Como foi a reação da mídia alemã e europeia neste caso em particular?

Creio que uma vez que o escândalo veio a público (porque os jornalistas dos Estados Unidos descobriram ou apontaram as discrepâncias), Spiegel tratou muito seriamente, mas na verdade, precisou de críticos de fora para começar a investigação. A Spiegel tem uma posição muito forte no mercado de mídia alemão; ela é tida como “a” revista crítica e por isso é muito difícil criticá-la entre os jornalistas. Eles são realmente muito, muito bons, é uma equipe extremamente boa de jornalistas, mas eles também cometem erros. Precisava dessa crítica de fora do país para iniciar a investigação. Eu acho que Der Spiegel agiu muito rápido.

Pode-se dizer que eles reagiram exageradamente, porque investigaram e reinvestigaram as histórias escritas por esse jornalista em particular, Claas Relotius, e descobriu-se que havia algumas partes falsas, mas nem tudo era falso em suas matérias. A primeira impressão que tivemos foi de que ele estava inventando todas as histórias, o que, no final, não era verdade. Eu diria que eles meio que reagiram um pouco além do normal, mas para proteger a imagem de uma redação preocupada com o caso. E eu posso entender isso completamente.

Já que sua palestra aqui na UFSC foi sobre migração, e uma vez que você mencionou a chanceler alemã Angela Merkel, você acha que a política de migração mudará quando ela deixar o cargo? E você poderia nos dizer se a grande mídia na Alemanha tomou um lado em relação a essa situação? Eles se apresentam pró ou contra a migração, ou simplesmente cobrem os fatos?

Eu creio que definitivamente a política da Alemanha – a política externa e também política interna – vai mudar quando ela não for mais chanceler, porque simplesmente não sabemos o que vem depois, se o grupo conservador vai ficar… quero dizer, definitivamente haverá uma mudança de governo em algum momento. Há uma coalizão muito instável no momento entre social-democratas e democratas-cristãos e provavelmente não é uma coalizão que funcionará por anos. Então, não se sabe qual partido estará no governo e simplesmente não sabemos, no momento, o que vai acontecer.

Isso certamente também afeta a migração. Provavelmente, o próximo governo se tornará mais restritivo em termos de política de migração do que Angela Merkel, porque ela teve um forte impacto sobre esta.

E, muito recentemente, o debate público sobre migração ficou mais aberto a desafios e aspectos negativos. Demorou um pouco, porque no início a mídia apresentou uma perspectiva muito positiva sobre a migração e foi muito cuidadosa em apontar problemas culturais, econômicos, etc.

Eu diria que, na Alemanha, os jornalistas também sentem sua responsabilidade no debate público e para não rejeitarem os estrangeiros, porque nós tivemos essa história muito específica, esta culpa muito específica que carregamos, enquanto alemães. E dessa culpa cresceu esse sentimento de responsabilidade. Eu acho que é um elemento muito bom da cultura alemã, que não somos superficiais nesse sentido e que realmente tentamos nos preocupar com as pessoas. Mas também está ligado a muita insegurança, a como lidar com problemas. Foi um processo de aprendizado, eu diria, para as redações, serem mais abertas sobre isso.

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