Samuel Lima
Professor de Jornalismo e do POSJOR da UFSC e pesquisador do objETHOS e do Laboratório de Sociologia do Trabalho (LASTRO/UFSC)

Foi o lendário jornalista britânico, Sir Harold Evans, que indicou o caminho lá pelos idos dos anos 1950, como editor do pequeno diário The Northern Echo, no interior da Inglaterra. O “jornalismo de causas” de Evans obteria seu primeiro êxito meses após começar uma série de reportagens defendendo que o Estado inglês oferecesse o exame Papanicolau a todas as mulheres. Após longa batalha pública com o ministro de Saúde, o exame, que previne câncer de colo uterino, foi finalmente contemplado no sistema de saúde pública daquele país.

Entre os anos 1962 e 1972, já como editor do The Sunday Times, Evans comandou uma célebre investigação jornalística sobre os efeitos perversos da Talidomida, um remédio que provocou a mutilação de centenas de milhares de bebês, em todo o mundo. Aqui, podemos ver (o documentário está disponível no Netiflix – “Attacking the Devil: Harold Evans e o último crime de guerra nazista”) o jornalismo de causas em um de seus momentos de maior intensidade.

Recorro ao legado de Harold Evans para refletir sobre as causas sem jornalismo, do ponto de vista das empresas que configuram o monopólio da mídia no nosso país. Dois recentes episódios revelam essa ausência de “causas”, pensando o interesse público ou algo similar à defesa de temas relevantes à sociedade, como por exemplo a defesa da democracia.

Charlotesville: supremacistas brancos ou racistas?

A marcha da intolerância mudou verticalmente a rotina da cidade universitária de Charlottesville, no Estado americano de Virgínia, com pouco mais de 50 mil habitantes, naquela tarde de sábado, 12 de agosto de 2017. O evento batizado de “Unir a Direita” trouxe para as ruas a intolerância e a corrente de ódio racial subjacente à sociedade americana. A manifestação acabou em violência e três pessoas morreram.

O site da BBC Brasil não hesitou: “’Sou nazista, sim’: o protesto da extrema-direita dos EUA contra negros, imigrantes, gays e judeus” (veja imagem abaixo), era o título da edição daquele dia, em reportagem do jornalista Ricardo Senra, enviado especial. O texto não recorria a eufemismos.

Enquanto isso, na Folha de S. Paulo, o maior jornal diário do país, dava como título: “Três morrem em marcha de supremacistas brancos nos EUA” (veja imagem abaixo). O lide da reportagem da Folha dava o tom desse jornalismo sem causa: “Pelo menos três pessoas morreram neste sábado (12) em Charlottesville, uma cidade universitária de 47 mil habitantes no Estado da Virgínia que virou palco simultâneo da maior manifestação de supremacistas brancos do passado recente dos EUA e de um protesto antirracismo”.

A jornalista Paula Cesarino Costa (ombudsman da Folha) tratou do assunto em sua coluna de 20 de agosto intitulada Lá como cá, no rastro das palavras. Paula, em rápida pesquisa, deixa evidente o uso do termo “supremacistas brancos” pelo jornal, ao longo das décadas e acrescenta: “Entre 2014 e 2015, a palavra ‘supremacistas’ é citada mais vezes do que havia sido nos 60 anos anteriores. Chega à capa do jornal em 13 de novembro de 2016, nas explicações para a vitória de Donald Trump: ‘Supremacistas brancos celebram eleição e esperam ter influência’. Desde então o termo se espalhou na Folha, ultrapassando 30 menções em menos de um ano”.

Foi somente a partir de uma crítica mais contundente, assinada pelo decano Janio de Freitas (ed. 17/08/2017, leia aqui) que o jornal passou a usar a palavra “racismo” para definir as manifestações de intolerância e ódio, nos EUA. Escreveu Janio: “Não há razão para acobertar o racismo, prática e nome, com um subterfúgio que só presta serviço aos racistas, de repente maquiados pela dubiedade de supremacistas. Se supremacismo retrata ódios brancos aos negros, alguém seria capaz de dizer que Hitler e o nazismo eram apenas supremacistas por seu ódio aos judeus?” (Fonte cit.). E arrebatou: “Supremacismo, além do mais, é palavra antijornalística – pela imprecisão, quando a precisão é possível; pela utilidade deformadora; e por sua hipocrisia”. Paula apoiou a crítica de Freitas.

A ameaça de golpe do general Mourão

Outro episódio que revela a falta de causas ao jornalismo representado pelos três maiores jornais impressos do país tem a ver com a defesa explícita do golpe militar, feita pelo general Antonio Hamilton Martins Mourão, secretário de Economia e Finanças do Exército, em palestra realizada na Loja Maçônica Grande Oriente, em Brasília, no último dia 15 de setembro.

Indagado sobre a possibilidade de intervenção militar no país, Mourão declarou: “Ou as instituições solucionam o problema político, pela ação do Judiciário, retirando da vida pública esses elementos envolvidos em todos os ilícitos, ou então nós [Exército] teremos que impor isso”. Trocando em miúdos, o general evoca o velho discurso golpista como remédio contra a corrupção.

Acessei e observei todas as capas da Folha de S. Paulo, Estadão e O Globo, entre os dias 16 a 24 de setembro de 2017. Não há nenhuma manchete ou chamada de capa em defesa da democracia. Talvez para quem apoiou o golpe que levou ao impeachment da ex-presidenta Dilma Rousseff isso pareça “natural”. Mourão é figurinha carimbada em matéria de golpe: o general fora defenestrado por Dilma, em 2015, do Comando Militar do Sul (CMS) após fazer homenagem póstuma ao coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, responsável pelo DOI-CODI entre 1970 e 1974 e reconhecido pela Justiça brasileira como torturador. Ustra torturou pessoalmente a ex-presidenta Dilma; o crime de tortura é lesa-humanidade, inafiançável.

Na Folha, o assunto apareceu finalmente num editorial publicado uma semana depois, na edição de sábado, 23 de setembro (de menor circulação social e tiragem), sem nenhuma chamada ou menção de capa. O título já indica o quão o diário dos Frias iria minimizar o grave episódio contra a democracia: “Desatino militar”. E o editorialista da Folha entrega o jogo nas primeiras linhas: “Fosse o Brasil uma democracia mais antiga, o comentário do general Antonio Hamilton Mourão sobre uma possível intervenção militar para resolver a crise política seria reduzido ao que é: um desatino de quem aprendeu a enxergar o mundo pelas lentes da caserna”.

O general Amilton Mourão em seu labirinto. Crédito da foto: Diego Vara-Agência RBS-Folhapress

Ao invés da punição por quebra de hierarquia e crime previsto na Constituição Federal (Art. 5º, Inciso XLIV: “constitui crime inafiançável e imprescritível a ação de grupos armados, civis ou militares, contra a ordem constitucional e o Estado Democrático”), o jornal embarcou na tese de que o Exército não poderia “forjar um mártir” e optou por resolver a crise pelo “caminho diplomático”: conversas internas (sic?) e uma nota pública, na qual o comandante do Exército, Eduardo Villas Bôas reiterou seu compromisso com a consolidação da democracia e afirmou que somente ele (Villas Bôas) fala em nome da instituição. A repercussão pública do episódio é totalmente negligenciada pela Folha que vaticina: “O episódio terminou como começou: sem maior importância”. Convém recordar sempre: a Folha já tentou reescrever a história chamando de “ditabranda” os 25 anos de arbítrio no país.

N’O Estadão, o golpe proposto por Mourão resultou apenas numa chamada de Capa, na edição do dia 22 de setembro, 6 dias após a palestra do general. Na reportagem (“Jungmann decide não punir general Mourão”, p. 9), a jornalista Tânia Monteiro relata que o ministro da Defesa, Raul Jungmann decidira não punir o general golpista.

Nas páginas de O Globo, o assunto só ganharia destaque na coluna de Miriam Leitão, cuja chamada de Capa na edição de 21 de setembro anunciava: “Podemos intervir – Exército reforça ao país com fala de dois generais do Alto Comando”. Na cabeça do texto, Miriam escreve (sob o título “A questão militar”): “O Exército fez a mais explícita ameaça ao país em 32 anos de democracia através do episódio do general Antonio Amilton Mourão. O general Mourão falou em intervenção militar. Seu chefe, o comandante do Exército general Eduardo Villas Bôas, não só não o puniu, como o elogiou e, por fim, seguiu seu comando afirmando que a Constituição dá as Forças Armadas o mandato para intervir”.

“Rabo preso com o leitor” (Folha) ou “Compromisso com o leitor” (Estadão) ou ainda um princípio editorial como o do Grupo Globo, que jura defender “intransigentemente o respeito a valores sem os quais uma sociedade não pode se desenvolver plenamente: a democracia, as liberdades individuais etc. etc.”, são apenas slogans vazios, peças de marketing. Diante da ameaça de novo golpe militar, sem meias palavras, nenhum dos três “baluartes da democracia” se dignou a publicar uma mísera manchete em defesa do que ainda restou da democracia liberal no país.

O golpe dentro do golpe naturalizou o discurso de um jornalismo sem causas, desconectado do interesse público em seus temas mais caros, civilizatórios. Ensimesmado e à procura de uma saída para sua crise de modelo de negócios, os veículos da mídia tradicional agonizam em praça pública, defendendo envergonhadamente um governo pusilânime e golpista que eles apoiaram, decisivamente.

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