Leonel Camasão
Mestrando no POSJOR/UFSC e pesquisador do objETHOS

A morte de Teori Zavascki em um acidente aéreo nesta quinta-feira (19) reacendeu uma espécie de paranoia coletiva nos brasileiros. A sanha em impedir o andamento da Operação Lava Jato estaria tão avançada que os poderosos do establishment político decidiram eliminar fisicamente um ministro do Supremo Tribunal Federal?

Neste momento da história, é impossível aos mais sensatos tirar uma posição definitiva. Os partidários do governo ilegítimo de Temer se apressam a minimizar qualquer possibilidade de conspiração. Tudo foi uma triste fatalidade. Já os que se sentem golpeados pelo PMDB et caterva – este autor entre eles – tem motivos naturais para enxergar no trágico acidente mais um capítulo do golpe que abalou a democracia brasileira e mais um componente de uma grande conspiração para impedir o total desnudamento do corrupto sistema político do país.

Em março de 2016, escrevi neste mesmo espaço sobre a “Delação do Fim do Mundo”, na qual executivos da Odebrecht revelariam que mais de 200 políticos de 24 partidos brasileiros estariam envoltos no esquema de propinas com a construtora. De lá para cá, as investigações avançaram e a delação da Odebrecht estava prestes a ser homologada pelo próprio Teori nas próximas semanas. Confirmado, o caso representa o maior esquema de corrupção da história do Brasil e um dos maiores do mundo.

Complexo por natureza, este cenário se revela repartido e simplificado pelo noticiário e suas rápidas conclusões. Elementos factuais importantes foram noticiados como verdadeiros – como a suposta ausência de caixa preta no avião -, e depois, desmentidos. Outros aspectos são sumariamente descartados ou apresentados como possível “ilusão das testemunhas”, como a suposta fumaça que estaria saindo da aeronave na hora da queda.

Porém, há duas características marcantes dessa intensa cobertura até o momento. A primeira delas é a capacidade da mídia brasileira em beatificar os políticos falecidos – prática que já remonta à morte de Antônio Carlos Magalhães em 2007. A segunda é o aparente desrespeito imediato ao falecimento de um ministro de Estado. Explicamos.

A “beatificação”

Em vários noticiosos, o ministro Teori Zavascki é apresentado ao público como um juiz “sereno e equilibrado”, com perfil “eminentemente técnico”. Ao contrário de colegas como Gilmar Mendes e Joaquim Barbosa, Zavascki era “discreto”, “admirado por todos”, “avesso a jornalistas” e por fim, um “herói silencioso da Lava Jato”, como foi chamado pela edição desta semana da revista Época.

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Entretanto, a imprensa não deu o merecido destaque, até o momento, sobre quem era o empresário dono do avião e o que um ministro do STF fazia nele. A curiosidade mórbida da imprensa e do público parece mais preocupada em saber quem eram as duas mulheres a bordo da aeronave e se o ministro poderia estar envolvido em prostituição. Prova desta repentina curiosidade mostra-se no google. Ao digitar a palavra “massagista”, a primeira sugestão do buscador é “massagista teori”.

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Uma das poucas exceções na mídia de referência foi a revista Exame. Em sua versão on-line, a publicação dedicou-se a construir um perfil heroico de Carlos Alberto Fernandes Filgueiras, proprietário do grupo Emiliano e do avião que caiu em Paraty. O empresário também faleceu.

Na reportagem, assinada pelo repórter Marcelo Ribeiro, Filgueiras é retratado como “o amigo que confortou Teori no pior momento da vida”. Segundo a matéria, Teori era hóspede da rede de hotéis de Filgueiras, quando levava sua esposa para tratamento de um câncer, em SP. Ela morreu em 2013, mas a partir daí, Filgueiras e Teori se tornaram amigos.

No mesmo sentido, a Época faz perfil similar do empresário: era amado por todos, “boa gente” e costumava “abençoar os funcionários”. A reportagem se alonga a publicar depoimentos de funcionários com identidade não revelada. Também destaca a paixão de Filgueiras por Paraty. O texto é de Luís Lima.

Somadas, as matérias da Exame e da Época sobre o empresário chegam a quase 11 mil caracteres. Não há uma única linha em ambos os textos que cite o fato de Filgueiras ser sócio de André Esteves, dono do banco BTG Pactual, conforme destaca Alceu Luís Castilho no site Outras Palavras.

O BTG Pactual é investigado na Lava-Jato. Esteves foi preso durante a operação, em  novembro de 2015. Vinte dias após a prisão, Teori Zavascki concedeu prisão domiciliar ao banqueiro e, em abril de 2016, o liberou definitivamente. O empresário também tinha interesses no STF, pois recorria de um condenação sobre danos ambientais em Paraty, onde sua mansão foi construída irregularmente. Os jornais O Globo, Jornal do Brasil e Extra publicaram matérias sobre o assunto na sexta-feira.

A morte em segundo plano

A excepcionalidade das circunstâncias e a importância que Teori Zavascki tinha para o andamento das investigações contra a elite política do país fizeram de sua morte algo menos importante no noticiário brasileiro. A imprensa estava mais interessada em saber ou especular sobre o futuro da Lava-Jato, quem seria indicado para a vaga de Teori e como o mercado reagiria.

No dia seguinte à morte de Teori, diversos jornais deram mais destaque aos efeitos e especulações sobre a Lava Jato do que à própria morte do ministro. É o que se percebe ao analisar as capas de vários diários pelo país do dia 20 de janeiro.

Correio Braziliense (Brasília):
“Morte de Teori põe em risco a Lava Jato”,

Zero Hora (Porto Alegre):
“Morte de Teori Zavascki freia operação Lava-Jato”

O Correio do Povo (Porto Alegre):
“Está aberta a disputa pela vaga de Teori no Supremo”

Diário Catarinense (Florianópolis):
“Morte de Teori levanta dúvidas sobre a Lava-Jato”

O Globo (Rio de Janeiro):
“Morte de relator da Lava-Jato atrasará delação da Odebrecht”

A Tarde (Salvador):
“Morte de Teori Zavascki deixa incertezas na Lava Jato”

Alguns veículos como a Folha de S. Paulo, ou ainda, jornais digitais especializados no mundo jurídico, como o Jota e o Justificando, adotaram o tom mais sóbrio. Também foi o caso do Nexo.

Porém, foi a GloboNews, de longe, que mostrou a desimportância da vida humana ao anunciar que os mercados estavam em alta por conta da “China, da posse de Trump e da morte de Teori Zavascki. A comentarista de economia Thais Herédia afirmou:

“Claro que a morte do Ministro Teori Zavascki também está na mesa dos investidores. Eu conversei com vários analistas  e gestores de fundos de investimento (…). É uma análise bastante fria (…). A análise é fria porque ela leva em consideração que a morte do ministro atrasa toda a avalanche que seria causada pela homologação das delações, a famosa “delação do fim do mundo”, e isso daria mais tempo ao governo do presidente Michel Temer e a equipe econômica, que carrega uma grande credibilidade, a continuar tocando as coisas da economia e abre também espaço para que a reforma da previdência avance mais. Então diante deste cenário, não é o momento de se desfazer de ativos brasileiros aqui. É de comprar.”

O comentário, quase em tom de comemoração, reforça duas ideias: a primeira é de que a morte de Teori e a estanca da sangria da Lava Jato é bom para economia e para os investidores do Deus Mercado. E a segunda é de que Michel Temer está correndo contra o tempo, pois sabe, implicitamente, que seu governo não deve chegar até 31 de dezembro de 2018. Se Deus Mercado está feliz, tudo vai bem.

A urgência de ocupar o espaço no STF também contaminou Brasília, e as especulações não respeitarem nem ao menos o luto oficial. O ministro Marco Aurélio Mello defendeu que o atual ministro da Justiça, Alexandre de Moraes, substituísse Teori Zavascki no STF. O Ministro Moreira Franco também afirmou que Temer indicaria um substituto “o mais rápido possível”. Essa hipótese parece descartada neste momento, e Temer afirma que vai aguardar Carmém Lúcia, presidenta do STF, definir o andamento da Lava Jato antes de nomear novo ministro.

Em que pese a tragédia, a polêmica de ministros do STF voarem com pessoas investigadas não é de hoje. Temer foi criticado por viajar a Portugal com Gilmar Mendes, presidente do Tribunal Superior Eleitoral e responsável por conduzir um processo do PSDB que pede a cassação da chapa Dilma-Temer.

Você acredita em Teori da Conspiração?

Charge: Frank Maia
Charge: Frank Maia

A morte de  Zavascki já entrou para a história como mais um episódio de autoridades brasileiras mortas em circunstâncias duvidosas. Diversos veículos de imprensa, entre eles o Estadão, lembraram nesta-sexta-feira (19) de episódios similares na história recente do país.

O episódio soma-se às mortes mal explicadas dos ex-presidentes Juscelino Kubitschek (1961), João Goulart (1976) e de Tancredo Neves (1985); do deputado Ulysses Guimarães (1992); do empresário Paulo César Farias (1996), o “PC Farias”; do prefeito de Santo André Celso Daniel (2002) e do ex-governador de Pernambuco e candidato à Presidência Eduardo Campos (2014).

Quase instantaneamente, as notícias da morte de Teori Zavascki tomaram as redes sociais. Ao invés da comoção generalizada – como ocorreu com Eduardo Campos – o sentimento que se espalhava era outro: desconfiança. Afinal de contas, a morte de Teori é boa demais para os principais dirigentes do país que ascenderam ao poder de forma ilegítima.

Os beneficiários do acidente vão do presidente Michel Temer ao seu ministério, passando por quase 200  deputados e ex-deputados, todos eles com o nome inscrito nas listas de propinas da empreiteira Odebrecht.

O próprio ministro da Casa Civil, Eliseu Padilha, implicado até o pescoço na Lava-Jato, chegou a afirmar, publicamente, que a morte de Zavascki “daria um pouco mais de tempo” para as delações serem homologadas. Teori estava trabalhando durante o recesso e pretendia homologar as delações no início de fevereiro.

Ninguém no establishment está chorando.

A conspiração

Poucas horas após a confirmação da queda da aeronave,o jornal Extra, do Rio de Janeiro, noticiava: Filho de Teori relatou ameaças: ‘Se algo acontecer à minha família, sabem onde procurar’. Mais cauteloso, o El País Brasil entrevistou um perito aéreo, sob a manchete “Sabotagem não pode ser descartada, mas a probabilidade é muito baixa”. Quase todos os veículos divulgaram matérias, mais ou menos céticas, sobre a “teoria da conspiração”. Bernardo Mello Franco, colunista da Folha, também pediu cautela e não descarta a possibilidade de atentado.

Independente da verdade, as redes sociais potencializaram o discurso conspiratório. Enquetes perguntavam se os usuários consideravam a morte do ministro como assassinato ou apenas um acidente. Na página do Catraca Livre, a opção “atentado” obteve quase 97% dos cerca de 40 mil votos obtidos.

O Instituto Paraná Pesquisas surfou na onda e realizou, no dia 20, pesquisas online sobre o assunto. Segundo publicou o R7, oito em cada dez brasileiros acreditam que Teori Zavascki foi vítima de um atentado. O Instituto também revelou que 65% são contrários à indicação de Sérgio Moro para a vaga no STF, conforme defenderam figuras ilustres da direita conservadora nacional como Silas Malafaia. O Paraná pesquisas ouviu 2.800 pessoas.

Alguns fatos e personagens da Lava Jato também alimentam a ideia de conspiração. O delegado da Polícia Federal Marcio Adriano Anselmo, da força-tarefa da Lava Jato, pediu uma investigação “a fundo” do acidente, ocorrido “na véspera da homologação da colaboração premiada da Odebrecht”. Horas depois de postar o “desabafo”, Anselmo apagou a postagem do Facebook.

Foto: Reprodução
Foto: Reprodução

Suspeitos que desejassem seu fim não faltam. Zavascki já foi considerado inimigo dos movimentos que pregaram o impeachment de Dilma Rousseff, e foi hostilizado por manifestantes anti-PT depois de contestar uma decisão do juiz federal Sérgio Moro. Zavascki invalidou conversas telefônicas obtidas e vazadas ilegalmente que envolviam a então presidenta Dilma e o ex-presidente Lula. Também é dele a decisão de prender o senador Delcídio do Amaral em pleno exercício do mandato e ainda de afastar Eduardo Cunha da presidência da Câmara dos Deputados. Em maio do ano passado, o filho de Teori,  Francisco Zavascki, escreveu no Facebook que sua família estava sofrendo ameaças telefônicas. A época, a revista Veja deu nota, afirmando que o Ministro estava sendo monitorado.

É interessante como a própria imprensa, que divulgou dezenas de notícias sobre a possibilidade de conspiração, passou a noticiar neste sábado como as “redes sociais” estão criando teorias de conspiração. É uma espécie de profecia auto-realizada. Independente da veracidade ou não, a imprensa estimulou o debate público com a possibilidade de assassinato e agora repercute em larga escala o efeito de sua própria ação.

Independente da verdade – talvez nunca saberemos – parece que o público e boa parte da imprensa já escolheu qual versão dos fatos mais lhe agrada. As investigações que estão em andamento poderão, quem sabe, desvendar – ou abafar – todo o mistério.

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