João Somma Neto
Professor do Curso de Jornalismo da UFPR e pesquisador associado do objETHOS

Quando os princípios éticos que necessariamente devem mover a prática profissional do jornalismo deixam de ser observados e cumpridos prevalecendo uma “tendência” que se verifica em diversos meios de comunicação do Paraná, sobretudo no maior grupo empresarial dessa área, onde prevalecem as intenções de “emocionalizar” o conteúdo, perde-se a oportunidade de oferecer ao público/leitor material informativo de real qualidade.

Como resultado imediato temos, cada vez mais, materiais jornalísticos que primam pela pieguice barata, resvalando quase em um sensacionalismo simplório. Não se apuram devidamente as informações, valorizam-se personagens apenas por características sentimentais, destacam-se pontos muitas vezes secundários como se fossem o aspecto principal, deixa-se de lado o que deveria ser buscado em termos de interesse público.

Consta do código de ética profissional do jornalismo, em seu artigo segundo, que: “a divulgação de informação, precisa e correta, é dever dos meios de comunicação pública, independente da natureza de sua propriedade”.

Na edição impressa do dia 11 de outubro de 2015, o maior jornal diário paranaense Gazeta do Povo, publicou em seu caderno de cultura uma matéria contando as desventuras de um conhecido personagem que atua num dos principais locais do centro de Curitiba na Rua XV de novembro, conhecido como boca maldita. Trata-se do palhaço Chameguinho, cuja ação laborativa consiste em pregar peças em transeuntes desavisados.

O ponto de partida da matéria é o sonho desfeito. Chameguinho sonhava casar-se no local em que desenvolve suas atividades “artísticas e culturais” em evento programado para ser um casamento coletivo. Entretanto, o ápice do infortúnio o acometeu. A noiva morreu.

Tudo muito comovente, se a história não fosse uma mentira. A noiva não havia morrido, após um desentendimento simplesmente foi embora.

Portanto, a informação usada como gancho para falar do personagem não era precisa, nem correta, mas falsa. Responsabilidade da empresa jornalística? Sem dúvida, e também do profissional que embarcou por ingenuidade, comodismo, negligência ou por qualquer outro motivo, na história do palhaço brincalhão que pregou outra de suas peças, desta vez não em um transeunte desavisado, mas em um jornalista talvez meio desligado.

Neste caso, o repórter infringiu pelo menos o artigo sétimo do código de ética, onde está estabelecido que: “o compromisso fundamental do jornalista é com a verdade dos fatos, e seu trabalho se pauta pela precisa apuração dos acontecimentos e sua correta divulgação”.

Ficou evidente que o compromisso assumido não foi com a verdade dos fatos, e muito menos ainda a reportagem foi realizada mediante precisa e rigorosa apuração dos acontecimentos. Uma apuração mais criteriosa levaria de pronto o profissional a levantar a identidade da noiva, e com uma consulta simples ao serviço funerário municipal verificar os dados elementares da suposta morte, tais como data, lugar, causa mortis, local de sepultamento, etc. Isto não foi feito, quem sabe por inexperiência, por falta de tempo, por um possível envolvimento do jornalista sensibilizado com a falsa história, ou pelo desejo de dar ao leitor algo com que se emocionar.

Pelo lado da empresa jornalística, quem sabe, o intuito foi chamar a atenção do público e vender um pouco mais de jornal, uma vez que houve chamada de capa para a infelicidade do palhaço que chora a morte da amada.

O que se pode constatar, minimamente, é a ausência de cuidados e critérios éticos na concepção e publicação desse material jornalístico, redundando de maneira inevitável no comprometimento da qualidade jornalística, elemento cada vez mais raro nos conteúdos levados ao público no Paraná pelas corporações que se dedicam ao jornalismo.

Não há quem possa obter benefícios com esse tipo de atitude. A empresa jornalística perde, uma vez que sua credibilidade fica definitivamente arranhada. Perde igualmente o público leitor, por receber e consumir informações falsas, as quais não trazem nenhuma contribuição para o cumprimento do direito do cidadão ao acesso à informação com utilidade social. Perde também o profissional que realizou o trabalho jornalístico, que mesmo se explicando, se retratando, ou publicando o desmentido oficial assumido pela fonte que admite a responsabilidade pela mentira, adquire a pecha de ter sido enganado, ou se deixado levar pela emoção em vez de pautar sua tarefa de forma menos envolvida com uma fonte que aparentemente o manipulou como bem quis.

Enquanto as normativas éticas que devem reger o jornalismo continuarem sendo relegadas a segundo plano, ou consideradas insignificantes de maneira sistemática, como vem ocorrendo, não teremos como assegurar o cumprimento básico da função de garantir acesso à informação de qualidade no que tange ao interesse social de caráter coletivo amplo.

Abaixo está colocada a reprodução da extensa matéria sobre a “triste sina” de Chameguinho. Nela a história não se restringe apenas à frustração do casamento não realizado, mas abrange vários outros aspectos da vida dura do personagem, que seria analfabeto – fato também não comprovado pela reportagem.

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Reprodução da reportagem – Parte 1
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Reprodução da reportagem – Parte 2
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Reprodução da reportagem – Parte 3

Após a publicação dessa história com destaque, mais precisamente 14 dias depois, em 25 de outubro de 2015, o jornal divulgou o desmentido, reproduzido abaixo. Apesar do pedido de desculpas, e da justificativa de se tratar de uma história incrível, mas plausível, e de que não era uma matéria investigativa, sem dúvida fica estremecida a relação de confiança que deve ser mantida entre o veículo de comunicação e seu público, a quem a empresa jornalística deve no mínimo respeito.

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Reprodução da correção

A desproporção entre os tamanhos das matérias já chama a atenção. Será que não haveria mais nada a explicar, além do que foi colocado no texto de retratação? Porque não se explicam aos leitores os detalhes de produção do material jornalístico, desde a escolha do assunto, até como foram definidos os procedimentos de apuração, seleção e tratamento das informações obtidas? E nem se apresentam os critérios de noticiabilidade empregados, os quais com certeza fizeram com que a pauta dessa reportagem fosse escolhida, e quais os outros fatos e assuntos ficaram de fora para que esse tema ocupasse o espaço gráfico que lhe foi destinado?

Exceto isso, parece que tanto o jornal como o jornalista tentam se eximir de suas responsabilidades, jogando a culpa somente nas costas do palhaço, afinal tudo seria mesmo uma autêntica palhaçada.

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