Mariana Rosa
Mestranda no POSJOR e pesquisadora do objETHOS

Na edição do último final de semana, a revista Carta Capital trouxe na capa a chamada “Pobre povo brasileiro”, seguida pela seguinte afirmação: “As eleições municipais provam sua incapacidade de agir politicamente e entender que os golpistas o escolhem como vítima. E pobre Brasil…”. A manchete da capa é amparada pelo editorial “O povo deixa-se sacrificar”, assinado por Mino Carta, além da reportagem “A ‘vitória’ do não errado”.

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Ao longo de todo o editorial, o texto alude à metáfora da casa-grande/senzala para explicar o resultado das eleições municipais. “A maioria pobre é imolada no altar da casa-grande pelo Governo Temer e não percebe o quanto seria importante agir politicamente”, diz o destaque logo abaixo do título. Em contraponto à análise corrente de que os resultados das eleições municipais são fruto de um processo de descrença política, como ocorreu, por exemplo, na Itália após a operação Mãos Limpas, o editorial argumenta que no caso brasileiro a falta de ação política é estrutural, fruto da sua condição de país-continente.  “A porção majoritária da população não está a negar a política, nunca se aproximou dela, isto sim, nunca foi capaz de entendê-la como um meio de expressão indispensável, passível de lhe oferecer a chance de manifestar suas vontades e defender seus interesses, a não ser quando escolheu Luiz Inácio Lula da Silva e quem mais apoiasse”, afirma.

Ainda explorando a metáfora, o texto prossegue: “a maioria dos brasileiros mora na senzala, física ou moral, não tem consciência da cidadania e desconhece caminho oposto àquele da resignação. Pior, da submissão”. A relação que se estabelece entre a senzala e a submissão, que tem como referência a obra de Gilberto Freyre, mostra-se especialmente simplista no contexto do editorial que cobra a formação de lideranças destemidas a favor da igualdade. É simplista porque ignora a resistência necessária, seja para lutar por igualdade ou para, simplesmente, seguir respirando com toda a violência que paira no ar da realidade aparentemente harmônica da senzala. É simplista, ainda, porque mede a militância pela régua do poder institucional, ignora a resistência diária nas margens, o simbolismo do 20 de novembro e a memória de todos os homens e mulheres negras que lutaram como puderam pela sua liberdade. Ainda lutam.

Poderia ser a eleição de Lula, o único momento de consciência política em toda a história do país? Ou melhor: poderia ser a consciência política o mais genuíno fator para a eleição de Lula? Ignora-se no raciocínio um fator essencial, a submissão às elites do país implícita na candidatura de coalizão que elegeu Lula. Sem aludir a este ou outros aspectos, a fatura da complexa conjuntura atual é debitada na conta do trabalhador. Não entram na soma a desilusão diante dos erros do governo PT, o esvaziamento da formação política na esquerda e o crescimento do conservadorismo, que tem, inclusive, alguns de seus expoentes formados debaixo do telhado de vidro das coligações feitas pelo partido dos trabalhadores, como é o caso de Eduardo Cunha.

Jornalismo que fala sobre o povo, mas não fala com o povo?

“Trata-se da costumeira aposta na ignorância da senzala, no seu temor visceral diante do poder, este a se valer da ausência secular de lideranças capazes de levar os desvalidos a conscientizar sua situação e a vislumbrar na política, entregue a líderes dignos, sua necessidade urgente. Mesmo assim, cabe perguntar até quando será possível seguir adiante neste plano insano?”, aponta um trecho da conclusão do texto.

Ao mesmo tempo em que se propõe a denunciar a aposta das elites na ignorância do povo, o texto assume em certa medida a postura das mesmas. A começar pelo olhar sobre um incapaz e “pobre” povo, tratando o mesmo como um objeto sobre o qual se fala de um lugar superior e distante. O povo é o assunto, mas com ele não se dialoga. O povo estampa a capa da revista, está também na fotografia que ilustra o editorial – acompanhada pela legenda “Brasileiros ignaros justificam o ‘não voto’” – mas não tem voz nem no editorial, nem na reportagem que se segue, que trata o tema do não voto a partir de dados oficiais e especialistas.

A tão comum – e perversa – desqualificação da história e do povo brasileiro em relação à realidade européia, sempre estalando na ponta da língua das elites, também mostra suas tintas em alguns trechos do editorial, com referências pontuais a idéia de um “país civilizado” em oposição ao país-continente, e a um outro que “pensa e se indigna” em contraste ao brasileiro ignorante.

Se há uma ignorância que se evidencia, no entanto, talvez seja a da publicação, expressa no desinteresse pela fala desse povo sobre o seu não voto. Fazer a pergunta chave – por que não votaram? – aos sujeitos implicados ao invés de apontar adjetivos pode lançar alguma luz à crise de representatividade – tanto a política, quanto a da imprensa. Qual é a finalidade de um jornalismo que fala sobre o povo, mas não fala com o povo? Há aí uma grande questão, sobretudo quando se trata da imprensa que se afirma progressista. Por meio de quem e para quem o jornalismo fala? Não seria parte do nosso papel encontrar, em meio a essa massa chamada de povo, sujeitos e suas singularidades? Escutar as suas histórias ao invés de pressupor, com superioridade, o seu papel (ou, neste caso, não papel) na história? Esse seria o caminho para um jornalismo comprometido de fato com a transformação social. De outra forma, corre-se o risco de adentrar a casa-grande e de lá não conseguir sair mais.