Rogério Christofoletti
Professor de Jornalismo na UFSC e pesquisador do objETHOS

Um calafrio percorreu a espinha de muita gente quando os resultados das eleições presidenciais foram anunciados em novembro de 2016 nos Estados Unidos. O improvável havia acontecido, e o tubarão capitalista que já havia sido estrela de reality show se tornou o ocupante do cargo mais poderoso do mundo. Especialistas em marketing político, estatísticos, jornalistas e políticos tentaram justificar o fenômeno que emergiu das urnas e que ainda provoca ondas de choque para além das fronteiras daquele país.

Uma explicação está apoiada no que se convencionou chamar de pós-verdade, uma atmosfera que simplesmente descarta os elementos que antes embasavam as verdades que reconhecíamos. Nesse ambiente, fatos e provas não fariam mais tanta diferença, já que nossos sistemas pessoais de crença seriam suficientes para explicar o mundo e a vida. Um exemplo: os dados podem até nos mostrar que persiste a desigualdade entre brancos e negros no mercado de trabalho, mas nossas convicções de que o país é uma democracia racial faz com que achemos que está tudo muito bem, obrigado. Impressões se sobrepõem a fatos científicos e explicações mais objetivas, e a verdade deixa de ser o que era antes, passa a ser “pós”. É o império do achismo!

Ingredientes perversos

Essa tal de pós-verdade é resultado da combinação de fatores bem perversos, entre eles avalanches de notícias falsas e o funcionamento de bolhas sociais. Mentiras e boatos não são uma invenção do momento, e nos perseguem desde sempre. Mas nunca eles foram espalhados com tanto profissionalismo, por tanta gente e com tal dificuldade de discernimento. As notícias falsas de hoje não só parecem notícias, como são produzidas por empresas que têm redações similares às jornalísticas, e contam com uma estrutura de distribuição jamais vista: bilhões de pessoas comuns, usuárias da internet, podem ajudar a espalhar conteúdos com um clique. Basta apertar o botão de compartilhar nas redes sociais.

Aliás, essas mesmas redes surgiram com a promessa de nos conectar ao resto do mundo. Poderíamos reencontrar parentes do passado, encurtar distâncias continentais e até mesmo ser amigos de nossos ídolos! Uma década se passou do seu surgimento e percebemos que as plataformas que sustentam as redes sociais facilitam a formação de aglomerados sociais, grupos restritos de pessoas e não “todo o mundo”. Na linha do tempo do Facebook não aparecem postagens dos seus 1.234 amigos e por lá só desfilam algumas dezenas de selecionados. O sistema que faz a triagem, organiza a distribuição dos conteúdos e os publica – chamado de newsfeed – segue algumas regras para escolher uma postagem ou amigo em detrimento de outros. São priorizados, por exemplo, aqueles que curtimos, aqueles com quem trocamos mensagens ou comentários. Isso faz com que fiquemos encapsulados em bolhas sociais. Sim, porque o algoritmo trabalha para fortalecer os laços da rede social, daí porque enfatize o que curtimos (se curtimos é porque gostamos ou aquilo nos faz bem!) e aumente a proximidade com os conteúdos a que somos afins. A bolha social passa a funcionar quando só recebemos postagens daqueles em quem mais confiamos e quando só recebemos conteúdos que caem no nosso gosto. A rigor, a rede social não quer nos desagradar, ela quer propiciar um ambiente cercado de conforto, segurança e aconchego. Se ficarmos desagradados, é muito possível que não voltaremos à plataforma, e aí, comprometemos sua sustentabilidade financeira.

Então, o efeito das redes sociais é de conformação. O usuário fica gentilmente abrigado num ambiente onde a confrontação de ideias é evitada e onde circulam conteúdos que reforçam o que ele já pensa ou sente. Alguém poderá dizer: mas é assim mesmo que uma rede social deve ser e funcionar. Sim, é aceitável, mas há um problema: há cada vez mais pessoas deixando de se informar por meios convencionais de comunicação e se inteirando do mundo nas redes sociais, que não contam com os mesmos filtros de verificação e equilíbrio que os veículos jornalísticos. A falta de diversidade de vozes, fontes e versões é um perigo social, que nos desconecta da realidade fragmentada, confusa e contraditória que nos cerca e nos constitui. As paredes da bolha criam uma falsa sensação de segurança.

Jornalismo e democracia

A pós-verdade é resultado de dois fatores fundamentalmente: as notícias falsas e as bolhas sociais. Desinformação e falta de pluralidade/diversidade atuam combinadas provocando distorções em nossa compreensão da vida e do mundo. Isso afeta o jornalismo e a própria democracia.

O jornalismo é uma atividade que se justifica socialmente porque atende a certas expectativas dos cidadãos. As pessoas esperam que jornalistas narrem os acontecimentos importantes, que registrem a história acontecendo, que ajudem a entender os fatos, que fiscalizem os poderes e que contribuam para o debate público. São funções historicamente delegadas pela sociedade, e quando não atendidas, frustram as pessoas. Por diversas razões, o jornalismo vive uma ampla crise que mina a confiança depositada pela sociedade e que coloca em risco também sua sobrevivência. As notícias falsas tornam mais aguda a crise, mas também se revelam uma boa oportunidade para fazer com que os profissionais da área e as organizações de notícia se distanciem dos propagadores de boatos e de outros mal-intencionados.

A democracia, por sua vez, sofre com a pós-verdade porque ela desarticula uma importante engrenagem social. Modernamente, entendemos democracia como um regime baseado na eleição de representantes políticos por eleitores bem informados. Quanto mais dados o cidadão tiver dos candidatos em disputa, mais as chances de que sua escolha seja menos instintiva e emocional, e mais pragmática e racional. Esse processo não elimina o erro ou o arrependimento posterior, mas reveste o processo eletivo de consciência, envolvimento e engajamento, condições que legitimam o ato de escolha. O jornalismo pode contribuir com a democracia à medida que fornece serviços informativos de qualidade. Mas se o cidadão não tiver informação ou se os dados que detiver forem incorretos, distorcidos ou incompletos, as chances de acerto eleitoral ficam mais reduzidas. Não foi à toa que o sinal amarelo se acendeu após a eleição de Donald Trump. O site BuzzFeed fez um levantamento no período da campanha eleitoral – de agosto a novembro de 2016 – e identificou que as pessoas compartilharam mais notícias falsas que verdadeiras nas redes sociais nos Estados Unidos. Analistas avaliam que essa disparidade pode ter ajudado a confundir parte do eleitorado, estimulado alguns contigentes a votar e dissuadido outros, interferindo decisivamente no placar das urnas.

Em casos como este a desinformação pode afetar não apenas as condições de escolha, mas os próprios fatores de manutenção do sistema, como isonomia de participação dos grupos políticos, garantia de ocorrência de eleições regulares, e a possibilidade de alternância de poder. Usinas de notícias falsas e algoritmos com distribuição de informação viciada podem determinar os novos eleitos! Isso afeta o coração da fera porque coloca em xeque a credibilidade do sistema político, a confiança que depositamos na criatura que alimentamos até então.

O que há no horizonte?

O século 21 avança na sua segunda década com desafios gigantescos para a sociedade. Pós-verdade, notícias falsas e bolhas sociais tornam mais urgente o enfrentamento dos problemas que afetam o sistema informativo e político.

Projetos dedicados à checagem de dados (fact-checking) têm sido incentivados por empresas de tecnologia, setores acadêmicos e outros setores preocupados com os rumos do jornalismo. Têm também se mostrado um filão emergente de mercado e têm contagiado alguns veículos a criar equipes especializadas nesse serviço. É uma frente de combate aos perigos da desinformação e da confusão política, mas não a única. A meu ver, é necessário atacar outras três ameaças: a concentração de mercados, a opacidade e a corrosão de certos direitos humanos.

É imprescindível que as sociedades em geral e a brasileira em particular discutam a estrutura dos meios de comunicação, como eles se organizam e como funcionam. O que se vê é que esses setores são muitíssimos concentrados e poucos grupos controlam a maior parte da informação produzida e distribuída. O oligopólio atinge em cheio as noções de pluralidade e diversidade. A informação tende a ser pasteurizada, sem nuances ou versões destoantes. Isso incide no volume e na qualidade do noticiário. Oligopólios são formados por grupos empresariais muito poderosos que costumam esmagar os empreendedores menores, o que restringe a competitividade e a inovação. Trocando em miúdos: mercados muito concentrados não são bons nem para a cidadania nem para a livre iniciativa.

Nas últimas décadas, tem havido maior pressão social por mais transparência nos poderes públicos e também na iniciativa privada. Governos, partidos, tribunais, parlamentos e corporações ainda se escondem do olho público e não são devidamente escrutinados. Essa névoa aumenta o poder e distancia os cidadãos de muitos processos que lhe afetam. Por isso é preciso combater a opacidade com mais transparência, com a abertura de dados ao público, com a implementação de políticas que tornem essas instâncias mais visíveis e controláveis. Isso inclui o próprio jornalismo, que pode render mais contas às suas audiências e tornar mais compreensíveis os seus procedimentos.

Por fim, é fundamental que as sociedades insistam na manutenção e no fortalecimento dos direitos humanos, principalmente o direito de acesso à informação, a liberdade de informar e a privacidade pessoal. Num ambiente tão atravessado por informações, tão hiperconectado e cada vez mais invasivo nas esferas íntimas, é cada vez mais importante reforçar os sentidos que realçam o valor da pessoa ser única e singular, especial e equânime em direitos e oportunidades.

Os antídotos contra o oligopólio e a opacidade são democratizar e tornar a mídia mais transparente. Os remédios contra a corrosão dos direitos estão na reafirmação do humano. Os desafios são colossais, é verdade, mas pensando bem, as famigeradas notícias falsas podem não ser tão ruins quanto esperávamos. Podem ser uma oportunidade de ouro para que o jornalismo retome seu caminho mais seguro e para que o sistema político se reabilite em sua credibilidade. Espalhe essa ideia. Sem medo.

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