Dairan Paul
Mestrando no POSJOR/UFSC e pesquisador do objETHOS

Dilmas em forma de bonecos gigantes, carros de som bradando o hino nacional e uniformes da Seleção Brasileira de Futebol marcaram o carnavalesco protesto pelo impeachment da presidenta no dia 13 de dezembro. O revival das manifestações de março e agosto aconteceu em escala menor que suas antecessoras, a despeito do clima fervoroso que o quadro político do país experimentou nas últimas semanas. A cobertura jornalística, no entanto, não deixou a desejar: na sexta (11), Estadão já convidava seus leitores a participarem enviando fotos e vídeos dos protestos. Uma aula de interatividade – e ideologia.

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Créditos: Evaristo Sa/El País Brasil

No dia das manifestações, Globo News não ficou para trás e dedicou mais da metade de seu jornal das 15h à cobertura do impeachment, além de flashes ao longo do dia. Sem muitas surpresas, repórteres contam o que assistem nas ruas, reforçando o status folclórico do evento: “muitas placas, gente dizendo que se sente palhaço nos últimos anos – e aqui, um manifestante vestido como se fosse um presidiário”, diz Carolina Cimenti, cobrindo a manifestação do Rio de Janeiro. De forma sutil, termina: “há alguns cartazes pedindo o ‘fora Cunha’”.

Na ampla cobertura do canal, repórteres de outras 10 capitais do país repetem o mesmo discurso. Acrescentam que nenhum protesto causou problemas e que o número de manifestantes diverge significativamente entre polícia e organizadores (os últimos dizem que há muito mais participantes do que os primeiros). Sem nenhum tumulto físico, não há o que noticiar: o espetáculo programado dos protestos é revestido de um caráter festivo e divertido. Fait divers pipocam a torto e a direito – do concurso de dança que serviu de ‘esquenta’, na Bahia, ao ‘encontro de marombeiros’ que reuniu mais pessoas do que o ato pró-impeachment, em São Paulo. Aparentemente, há mais material para memes do que informação.

Pode não ter acontecido um tumulto físico que abalasse o sagrado direito de ir e vir do cidadão, mas isso pouco serve de desculpa para a falta de contextualização em cima de cartazes que pedem intervenção militar. O agravante é ainda acentuado quando lembramos que o dia dos protestos, 13 de dezembro, é também o 47º aniversário do Ato Institucional nº 5. Uma triste “coincidência” histórica que o leitor/telespectador não deveria esquecer.

Os alunos dão aula

Paralelamente ao enorme esforço de equipe despendido nas coberturas das manifestações, não deixa de ser curiosa a falta de empenho com que alguns veículos cobriram as ocupações das escolas em São Paulo, no início do mês. Se, por um lado, os protestos de estudantes não mereceram tanto tempo ao vivo como as manifestações pró-impeachment, de outro, o que restou foi um vocabulário mais do que previsível para os atos: a “invasão” das escolas pelos alunos, o “confronto” com a polícia, o “cunho político” dos manifestantes e a “reorganização estudantil” promovida pelo governador Geraldo Alckmin.

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Créditos: Odyr Bernardi

Talvez o exemplo mais flagrante desse descompasso seja a retirada da videorreportagem “Livros abertos… Escola ocupada”, da TV Folha (salva e disponibilizada aqui). A matéria retrata a ocupação pelo ângulo dos estudantes e evidencia o caráter de autogestão dos atos. Determinados trechos contestam até mesmo o próprio discurso do jornal Folha de S. Paulo, quando uma aluna enfatiza que os alunos estão “ocupando, não invadindo” e “não é nada do que o pessoal pensa, sabe, [como, por exemplo] baderna – pelo contrário, a gente tá deixando a escola melhor do que ela é quando a gente estuda nela; tem até papel higiênico!”.

A reportagem foi retirada na manhã do dia 2 de dezembro. No dia seguinte, Fórum noticia que a exclusão aconteceu por conta de uma visita de Alckmin à redação. Finalmente, a confirmação de que o governador realmente foi à empresa acontece na coluna da ombudsman Vera Guimarães Martins, que critica a retirada do vídeo, em especial após o acontecimento – “foi a deixa para eclodir a teoria conspiratória de que a decisão havia sido tomada por pressão política”. A própria autora questiona o porquê da coincidência entre a exclusão do material e a visita de Alckmin. Acaba recebendo uma resposta atravessada da Secretaria de Redação da Folha, que não explica nada.

Em que pese a suposta falta de equilíbrio na videorreportagem – argumento utilizado tanto pela ombudsman como pela redação -, não deixa de ser irônico que o fato de mostrar apenas o “lado dos estudantes” seja motivo de retaliação para Folha. Isto porque o jornal não é conhecido exatamente por ouvir todas as fontes possíveis em suas matérias, mas, com frequência, as oficiais. E, nesse sentido, a “falta de contradição” evocada para desqualificar a reportagem choca-se com o próprio veículo – a videorreportagem é, afinal, o contraditório da própria Folha.

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Créditos: Odyr Bernardi

O discurso jornalístico – permeado também por estruturas e relações de poder e que, portanto, não deve ser confinado apenas à figura do repórter – parece ainda ter muitas dificuldades para lidar com fenômenos políticos que estão longe das tradicionais bandeiras políticas. A dificuldade em cobrir as ocupações, para além das orientações editoriais, demonstra os mesmos vícios das Jornadas de Junho, em 2013. Trata-se de um modelo narrativo pobre, que procura por personagens prontos em meio a tantas singularidades, e toma a parte pelo todo, quando desqualifica mobilizações como vândalas, por exemplo.

As cicatrizes de junho ainda perturbam o jornalismo. Se os manifestantes pró-impeachment podem bradar ao vivo e à vontade por uma intervenção militar no país, outros, como Rafael Braga Vieira, recebem tímidas notas nos jornais. O morador de rua foi o único condenado dos protestos de 2013 que ainda permanecia preso, devido ao porte de água sanitária e desinfetante. Após um ano e meio, Vieira saiu da prisão em primeiro de dezembro, embora ainda cumpra pena. E nesse meio tempo, o jornalismo aprendeu alguma lição? A julgar pelas últimas coberturas, talvez os estudantes de São Paulo ainda tenham muito a nos ensinar.

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