Amanda Miranda
Doutoranda no POSJOR e pesquisadora no objETHOS

A confirmação do processo de impeachment da presidenta Dilma Rousseff ontem, no plenário da Câmara, pode ser o início ou o ponto final de uma narrativa que começou a ser construída pela grande imprensa ainda nas eleições de 2014. Se a tomarmos como o início, é importante avaliar para onde os ventos irão direcionar essa mesma imprensa caso o vice-presidente Michel Temer chegue ao poder. Se a tomarmos como final – pressuposto que assumimos neste texto – é importante compreender de que forma essa estória foi estruturada e compartilhada com a audiência, entendendo-na, em suma, como protagonista no processo de formação da opinião pública.

O conceito de narrativa é utilizado no jornalismo para que se possa compreendê-lo sob pelo menos dois pontos de vista: como uma obra aberta à produção de sentidos e como uma estória, com recursos estéticos que se assemelham à estrutura das obras de ficção. Segundo o professor e pesquisador Luiz Gonzaga Motta, um dos grandes estudiosos da área, as narrativas são projetos discursivos orientados a partir de determinadas pretensões. Por isso, também devem ser entendidas como forma de exercício de poder e hegemonia.

Utilizamos esse conceito para compreender a estória contada nas capas da Folha de S. Paulo, Estado de S. Paulo, Valor Econômico, O Globo e Correio Braziliense na semana que antecedeu a votação do impeachment da presidente Dilma Rousseff no plenário da Câmara. O  pressuposto aqui assumido é de que a credibilidade e prestígio desses grandes veículos fazem sua narrativa participar de modo definitivo da formação de uma opinião pública.

Tal pressuposto nos leva a identificar uma narrativa hegemônica, o que será problematizado adiante pela semelhança da construção dos discursos mesmo em veículos que assumem linhas editoriais distintas e pelo conhecido posicionamento pró-impeachment dessas mesmas publicações, parte deles registrados em editoriais ao longo dos últimos meses.

Uma estória só

Antes de nos determos em aspectos pontuais das capas dos jornais, é necessário uma análise panorâmica sobre a narrativa apresentada e escondida ao longo da última semana. É necessário, também, entender que se trata de uma estória unificada e, por isso, forte o suficiente para se consolidar como verdade.

Ainda que os narradores sejam diferentes – e concorrentes – eles nos contam a estória de um modo muito similar, com pouca abertura a contrapontos. São, em suma, duas narrativas que a grande imprensa escancara:

1 – Um governo tornou-se ilegítimo e precisa ser destituído, custe o que custar.

Esta rota é apresentada por recortes de imagens da presidente Dilma Rousseff com expressões de desolamento e virulência; por manchetes que anunciam o isolamento do Planalto e a debadanda de partidos que antes participavam da base de apoio do Governo; pelo apontamento do placar dos deputados contra e a favor do impedimento nas capas; pelos títulos que evidenciam as negativas do Supremo Tribunal Federal aos recursos do governo.

Tudo isso de fato aconteceu ao longo da semana, mas os recortes que os jornais dão, o modo como organizam e estruturam a estória objetivam uma situação de caos, não um jogo político repleto de nuances. Em bloco, os jornais apelam por formatar a narrativa da destruição de um governo democraticamente eleito há dois anos.

2 – Um novo governo precisa surgir, em uma espécie de terceiro turno que deslegitima o voto popular.

Esta rota é apresentada pelo protagonismo assumido pelo vice-presidente Michel Temer na narrativa; pelo movimento de se recriar uma oposição apática na figura de uma grande heroína; pela negação de que essa oposição é composta por partidos que participaram do Governo ao longo de 13 anos; pela revelação dos bastidores de apoio ao impeachment; pelo enfraquecimento do Planalto a partir do que já elencamos anteriormente.

As capas dos jornais de domingo d’O Estado de S. Paulo, Folha de S. Paulo e Correio Braziliense são significativas como representantes dessa narrativa. Elas mostram que há uma disputa em jogo, uma espécie de um terceiro turno. E é sintomático que essa disputa aconteça opondo dois antigos aliados sem que sequer se reflita sobre a natureza da ruptura do PMDB com o Governo mais de uma década depois do primeiro abraço.

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Três não-estórias

Aquilo que os jornais silenciam também se apresenta nas narrativas, como pontos abertos à produção de sentidos e à participação do leitor como co-autor da estória. Embora esses assuntos tenham sido omitidos dos jornais analisados, eles apareceram em contra-narrativas, grande parte delas oriundas das redes, mas muitas delas apresentadas pela imprensa internacional.

São silêncios que ampliam ainda mais a hipótese de que tais publicações deixaram o jornalismo em segundo plano e assumiram técnicas publicitárias, de apoio ao impeachment.

1 – As pedaladas de Dilma

O motivo de abertura do processo de impeachment, que são as pedaladas fiscais da presidenta, não participaram da narrativa da semana que antecedeu a votação no plenário. Nossa hipótese é de que isso aconteceu para não dar margem à contra-narrativa do golpe, já que inúmeros juristas constitucionalistas afirmam que Dilma não cometeu crime de responsabilidade ao se utilizar de um instrumento usual entre governantes.

Para a estória contada pelos jornais, a palavra impeachment tem força por si só, não interessando os motivos que tenham levado à abertura do processo, tampouco sua problematização.

2 – O fisiologismo da oposição

Na narrativa dos jornais, a debandada dos partidos para a oposição e a entrega dos ministérios foi tratada como intercorrência, como algo natural no jogo político. As publicações evitam manchetes críticas a legendas como o PP, um dos partidos que mais tem julgamentos na Operação Lava Jato, e ao PMDB, que rompeu com o Governo para poder herdá-lo em caso de impeachment.

3 – O que a imprensa internacional disse e nos foi negado

Os jornais da imprensa internacional, como The New York Times e El País, indicavam em suas reportagens da semana de votação do impeachment uma presidenta sem acusações sendo julgada por um plenário repleto de réus. Essa narrativa não foi, em nenhum momento, aventada pelos grandes jornais nacionais. Sem chegar às capas que analisamos, o material foi fartamente replicado nas redes, em um exemplo de como as contra-narrativas são importantes para combater a hegemonia.

Os personagens: entre mocinhos, vilões e mais silêncios

Personagens posicionados como vilões ou como heróis, com construção melodramática, viradas e desfechos são recursos comuns nas obras de ficção, mas também são no jornalismo. O que difere uma coisa da outra, além da adesão dos jornais ao mundo real, é a hegemonia que assumem diante de uma audiência que ainda vê nas manchetes elementos para reconstituir a verdade, aqui contada sempre a partir de um mesmo ângulo, conforme veremos a seguir.

Um dos personagens da estória que analisamos é o próprio narrador, aquele que conta a história – nesse caso, jornais estruturados no modelo empresa, com forte histórico de inclinação ao apoio de projetos econômicos liberais e com reconhecidos casos de adesão ao discurso conservador, como já analisado em outros textos do objETHOS (aqui, aqui e aqui, por exemplo).

Os outros personagens dessa narrativa, a exemplo do que observamos nas capas da Folha de S. Paulo de segunda-feira, d’O Estado de S. Paulo de quinta e d’O Globo de sexta são as instituições democráticas, aqui tomadas como a presidenta Dilma Rousseff, a Câmara dos Deputados, os partidos que constituem a Câmara e o Judiciário.

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Há, também, personagens que tangenciam essa narrativa, como é o caso do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que aparece na capa do Valor Econômico, no título “Se Dilma ficar, só Lula poderá tocar o governo”, e que surge com força nas narrativas que elucidam as negociações políticas que antecederam a votação, reconhecida a capacidade dele de hábil articulador.

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Outro personagem relevante para compreender a estória que a imprensa contou por meio de suas capas é o vice-presidente Michel Temer. Uma rápida avaliação das capas do processo de impeachment de Fernando Collor, em 1992, indicam que o vice começou a ocupar o papel de protagonista no day after. Ao contrário, o que ocorre agora é uma inversão: temos um vice que do papel de personagem secundário passou a um protagonismo, tal como se percebe na capa do Valor Econômico de terça-feira, com a manchete “Temer antecipa discurso da vitória”, acompanhada de uma foto, em close.

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A narrativa construída pela imprensa mostra, também, o enquadramento dos personagens, posicionados como vilões e heróis, seja pelo recurso dos títulos, seja pela seleção das fotos, que detalharemos mais adiante. No caso da presidenta Dilma, o enquadramento aparece a partir da construção de uma personagem reativa e virulenta, a mesma personagem que a Revista Istoé tentou projetar. Nas capas da Folha de S. Paulo e do Correio Braziliense de quarta, por exemplo, destaca-se que ela está acusando seu próprio vice de conspirador e seus adversários de golpistas. A narrativa que se manifesta aqui é a de uma presidenta acuada e agressiva, a exemplo também do que aparece na Folha de S. Paulo de quinta-feira, quando um dos títulos da capa destaca que, se perder, Dilma já se considera carta fora do baralho.

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Por outro lado, chama atenção a ausência de um personagem fundamental da narrativa do impeachment nas páginas dos jornais. Eduardo Cunha, presidente da Câmara e réu da operação Lava Jato, embora seja visto por analistas políticos como um dos grandes articuladores do impeachment, não aparece nas capas dos jornais.

O que esse silêncio revela também importa para compreendermos a narrativa do impeachment: ao se alçar Cunha ao protagonismo do processo não se poderia ocultar o seu reconhecido histórico de corrupção e tirania. Se a narrativa dos jornais busca construir o apoio ao impeachment, reconhecer um protagonista na posição de vilão poderia ser um problema com o qual os narradores não estavam dispostos a lidar.

É emblemático, também, perceber quem são os heróis da narrativa do impeachment. Na capa d’O Estado de S. Paulo de quarta e de sexta , a oposição é enquadrada como uma heroína vitoriosa, já que conseguiu enfraquecer o Planalto e coletar os votos para alavancar o processo. Como já sinalizamos, o enquadramento na condição de herói não permite espaço para qualquer ângulo crítico a respeito do fisiologismo de siglas que há dias atrás ocupavam cargos no Governo.

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Fio narrativo de uma batalha a ser vencida

A semana que antecede um grande acontecimento público costuma ser de manchetes bombásticas. Popularmente, o jornalismo já foi definido como uma “história à queima roupa”. Ou seja, como se os seus sobrevoos cotidianos sobre fatos que dizem respeito ao mundo pudessem nos dar uma breve dimensão do tempo presente, em tempo real.

A narrativa, do ponto de vista cronológico, apresenta um enredo bastante semelhante a um produto de ficção em sua estrutura. A introdução da obra é bem apresentada pelo Correio Braziliense de segunda-feira, com a machete “O futuro de Dilma em sete dias”. É ali que a estória começa, sugerindo uma obra em aberto, pronta para ter um final no domingo.

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Já na terça-feira, houve o primeiro grande ápice da narrativa, como se percebe na capa da Folha de S. Paulo, que registra o avanço do processo na Comissão Especial, já com o indicativo sobre os planos do vice, Michel Temer, em caso de vitória. Aqui, Temer surge como protagonista e na condição, também, de um articulador. Mas seu enquadramento está longe de oferecer um vilão ou anti-herói, ainda que as manchetes destaquem Dilma chamando-no de traidor.

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Na quarta, os jornais começam a construir a narrativa para a orientação de um “efeito manada”. Ao noticiarem o isolamento do Planalto, como faz O Globo, acabam elevando sua narrativa à posição central para a definição dos partidos em apoiar ou negar o impeachment. As manchetes destinadas às legendas que costumam participar sem nenhum protagonismo dos jogos políticos também as colocam na dimensão de quem decide e de que, por isso, pode mudar o país para melhor.

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A narrativa se volta ao protagonismo da presidenta somente na quinta-feira e com pouco destaque. Dilma falou aos jornalistas, mas somente o Correio Braziliense a colocou no topo das manchetes. Todos os outros jornais escolheram posições menos privilegiadas para as falas dela. É como se a protagonista surgisse apenas nas páginas finais do livro, sem que o leitor pudesse reconhecê-la como tal.

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As edições de sexta também orientam a narrativa para um desfecho desfavorável ao governo, dada à negativa do STF para processos mobilizados pelo Governo na tentativa de redefinir procedimentos do impeachment ou mesmo de anular a sessão de domingo.

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Uma possível reviravolta começa a ocupar as manchetes no sábado, mas sem muito alarde. O improvável, do ponto de vista dos jornais, começou a acontecer na noite de sexta, como anuncia a manchete da Folha de S. Paulo. Os outros jornais, entretanto, anunciaram o mesmo movimento de recuperação, mas já com a negativa de que ele tenha se efetivado.

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Nos jornais de domingo, um pouco mais frios e com menos notícias factuais, os placares compartilhados por Estado de S. Paulo e Folha de S. Paulo, apresentados logo no início dessa análise, antecipam um final para uma narrativa ainda em aberto.

A comemoração no day after

Se a narrativa foi construída de modo semelhante a uma obra de ficção, com personagens, enredo e até com pontos de tensão e de virada, o dia após a votação do impeachment pode ser considerado o dia do final feliz.

A capa de O Estado de S. Paulo representa com particular consistência o momento de histeria assumido sem qualquer constrangimento pela grande imprensa. Como a cartola de “Edição Especial” e uma imagem do Congresso e dos deputados alçados à posição de heróis, o que se vê é uma chuva de papel picados e uma expectativa bastante positiva para um desfecho no Senado.

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Um tanto mais discreto, O Globo mantém boa parte das características estéticas da capa, mas também celebra uma vitória e narra um contundente final feliz, com a manchete “Perto do fim” sinalizando para um momento promissor, cheio de expectativas positivas para a destituição da presidenta.

É inevitável comparar essas capas com as do dia seguinte após a vitória de Dilma Rousseff nas eleições democráticas de 2014. Sem espaço para confete, papel picado ou celebração, a manchete do Estadão parecia “digerir” a derrota do candidato da oposição, Aécio Neves. Se essa comparação nos mostra com ênfase a posição editorial assumida pelos jornais no momento de narrar estórias, ela também nos acende um alerta para o questionamento sobre o que pode ser considerado festivo numa democracia tão recente, em que as eleições indiretas parecem um recurso a ser defendido por determinadas publicações.

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Dilma entre a solidão e a virulência

A narrativa do impeachment não se encerra nos textos: as imagens selecionadas para comporem as capas das edições também são emblemáticas no sentido de nos fornecerem bases para compreender a orientação assumida pelos jornais na condução da opinião pública.

A presidenta Dilma Rousseff aparece em pelo menos seis delas, com representações emblemáticas para se pensar a narrativa. As capas do Valor Econômico , Folha de S. Paulo, e O Estado de S. Paulo , se vistas em sequência, sugerem uma história que nos conduz de um movimento de partida – quando a presidenta desce a rampa – para uma expressão de ranço, seguida de uma espécie de transe.

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É comum que pessoas públicas sejam retratadas de pontos de vista pouco convencionais, mas o que se percebe aqui é a tentativa dos jornais de mostrarem uma presidenta que oscila entre o ranço e a virulência e a inadequação à posição que ocupa. Nas imagens, Dilma não sorri e não é flagrada em situações que permitam um contraponto a essa narrativa hegemônica.

A capa de quinta-feira d’O Estado de S. Paulo é ainda mais emblemática, pois posiciona a presidenta diante de dois homens se cumprimentando. As mãos muito próximas ao pescoço dela, em segundo plano, dão a mensagem de “degola”. Ou, como exposto nas narrativas, de uma degola convencionadas por acordos políticos, por apertos de mão. A opção por retratar só um dos olhos de Dilma por detrás de um tecido verde e amarelo, como fez o Globo de quinta-feira, também indica uma mulher a espreita, espiando, tergervisando.

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Na sexta-feira, tanto Folha de S. Paulo, quanto O Globo recorrem à mesma imagem, da sombra da presidenta em retirada do Planalto. É como se fosse o ponto final de uma narrativa que os jornais assumiram como sua e escreveram, linha a linha, flash a flash.

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O que fica dessa estória para a história

Quando escreveu o clássico “A Opinião Pública” em 1922, o filósofo Walter Lipmann lembrou que, por não estarmos aptos ao conhecimento da realidade, somos influenciados por imagens construídas ao nosso redor. Estas imagens são também formadas pelo contato diário com os meios de comunicação, especialmente àqueles de maior abrangência e visibilidade, como os jornais aqui analisados.

Não há como negar que estes veículos atuaram mais na esfera da publicidade do que fazendo jornalismo na semana que antecedeu a votação do impeachment no plenário. A necessidade de dirigir a opinião pública a partir de uma trama formulada com a intenção de conferir legitimidade a um discurso de víes único mostra que os jornais foram co-autores de uma narrativa cuidadosamente pensada para destituir um grupo democraticamente eleito do poder. O risco assumido pela imprensa, aqui, é o de ter protagonizado um atentado contra a democracia, o que já ocorreu em outros períodos da história.

As imagens orientadas por essa narrativa só têm um sentido, não oferecem contra-pontos, não indicam margens para os contra discursos. Mas, tal como entendem os estudos da narrativa jornalística, o leitor também é co-autor. Ele pode receber um discurso e desconstruí-lo ou transformá-lo, produzindo sentidos absolutamente divergentes daqueles que o narrador intenciona. Toda obra é aberta a produção de sentidos. Isso também ocorre com o jornalismo e não podemos ignorar que onde há hegemonia também há espaços para rompê-la.

Por fim, retomando o conceito popular de que o jornalismo é uma história a queima-roupa, devemos questionar qual é a estória contada pelos jornais que será recuperada pelos historiadores a partir de hoje. Os analistas jamais irão ignorar os caminhos percorridos pela imprensa para construir a imagem de uma presidenta inábil, cercada de aliados corruptos e que não mereceu o poder que 54 milhões de votos lhe conferiram. São caminhos tortuosos, que a posicionam entre a publicidade e o panfleto político partidário e jogam uma pá de cao na defesa do jornalismo como instituição que legitima a democracia.

Por outro lado, e num viés mais otimista, entendemos que a história e as estórias são reescritas diariamente pelos agentes sociais. Isso nos permite pensar que as contra narrativas começam, hoje, a reconfigurar textos de mão única, a pluralizar suas abordagens e a espalhá-las entre aqueles que estão dispostos à ressignificação de suas verdades. Este olhar nos força a crer que ainda há espaço para um jornalismo sério e capaz de modificar rumos. É para ele que devemos olhar a partir de agora.

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