Vanessa Pedro

Professora da Unisul e pesquisadora associada do Objethos

Já escrevi o começo desse texto umas três vezes. Como se trata do Comentário da Semana, a ideia sempre é ser reflexivo, mas também em cima do lance. Chamar atenção e comentar sobre um assunto que tenha ocupado nossas redes, veículos de comunicação e almoços de família. Daí que essa semana tá demais de agitada. Mas vamos focar aqui um pouco. Melhor. E se tiver tudo muito confuso de compreender, me disseram para botar a culpa no Mercúrio Retrógrado. Então qualquer coisa eu faço isso.

De longe, o evento que marcou mais do que a semana no Brasil foi a libertação de Lula depois de 580 dias preso na carceragem da Polícia Federal em Curitiba. E aqui, o que me interessa é pensar as narrativas que construímos, tivemos acesso, apagamos e compartilhamos nesse episódio. Por isso, começo perguntando: Por onde você acompanhou a soltura de Lula da prisão na última sexta-feira? A notícia veio de fontes diversas assim como a cobertura também. E é essa diversidade que indica nossas necessidades, nossos desertos de notícias e nossas possibilidades para esta e outras narrativas

. A imprensa tradicional também deu. Especialmente na internet e nos canais de TV a cabo e menos nos canais abertos para um público que hoje já assiste menos a Globo e teve que cortar TV por assinatura, embora esteja ligada à internet principalmente pelo celular. A diversidade de fontes de notícia garantiu essa cobertura desde o anúncio da soltura do ex-presidente até a íntegra ao vivo do seu discurso quando deixou a prisão e falou a quem o esperava na vigília Lula Livre e também no dia seguinte no Sindicato dos Metalúrgicos, em São Bernardo do Campo. A diversidade de veículos e canais alternativos como a Rede TVT nos mostraram o percurso do ex-presidente do pátio da PF ao beijo na boca.

Os veículos tradicionais como a Globo anunciaram a decisão da Justiça de soltar Lula. A notícia correu a internet como um rastilho de pólvora, com notícias breves de sites de notícias e prints do Twitter noticiando a decisão do juiz de acatar o pedido da defesa, que se baseava na decisão do STF do dia anterior. Primeiro se soube do pedido do advogado de Lula e de que o magistrado responsável não tinha prazo para dar a resposta, mesmo que fosse obrigado e esperado que usasse a decisão do Supremo como base. Mesmo Cristiano Zanin, o advogado do ex-presidente, não garantia que a saída fosse no mesmo dia.

Mas Lula deixou a prisão no fim de sexta-feira, gerando expectativa sobre o que faria, o que diria e por onde iríamos ver tudo isso. Veículos online como El País, BBC Brasil, G1, UOL acompanharam em tempo real a espera pela liberação do ex-presidente. As redes sociais dos veículos garantiram a cobertura ao vivo, alguns no meio da multidão que aguardava Lula e fazia vigília permanente desde que ele foi preso e que o ex-presidente lembrou que gritava “Bom dia, boa tarde e boa noite” desde abril do ano passado. Além do site, a UOL cobriu com repórter através dos Stories do seu Instagram. O jornalista, em vertical, caminhava entre as pessoas, contava as informações factuais da saída de Lula e entrevistava as pessoas para saber o que esperavam e como viviam aquele momento.

As TVs como a Globo, mas também outras emissoras, vivem um caso a parte, mantendo a sua grade de programação. E sempre me fazendo pensar sobre a sua função atual e sobre o papel que ocupam no imaginário, na narrativa, nas horas passadas diante da TV. A sensação que tenho é que as emissoras de sinal aberto hoje no Brasil dividem a sua programação entre programas de culinária, música, novela, orações e fofocas sobre os famosos. Alguma notícia, pouca novidade. Nesse espaço talvez a espera fosse pelo Jornal Nacional. Hoje menos por informação e mais para saber como a narrativa seria conduzida. E não houve “escalada”. Começaram o programa jornalístico como se nada fosse. Até que a notícia fez parte do telejornal no meio do programa.

As imagens em vídeo e a transmissão ao vivo tiveram novamente lugar nas propostas de comunicação alternativas e pequenas no tamanho e na projeção. A Rede TVT de novo proporcionou a cobertura mais permanente e de melhor acesso. Mantida pelo Sindicato dos Metalúrgicos do ABC e pelo Sindicato dos Bancários de São Paulo, a Rede TVT é um canal educativo que aumenta sua audiência em canais no Youtube, no Facebook e outras redes e transmitiu ao vivo a saída de Lula da PF, o discurso na Vigília Lula Livre, a ida ao sindicato em São Bernardo, onde já tinha sido a novidade das transmissões e a dona das imagens quando Lula foi preso. A TVT foi fundada em 2010 e não se pretende exatamente imparcial ou objetiva, embora siga o modelo estético tradicional, mas diz em sua página no Facebook que é “um canal de ampliação da voz dos movimentos sociais”. No caso da soltura de Lula, a TV teve o papel principal de nos permitir acompanhar os passos do ex-presidente e seus discursos integralmente, incluindo as partes em que liam a lista de nomes de autoridades presentes e quando paravam a fala pra avisar que alguém precisava ser atendido na plateia.

Mais do que garantir uma outra narrativa contada por repórteres, a maior contribuição da Rede TVT, neste caso, foi estar presente e garantir a transmissão. Estar no lugar onde outros não estão ou mostram em fragmentos cheios de preconcepções o que o público preferiria ver o menos editado que puder. Um novo viés do digital é o acesso às fontes primárias, através de links para falas integrais, transmissões onde se ouça a fala inteira, hiperlink para documentos originais que serviram também ao repórter como fonte de informação. No caso do audiovisual, se aproxima da transmissão ao vivo de eventos integrais.

Com essa tendência de ir à fonte, também tivemos acesso à saída de Lula da prisão através das próprias redes sociais do ex-presidente. Num novo momento, onde as redes ocupam um lugar já central para diversos atores, inclusive veículos de comunicação e jornalistas, Facebook, Twitter e Instagram de Lula ofereceram a narrativa da proximidade. Analisar o papel das redes na comunicação institucional de presidências da república vale um outro texto, onde é interessante comparar o uso do institucional como pessoal, como é o caso de Bolsonaro, e o pessoal para ser institucional e participativo como foi o caso de Obama quando era presidente. Mas vamos deixar para depois. Lembrei do Mercúrio retrógrado e do Evo Morales. Tem mais coisa para hoje.

No caso da liberdade de Lula, os seus canais oficiais garantiram aos internautas estarem próximos e a sua produção pensou na proximidade. Dois momentos foram exemplos disso. A transmissão da Rede TVT terminou mostrando Lula, a namorada Rosângela da Silva e Fernando Haddad entrando num carro e seguindo para algum destino em Curitiba. Nas redes do ex-presidente a narrativa continuou com um vídeo produzido dentro do carro. Ao vivo no Facebook, Lula fala por cerca de 3 minutos ao lado da namorada e continua sua fala de agradecimento aos que estiveram na vigília e aguardando seu retorno, lamenta que a situação econômica do país tenha piorado desde que ele foi preso e avisa que não vai ficar falando mal de presidente e de ministro mas que quer falar bem do povo brasileiro.

Ele mostra também uma lanterna de led que diz que acendia cada vez que a vigília gritava “bom dia, boa tarde, boa noite”. Lula faz um vídeo próximo, quase íntimo porque é exclusivo e mistura temas pessoais e políticos e fala para muitos, mas não fala um discurso de multidão. Fala para as redes. O vídeo até hoje já foi visualizado mais de 2 milhões de vezes. O outro vídeo do mesmo dia foi depois que Lula chega a um hotel de Curitiba e grava para os seguidores do Instagram. Num tom mais jovial ainda do que o vídeo do Facebook, o ex-presidente fala sobre a idade biológica, a sua disposição e o tesão, buscando uma aproximação com o público jovem que usa o Instagram.

Por falar em juventude e aproximação, os memes são um caso que merece também ser anotado porque, além da leitura como piada e descontração, fazem parte da disputa narrativa e dão o fio da interpretação nacional. Eles medem a febre da audiência contemporânea. E, para os que festejavam a liberdade de Lula, juntaram a saída do ex-presidente com o início do final de semana, que hoje muita gente transformou em verbo e chama de “sextar”. Entao: “sextou” com Lula Livre. E aí as imagens foram muitas associando a folga do fim de semana, a saída do trabalho com imagens de Lula dançando, tomando cerveja, usando óculos vermelho. Sem contar nas figurinhas de Whatsapp, febre que anda ganhando dos emojis, e que foram a alegria dos grupos de amigos e o desespero dos grupos de família. Ou ao menos o que ainda resta deles.

A diversidade já dá o tom da narrativa que hoje está nesse quebra-cabeças entre o tradicional, a mídia alternativa, as redes pessoais ou institucionais, os memes. A questão é se perguntar onde o jornalista está nessa difusão de narrativas, suportes, linguagens e projetos. Certamente está provocado a se reinventar. E a se aproximar mais das pessoas para produzir informação de qualidade com interesse público e do público. Ou dos públicos. Temos que ter atenção aos desertos de notícia, ao jornalismo local e a experiências como a Rede TVT em outros lugares do Brasil.

Como Mercúrio está retrógrado e o golpe na Bolívia em curso, posso avaliar pouco dos desdobramentos da renuncia de Evo Morales nestas primeiras horas. Até a madrugada de segunda não se tinha certeza nem se ele estaria em segurança ou às portas de ser preso sem acusação. Vale seguirmos observando por onde soubemos da queda de Morales, por onde teremos mais informações. Até o momento, o Twitter do próprio Evo Morales serviu de fonte, vídeos de redes sociais e jornalistas que estão começando a formar o quebra-cabecas do golpe na Bolívia. Por indicação do Twitter de Leandro Demori, comecei a seguir o jornalista Lucas Horan (@lucasrohan), que cobre o tema e fez um podcast com os primeiros comentários da noite. Valeu a dica e seguimos juntando o quebra-cabeças.