Ricardo José Torres
Mestrando em Jornalismo no POSJOR e pesquisador do objETHOS

Há aproximadamente 10 anos comecei a acompanhar de perto a cobertura política no Brasil. Verificando a importância do tema decidi realizar pesquisas nesse segmento importante do jornalismo. Há seis anos desenvolvo estudos e análises que envolvem o jornalismo político e as novas possibilidades tecnológicas ofertadas pelo ecossistema jornalístico, particularmente as mídias sociais. Infelizmente, esse período registrou a deterioração das premissas jornalísticas e consequentemente da credibilidade dos veículos tradicionais de comunicação. Atualmente, alcançamos o ápice da especulação e da falta de profissionalismo. Os “fatos” que envolvem o impeachment escancaram as debilidades e mazelas do jornalismo político contemporâneo. Paradoxalmente, a superexposição de um tema político institucional sem precedentes denuncia o nível rasteiro de verificação e contextualização das informações políticas.

Diante de um dos episódios mais vergonhosos da história política do país, acompanhamos atônitos a uma “vigília da vergonha”. A partir de uma comissão de impeachment vergonhosamente inábil e apolítica que aprovou um relatório desprezível proferido por um relator visivelmente despreparado (acredito que ele não produziu nem uma das palavras do texto que mal conseguia ler), seguido de um parlamento que mais parece um circo, estamos literalmente vivenciando a instrumentalização do aparato democrático em favor de causas escusas. Em meio aos “bolões”, bonecos infláveis e “plaquinhas” de todos os gêneros, os preceitos democráticos estão sendo maculados por integrantes do Executivo, Legislativo e Judiciário. Entretanto, mais grave que isso é verificar o despreparo da maioria das instituições jornalísticas do país para apresentar esclarecimentos e fomentar um debate que ofereça alternativas para o cenário devastador evidenciado.

É fundamental que os “especialistas” e jornalistas envolvidos na cobertura não confundam um episódio político, que os veículos de comunicação obstinadamente ajudaram a estruturar, como pode ser observado no pertinente artigo: A narrativa do impeachment – hegemonia na formação da opinião pública da pesquisadora do objETHOS, Amanda Miranda, com uma partida de futebol. Ironicamente a decisão da Câmara dos Deputados ocorreu em um domingo e a ampla maioria das informações tratavam governistas e opositores como “times de futebol”. Todos os atores políticos envolvidos no processo ratificaram que o ideal político democrático brasileiro está esvaziado. As inúmeras horas de discursos do famigerado processo apresentaram governistas alienados e hipócritas em relação aos graves erros de gestão cometidos pelo governo e oposicionistas demagogos e oportunistas que acusam com autoridade, mas não apresentam soluções para os problemas.

Ouvir cinco minutos ou 10 horas de discurso dos representantes do governo ou dos oposicionistas não faz diferença. Bauman (2000) corrobora com essas premissas ao destacar que nas democracias atuais a política é insignificante, comporta políticos impotentes sem programa de governo e que têm como principal objetivo a manutenção de seus cargos.

As mudanças de governo – até de “campo político” – não são um divisor de águas, mas no máximo uma ondulação na superfície de um rio a correr sem parar, monotonamente, com sombria determinação, em seu leito, levado por seu próprio ímpeto. […] Se quiser descobrir quais são as raízes da crescente apatia política, também não precisa procurar muito. Esta política louva e promove o conformismo. E o conformismo bem que podia ser um negócio auto-resolvível – será que a política é necessária para nos conformarmos? Por que nos preocuparmos com políticos que, seja qual for o matiz, só podem prometer sempre as mesmas coisas? (p. 12)

Ao salientar a homogeneidade das temáticas políticas e a retórica tautológica que permeia o ambiente político, Bauman (2000) propõe reflexões importantes que também são salientadas por Morin. Conforme Morin (2013), de forma implícita ou explícita, a ação política sempre se fundamentou em uma concepção do mundo, do homem, da sociedade, da história, ou seja, em um pensamento.

Atualmente, o pensamento político encontra-se no grau zero. Ele ignora os trabalhos sobre o devir das sociedades, sobre o devir do mundo. […] A classe política se satisfaz com os relatórios dos especialistas, com as estatísticas e as pesquisas de opinião. Ela não pensa mais. Ela não tem mais cultura. Ela não sabe que Shakespeare lhe diz respeito. Ela ignora as ciências humanas. Ela desconhece os métodos que seriam adequados para conceber e tratar a complexidade do mundo, para ligar o local ao global, o particular ao geral. (2013, p. 55)

De acordo com Morin, quando um sistema é incapaz de tratar os seus problemas vitais, ou ele se degrada, desintegra-se, ou se revela capaz de suscitar um metasistema apto a tratar de seus problemas: ele se “metamorfoseia”. As premissas de Morin podem ser aplicadas tanto na política quanto no jornalismo político atualmente. Os nossos problemas estão fundamentados na falta de informação política e no espalhamento generalizado de especulações e mentiras. Grande parte da população louva a hipocrisia e dissemina recorrentemente falácias, injurias e difamações.

Por uma “vigília” pela reforma política

A síntese mais clara e deprimente do cenário político atual é o “ilustre” vice-presidente Michel Temer (PMDB). A figura de Temer reflete toda a sujeira e desfaçatez de um contexto devassado pela hipocrisia e pela desinformação. Após enviar uma carta que foi amplamente disseminada pelos veículos de comunicação, Temer protagonizou o episódio político mais “bisonho” dos últimos tempos. O áudio de seu “discurso de posse”, enviado “sem querer” a um grupo do Whatsapp, ganhou uma repercussão “inocentemente” forjada pelas ações do jornalismo político. Sem falar dos “nobres” presidentes da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB) e de seu colega de partido, presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB).

Sim, são essas as nossas lideranças. Seja você governista ou oposicionista, preste atenção nas suas lideranças. Esse quadro de terror não foi formatado por uma “entidade desconhecida”. Toda essa balbúrdia foi protagonizada, direta ou indiretamente, pelo nosso sistema político, pela maioria dos nossos veículos de comunicação e por nossas escolhas. É difícil compreender como o empenho de todos os políticos (governistas e oposicionistas), dos veículos de comunicação tradicionais e inúmeros alternativos possa ser reunido tão rapidamente para debater o “circo” infundado do impeachment, e que tenhamos tanta dificuldade para tratar e fomentar um debate real sobre a reforma política. Esse momento de turbulência demonstra que não se trata de falta de tempo, mais sim de negligência política, especialmente, de comprometimento dos veículos de comunicação e da própria sociedade civil.

Um conceito de Ramonet (1999) vai ao encontro dessa realidade. Trata-se do mimetismo midiático. “O mimetismo é aquela febre que se apodera repentinamente da mídia (confundindo todos os suportes), impelindo-a na mais absoluta urgência, a precipitar-se para cobrir um acontecimento (seja qual for)” (RAMONET, 1999, p. 20-21). Conforme Ramonet (1999), sob o pretexto de que os outros meios de comunicação, particularmente a mídia de referência, atribuam uma grande importância a determinados eventos, isso provoca um efeito de imitação delirante. Os argumentos de Ramonet (1999) podem ser aplicados na tematização das coberturas políticas, predominantemente nos veículos de comunicação tradicionais que dão origem ao “mimetismo político”. Os problemas relacionados ao pensamento político contemporâneo estão ligados à falta de dinamicidade e predominância de uma visão política excludente que se reflete na incapacidade de transformação e avanço.

Enquanto debates acalorados envolvem o afastamento do atual governo, as discussões do conselho de ética e da consequente cassação do presidente da Câmara são abafadas. O episódio que desencadeou o processo de afastamento é menosprezado e Cunha continua à frente dos trabalhos do parlamento. As negociações políticas mesquinhas e o jogo de informação e contrainformação revela a falta de comprometimento dos representantes políticos e dos jornalistas do segmento em relação aos preceitos democráticos e deontológicos da profissão. Para a sociedade não importa saber o último assunto que está pautando os corredores do congresso. A sociedade precisa de informação e não de “fofoca”. Enquanto os bastidores dominam o cenário político, cidadãos como Cunha, Calheiros e Temer estão dominando as ações que envolvem a política institucional no país.

Para além do mimetismo político  

Enquanto os atores políticos institucionais protagonizam um show de horrores a sociedade civil padece de ações políticas de fato. Nos últimos meses o impeachment tomou conta da agenda e das ações de todas as instâncias de poder do país. A exposição mais ampla dos atos políticos de nossos representantes deixa algumas lições que devem ser observadas pelos cidadãos em um ano eleitoral: política pública não é favor; plano de governo não é propaganda; honestidade e ética não são simples adjetivos, mas obrigações dos homens públicos; o discurso político não pode se afastar das ações práticas; o interesse público não pode ser álibi para defesa de interesses de instituições privadas e grupos específicos; e, por fim, mais importante que o voto é a participação efetiva no processo democrático exigindo melhorias e participando efetivamente das decisões que envolvem nossos cotidianos.

O legado de momentos históricos como o que estamos vivenciando está relacionado à possibilidade de reverter todo o vigor da panaceia de bandeiras que estão sendo defendidas, particularmente pró e contra impeachment, em ações que promovam o fortalecimento da democracia. A política não pode se restringir a um jogo, os ideais políticos não podem ser confundidos com interesses. Com certeza não existem santos nesta história. Os cidadãos estão fartos de discurso e não podem se conformar em realizar a escolha “menos pior”. Chega de frases feitas, chega de discursos prontos, chega de hipocrisia, com certeza ninguém saiu e nem sairá vencedor dessas “eleições indiretas”.

A questão principal não é o “golpe”, tão pouco os imputados “crimes de responsabilidade”. Dizer que essa anedota é um “momento histórico” ofende a história, ofende as pessoas que acreditam minimante nas instituições democráticas. Esse momento é deprimente, vazio, inóspito, demonstra a fragilidade do sistema político, o posicionamento enviesado de veículos jornalísticos tradicionais e a militância exacerbada da maioria dos canais jornalísticos alternativos. Precisamos de menos negociações e mais bom senso na política e no jornalismo político.

 Referências:

BAUMAN, Zygmunt. Em busca da política. Rio de Janeiro: Zahar, 2000.

MORIN, Edgar. A Via para o futuro da humanidade. Rio de Janeiro: Bertrand, 2013.

RAMONET, Ignacio. A tirania da comunicação. Petrópolis: Vozes, 1999.