Andressa Kikuti
Professora da UEPG e colaboradora do ObjETHOS

O último 28 de abril foi marcado pela greve em todo o Brasil. O dia amanheceu com as ruas vazias, centenas de categorias de trabalhadores com os braços cruzados, rodovias bloqueadas, piquetes nas fábricas, e manifestações em diversas cidades do país que, juntas, somaram mais de 40 milhões de pessoas, segundo reportagem do jornal Brasil de Fato. Nas redes sociais, a repercussão foi enorme: até as 16h do dia 28, o cientista de dados Fabio Malini havia contabilizado 685 mil tweets sobre a greve, a maioria deles (88%) favoráveis, contra 12% dos governistas.

O principal motivo é a reforma trabalhista, que altera mais de cem pontos da CLT (Consolidação das Leis Trabalhistas). Entre outras coisas, a reforma possibilita a prevalência do acordo entre patrão e empregados sobre a legislação trabalhista, o que possibilita que a empresa contrate trabalhadores com menos direitos do que prevê a convenção coletiva da categoria, ou até mesmo a lei; admite excesso de jornada mesmo sem acordo prévio; restringe acesso à Justiça gratuita para ações trabalhistas; e aprova a terceirização da atividade fim, aumentando ainda mais a precarização do emprego no Brasil, já que trabalhador terceirizado trabalha mais e ganha menos.

Travestida de “modernizadora”, a proposta foi colocada para votação em regime de urgência e aprovada pela Câmara dos Deputados na madrugada de quarta-feira (26), sem a devida discussão com os diretamente interessados – os trabalhadores. Uma reportagem do The Intercept Brasil revelou que os verdadeiros autores de uma em cada três propostas de mudanças apresentadas por parlamentares na reforma trabalhista são lobistas de associações empresariais. De acordo com a reportagem, das 850 emendas apresentadas à CLT, 292 (34,3%) foram integralmente escritas por lobistas de associações que reúnem grandes doadores de campanha. Destas, 153 (52,4%) foram aceitas pelo relator e agora estão incorporadas ao projeto.  Aqui fica evidente que os interesses defendidos pela reforma trabalhista são, claramente, os patronais.

A reforma da previdência foi outro motivo para a greve geral. Entre os pontos mais polêmicos estão o aumento da idade mínima para aposentadoria (65 anos para homens e 62 para mulheres) e aumento do tempo de contribuição para receber a aposentadoria integral. Se aprovadas as reformas, eis o cenário que se desenha:  as pessoas trabalharão cada vez mais, em piores condições, e ficarão mais doentes, mas terão dificuldades no acesso à saúde pública se aprovada a PEC 55. E ainda corre-se o risco de morrer antes de se aposentar… Sobram motivos para preocupação, para ir às ruas lutar pelos direitos que estão sendo retirados.

No exterior

As manifestações chamaram a atenção da mídia como um todo. A cobertura internacional, porém, deu um baile na nacional: enquanto circulavam pelo mundo títulos como “Cities paralyzed by nationwide strike against austerity” (Reuters), “Anti-Temer strike paralyses major cities in Brazil” (Al-Jazeera), “Brazil Braces for nationwide strike demonstrations” (Deutsche Welle),  “Brazil hit by first general strike in two decades” (BBC), “Le Brésil paralysé par une grève générale contre l’austérité” (France 24h) e “Una huelga general desafía las reformas del gobierno brasileño” (El País), no Brasil,os grandes jornais se concentraram em abordar a (previsível) alteração nas rotinas das cidades, confusões isoladas entre manifestantes e a polícia, e a perspectiva do governo sobre a greve, com títulos como “Para Planalto, greve geral não terá impacto na reforma da Previdência” (O Globo), “Greve afeta transporte e comércio e termina com atos de vandalismo” (Estadão), “Greve é um fracasso na avaliação do governo, afirma ministro da Justiça” (Folha de S. Paulo). Nesta última, a reprodução de uma entrevista do ministro da Justiça Osmar Serraglio na CBN afirma que “as pessoas estão querendo ir trabalhar e estão sendo obstruídas”, que “a greve inexiste” e é “ação de sindicalistas”. A notícia limita-se a isso, sem trazer o outro lado (de que a greve é sobre perda de direitos), sem contextualizar a questão, sem problematizar a óbvia falta de percepção do ministro de que o país inteiro parou. Para usar a metáfora da ombudsman da Folha, Paula Cesarino Costa em sua coluna no dia 30 de abril, que dá título a este comentário: “em suma, os jornais se concentraram no impacto sobre as árvores e deixaram de abordar a situação da floresta”.

O cenário não melhora na cobertura local: no telejornal do meio dia em Ponta Grossa, cidade onde moro, a RPC (filiada da Rede Globo) decidiu mostrar os impactos da greve indo aos pontos de ônibus entrevistar pessoas atrasadas para o trabalho, uma vez que funcionários do transporte coletivo da cidade pararam (ainda que por apenas uma hora); falando sobre os transtornos no comércio e no trânsito; sobre os estudantes que estavam sem aula porque os professores das redes estadual e municipal pararam (mesmo com a Prefeitura ameaçando cortar quatro dias de salário de quem faltasse na sexta-feira). O repórter fez a passagem dentro do terminal central de ônibus, enfocando nas pessoas que não conseguiam chegar em seus locais de destino por conta da paralisação, e porque havia manifestantes do lado de fora impedindo a entrada dos ônibus. Mesmo estando a poucos metros dos manifestantes, nenhum foi ouvido. Nenhuma explicação mais aprofundada sobre os motivos da greve foi dada aos telespectadores que, por qualquer motivo, não puderam paralisar suas atividades.

Que mundo?

Ok, vocês devem estar pensando que, até aí, não há nada de novo ou surpreendente a respeito da cobertura da mídia tradicional quando o assunto é greve. O que alarma talvez seja a constatação de que, mesmo em tempos de abundância informativa, de cidadãos consumindo e produzindo informações por conta própria e de aumento considerável do número de iniciativas de jornalismo independente, ainda assim os grandes jornais brasileiros não parecem preocupados em entregar informação completa e de qualidade para as pessoas. A Folha de S. Paulo, por exemplo, que acaba de anunciar um projeto editorial no qual promete transparência, pluralidade, atitude desatrelada de governos, conglomerados econômicos e grupos de pressão, entre outras cláusulas pétreas do jornalismo, vira vidraça ao publicar notícias parciais sobre a greve, e de teor governista. Novo cenário, velhas práticas.

Agrava também o fato de que os profissionais jornalistas – estes que escolhem enfatizar os supostos prejuízos imediatos à normalidade ocasionados pela greve, em detrimento da ameaça aos direitos dos trabalhadores brasileiros que a ocasionou – são também trabalhadores. E, diga-se de passagem, têm sofrido de maneira intensa com a precarização das relações de trabalho em meio à crise, que não é apenas, mas é também, de modelos de negócio de empresas jornalísticas. Fica a pergunta: em que mundo vivem os jornais brasileiros (e alguns de seus jornalistas)? Parece ser um mundo em que os meios não possuem responsabilidade com o público, que as empresas jornalísticas estão em equilíbrio financeiro, e que não precisam fazer seu trabalho com ética e inventividade. Certamente, não é o nosso mundo.

Sabemos que constrangimentos organizacionais existem, e que o resultado de um trabalho jornalístico parcial muitas vezes tem a ver com represálias de editores e empresários, além das pressões do tempo e espaço que são parte da rotina produtiva (é claro, mesmo assim existem colegas que fazem um trabalho fantástico na mídia hegemônica, mas este texto não é a respeito deles). No entanto, é preciso ter clareza de que a ética jornalística é diferente da dos donos de mídia, e de pensamento crítico é fundamental – afinal de contas, é para isso que se estuda jornalismo.

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