Sylvia Debossan Moretzsohn
Professora de jornalismo aposentada da UFF, pesquisadora do ObjETHOS

“Lula deve morrer”. Porque “continua sendo capaz de liderar pesquisas e inspirar militantes Brasil afora”. Por isso, “pelo bem do país”, “Lula precisa morrer”.

Escrita em 10 de novembro do ano passado, a coluna de Mario Vitor Rodrigues começava dessa forma e, como era previsível e pretendido, provocou polêmica. O autor, é claro, se justificaria dizendo que falava em sentido metafórico, referia-se à morte política, à morte simbólica do mito, tão nefasto para as pretensões republicanas da nossa “democracia”.

Quatro meses e meio depois, apesar de condenado pela Lava Jato, Lula continua a liderar as pesquisas e a inspirar militantes. Então, na noite desta terça-feira, 27 de março, os tiros que atingiram sua caravana pelo Sul do país traduziram a metáfora ao pé da letra.

Foi a mais grave de todas as agressões que a caravana sofreu desde seu início, dia 19, em Bagé: tratores mobilizados para bloquear estradas, ruralistas atacando manifestantes com ovos, pedras e até chicotadas, furando os pneus dos ônibus com “miguelitos” – aquelas armadilhas feitas com pregos retorcidos. As ações mereceram o aplauso da senadora Ana Amélia (PP-RS): mostrar o relho não seria um ato violento, seria apenas expressão do velho “orgulho gaúcho”, daquele povo valente cujas façanhas devem servir de modelo a toda a Terra.

Então vieram os tiros e a escalada fascista mudou de patamar, como escreveu a jornalista Eleonora de Lucena, que estava num dos ônibus atingidos.

“Acho que eles estão colhendo o que plantaram”, disse o governador de São Paulo e candidato à presidência pelo PSDB, Geraldo Alckmin, esse “Bolsonaro com a tecla mute”, como observou o jornalista Gabriel Priolli, pois, embora com cara de santo, sempre enfrentou a questão social a bala – “de borracha ou não”. Alckmin depois remendaria o soneto e diria, retomando seu catecismo, que “toda forma de violência tem que ser condenada” – essa platitude tão enganosa, mas tão ao sabor do senso comum, que mascara a violência estrutural da nossa tradição escravocrata e inibe as ações de quem luta contra ela.

O governador, entretanto, teria perfeita razão caso se referisse à mídia. A série de imagens e as referências reunidas pelo jornalista Hugo Souza, na montagem que ilustra a abertura deste artigo, deixam claro que, de fato, a colheita de agora corresponde precisamente ao que esta mídia plantou, regularmente, desde a incitação às manifestações pelo impeachment de Dilma Rousseff, quando o discurso do ódio transbordou. É de 15 de março de 2015, data de um grade protesto nacional pela deposição da presidente, a imagem dos bonecos de Lula e Dilma enforcados, pendendo de um viaduto em Jundiaí. Na mesma cidade também ocorreria um atentado a bomba contra a sede do PT.

2015 lula e dilma enforcados jundiaí 15 março.jpg
(reprodução: Carta Capital/Facebook)

Recordemos então a capa da Veja de 16 de setembro de 2016, com a cabeça de Lula sobre fundo vermelho, como se sangrasse: a revista falava no “derretimento” da imagem pública do ex-presidente, mas a primeira impressão era a de uma decapitação. Precisamente o mesmo recurso que a Newsweek usou em 2011 para tratar da queda de Khadafi. Detalhe: a revista foi publicada depois do assassinato do líder líbio.

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Ameaças x tiros

Quando, em outubro de 2010, durante a campanha eleitoral para a presidência, José Serra foi atingido por uma bolinha de papel na cabeça, a imprensa em peso fez imediatamente um escândalo, que rendeu dias seguidos e foi alimentado pelo próprio candidato, que chegou a se submeter a uma tomografia. Agora, diante do ataque a tiros à caravana do PT, reagiu discretamente. Os sites dos principais jornais destacavam a ameaça à família do ministro do STF Edson Fachin e a vitória brasileira no amistoso contra a Alemanha. O Jornal Nacional daquela noite dedicou sua primeira meia hora a vários outros temas até tratar da denúncia de Fachin, para finalmente mencionar o atentado a Lula e, claro, encerrar com o futebol. No dia seguinte, o site G1 chamava para a edição do JN com uma imagem que também destacava a ameaça à família do ministro. O atentado à caravana ficou em terceiro plano.

2018 JN G1 home facchin lula.jpg

Sobre a edição do JN, o jornalista e professor Geraldo Mainenti, que trabalhou muitos anos na Globo, observou em seu Facebook o detalhe: logo após apresentar a denúncia de Fachin, o texto, “sem eira nem beira”, a vinculava à posição do ministro na última sessão do STF, quando ele votou contra a concessão do habeas corpus preventivo a Lula, “sem informar, no entanto, que outros quatro ministros também votaram dessa forma e não sofreram ameaça alguma”. Seguiram-se mais cinco minutos de reportagem – no total, foram seis –, com discurso dramatizado e relato das providências para garantir a integridade do ministro e de sua família. “A notícia de que a caravana de Lula foi alvo de tiros ficou para o bloco seguinte, para separar os assuntos”, assinala o jornalista. Foram apenas dois minutos, que terminaram com a entrevista ao ministro da Segurança Pública, Raul Jungmann, com sua promessa de apurar as responsabilidades pelo “confronto”. Mainenti ressaltou o que deveria ser evidente: “Não houve confronto: um atirou e outro foi alvo”.

(Lembremos que, da mesma forma, os agressores de agora são chamados de “manifestantes”, enquanto os que depredavam ônibus e vidraças nos protestos de 2013 eram “vândalos”).

Criando corvos

As imagens que Hugo Souza selecionou são exemplares do que nossa imprensa semeou e fez frutificar – quem não se lembra da musa do impeachment, Janaína Paschoal, agitando a bandeira brasileira nas arcadas da Faculdade de Direito da USP, a bradar, como que possuída: “quando a cobra cria asas, Deus manda uma legião para cortar as asas da cobra”?

A cobra era Lula, a “jararaca”.

Ao tratar do atentado, a maioria dos comentaristas, nos vários veículos da mídia hegemônica, apelou à velha manobra discursiva que inverte responsabilidades: assim, afetavam preocupação com o que consideraram “uma atitude antidemocrática inaceitável” mas lembravam que o PT também havia ameaçado apelar à violência e que o MST também fechava estradas – como se as ameaças não fossem tantas vezes apenas bravatas e como se fosse possível confundir a luta pela reforma agrária com uma ação que impede uma manifestação política. Desse modo, por mais que condenassem o ocorrido, acabavam corroborando o discurso de que Lula estava colhendo o que havia plantado.

Se pusermos esse atentado em perspectiva, veremos que ele expressa uma violência histórica. A mesma que assassinou a vereadora Marielle Franco no Rio de Janeiro – um crime do qual, após duas semanas, ainda não há suspeitos. A mesma que vitimou 24 líderes comunitários e ativistas nos últimos quatro anos, como expôs o site Opera Mundi: casos que, na maioria, pouca ou nenhuma repercussão tiveram, fora das redes de militância.

Autor de uma excelente monografia sobre a mistificação em torno do sentido ético da profissão de jornalista – “Do sacerdócio ao Santo Ofício” –, Hugo Souza observa que a grande imprensa, desde os preâmbulos que resultaram no golpe de 2016, levou sua ação ao limite do medievalismo, “açulando a turba a ela própria chutar o banquinho do cadafalso”. Para depois, candidamente, lavar as mãos e horrorizar-se com o resultado. Como se pudesse ignorar que está colhendo o que plantou.

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