Dairan Paul e Juliana Freire Bezerra
Doutorandos em Jornalismo (PPGJOR/UFSC) e pesquisadores do objETHOS

Apenas um assunto obteve cobertura tão ampla quanto a pandemia de Covid-19 nos meses mais recentes: o racismo estrutural contra as populações negras. Foi o assassinato do afro-americano George Floyd por um policial branco que desencadeou uma série de protestos mundo afora.

No Brasil, o caso repercutiu tanto em mídias digitais como no noticiário nacional. Mas foram as populações da periferia — entre familiares e vizinhos enlutados — que saíram de casa vestindo máscaras para clamar pela vida dos seus. 

A agência de jornalismo Alma Preta foi um dos veículos que cobriu manifestações durante o período, muitas vezes em tempo real e em primeira mão. Especializada em questões raciais, a iniciativa foi fundada em 2015 por um grupo de comunicadores da Universidade Estadual Paulista (Unesp), com a missão de produzir conteúdos pertinentes à comunidade afro-brasileira. 

No seu texto de apresentação, Alma Preta não tem qualquer receio de desvincular o trabalho jornalístico a uma conotação política. Assumem essa característica como forma de valorizar o “conhecimento e a cultura negra, bem como a exigência de direitos e questionamentos ao Estado”. São profissionais da imprensa conscientes de que, entre as páginas da história do Brasil, há muitas versões a serem contadas, sobretudo pelo prisma das populações negras. Durante a pandemia, matérias do Alma Preta destacaram o impacto do vírus na vida de quilombolas e as desigualdades raciais nos trabalhadores da área de saúde, para citar dois exemplos.

A seguir, conversamos com Nataly Simões, jornalista e editora do Alma Preta. Ela nos conta sobre o trabalho realizado pelo veículo durante a pandemia, como a mídia brasileira “surfou” na onda da pauta sobre violência policial contra populações negras, e a importância de ações afirmativas no contexto educacional do país.

Gostaria que você comentasse como a temática racial, que é a especialização da agência, orientou a produção de pautas na pandemia. A quais histórias o Alma Preta deu visibilidade?

A pandemia da Covid-19 só aprofundou os problemas que tínhamos antes e que já faziam parte da nossa cobertura diária. Antes da pandemia, por exemplo, a gente já abordava em nossas reportagens como o desemprego e a economia das populações mais vulneráveis — principalmente negra e pobre — eram os mais afetados por medidas propostas pelo governo, como as reformas trabalhista e da previdência. Com a pandemia, a novidade foi o auxílio emergencial e todas as suas implicações.

Outro problema que já existia era a violência policial e que na pandemia só cresceu. Continuamos a dar visibilidade porque afeta sobretudo a populações negras, mas trouxemos um enfoque adicional: o de que mesmo com a pandemia, a polícia não parou de matar; pelo contrário, aumentou. Em nosso site, há vários conteúdos sobre isso publicados nos últimos seis meses.

“Mesmo com a pandemia, a polícia não parou de matar; pelo contrário, aumentou”.

Durante a pandemia, os protestos do caso George Floyd ganharam ampla cobertura jornalística, inclusive em veículos corporativos nacionais. Considerando que racismo e violência policial são cotidianas nas periferias brasileiras, a que você atribui a repercussão singular deste caso na mídia nacional?

Mídia, empresas e pessoas nas redes sociais surfaram na onda das manifestações antirracistas. É dessa forma que eu vejo. Como você bem colocou na pergunta, o racismo e a violência policial fazem parte do cotidiano brasileiro. O que chocou foi o fato de ser nos Estados Unidos, e a repercussão que o Black Lives Matter teve. Pegaria mal não falar a respeito, já que todos estavam comentando. Atribuo a isso.

Não posso apenas ser crítica porque seria injusto. Uma pesquisa mostrou que o movimento antirracista cresceu no Brasil. Com os atos nos EUA, pessoas em São Paulo e no Rio de Janeiro se sentiram encorajadas a irem para as ruas no meio da pandemia clamar pelo fim da violência policial. Tivemos ações realmente importantes e de impacto social. Por exemplo, os programas de trainee voltado a pessoas negras — como os de Magazine Luiza e da Bayer. O desafio agora é conscientizar quem se interessou pela pauta racial. Ser antirracista não é fácil e requer muito mais esforço do que fazer post em rede social.

“Políticas de permanência para alunos negros são necessárias para que se sintam acolhidos em espaços muitas vezes racistas”

Em 2012, a lei que regulamenta políticas afirmativas relacionadas à classe social e cor nas universidades públicas foi sancionada no Brasil. Passados oito anos desde então, como você percebeu o processo inclusivo na sua formação em Jornalismo? Há lacunas que podem ser complementadas?

Olha que curioso. Eu me formei no ensino médio em 2011 e fiz o Enem em 2012. No mesmo ano, comecei a trabalhar como auxiliar administrativo e, por isso, deixei de lado a ideia de estudar. Em 2014, consegui pagar a matrícula de uma universidade privada e ingressei no curso de Relações Públicas. Só fiquei durante um semestre porque não tinha condições de pagar, e até me endividei.

Em 2015, consegui uma bolsa integral em Jornalismo pelo ProUni e sistema de cotas. Hoje, te digo, sem dúvida, que as políticas afirmativas foram fundamentais para a minha transformação de vida. A educação me deu essa possibilidade de me formar e descobrir que eu tinha vocação para algo. 

No entanto, há lacunas que precisam ser superadas. Usei meu exemplo como bolsista de universidade privada, mas há desafios para pessoas cotistas em universidades públicas também. Porque estudar é caro. O custo não é só a mensalidade. 

Publicamos recentemente uma reportagem que diz que quase 60% das universitárias negras de universidades públicas no Rio de Janeiro já pensaram em desistir do curso por problemas financeiros. E os problemas não se limitam a isso, já que universidades são espaços historicamente excludentes para pessoas negras. Além das políticas afirmativas, é importante que haja políticas de permanência dos alunos negros, para que eles se sintam acolhidos nesses espaços muitas vezes racistas.

Historicamente, a imprensa negra esteve intimamente ligada aos movimentos sociais e às lutas por cidadania. De que forma essa relação é estabelecida pelo Alma Preta?

Nos inspiramos muitos nas lutas dos que vieram antes, como os criadores do Movimento Negro Unificado (MNU), e intelectuais negros como Abdias Nascimento, Muniz Sodré, Sueli Carneiro, entre outros. A percepcão de que era necessário criar uma mídia negra veio também dos esforços dos movimentos sociais — movimentos negros, em especial — para que as narrativas da população negra fossem contadas. Nosso trabalho é importante do ponto de vista jornalístico, e também é político pela relação que temos com as lutas dos movimentos.

De que forma o olhar mais atento e sensível de jornalistas a questões raciais contribui para um jornalismo mais ético?

Um olhar mais atento e sensível faz com que os jornalistas percebam a existência de inúmeras formas para contar uma história, inclusive com fontes que deem mais legitimidade ao assunto abordado. Por exemplo: se você é um jornalista branco e vai escrever uma matéria sobre racismo no mundo corporativo, você tem a opção de ouvir uma fonte que já tem e provavelmente é branca — como um recrutador. Mas, ao ter um olhar mais crítico, você pode cogitar a ideia de entrevistar um especialista em diversidade racial no mercado de trabalho. Acho que não é nem uma questão de ética, mas de legitimidade. Ouvir as pessoas que têm mais a ver com a sua pauta é um ponto importante e que faz diferença no resultado final.