Carol Gómez e Victor Lacombe
Estudantes de jornalismo na UFSC, especial para objETHOS

No dia 11 de abril, os trabalhadores da Prefeitura Municipal de Florianópolis entraram em greve por tempo indeterminado, em razão da tramitação do Projeto de Lei 17.484/2018, que prevê a implantação de Organizações Sociais no controle de serviços públicos na capital. A proposta foi aprovada no dia 21 de abril, sábado e feriado de Tiradentes, em uma sessão que envolveu escolta policial, spray de pimenta e bombas de efeito moral.

Antes mesmo de a greve ser iniciada, a Prefeitura estampou nas páginas dos jornais do Grupo NSC uma campanha publicitária que indicava a terceirização dos serviços como a única maneira de abrir dez novas creches e uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA) na região continental da cidade. O Ministério Público de Santa Catarina (MPSC), inclusive, requereu à justiça, em ação civil pública, que seja determinado que a Prefeitura de Florianópolis providencie a continuação do atendimento, com contratações temporárias se necessário, reforçando o “dever do município de garantir acesso à educação”.

Ao completar um mês, a greve continua sendo abordada, de forma enviesada, pelos principais portais de notícias de Florianópolis. No dia 1º de maio, o jornal Hora de Santa Catarina, veículo do grupo NSC para a região da Grande Florianópolis, publicou a matéria “Folha de pagamento dos servidores de Florianópolis em greve virá com desconto dos dias parados”. Logo abaixo do título, a foto de uma família com semblante sério chama a atenção do leitor que, caso não se atente à legenda, pode imaginar que é a família de algum servidor em greve que será afetado pela falta de pagamento.

Nos dois primeiros parágrafos (nove linhas e meia), o jornalista Marcus Bruno fala sobre a decisão do gabinete do prefeito Gean Loureiro de cortar os pontos dos servidores que aderiram à greve e, consequentemente, descontar as horas da folha de pagamento. Logo em seguida explica que a Prefeitura apresentará uma proposta à pauta de reivindicações dos grevistas e expõe quais as reivindicações do Sindicato dos Trabalhadores no Serviço Público Municipal de Florianópolis (Sintrasem).

Só então, após o intertítulo “Família muda rotina por causa da greve”, é que aparecem os personagens da foto de abertura. A fim de ilustrar como a paralisação está prejudicando a população, Bruno escolheu uma família que precisa mudar sua rotina porque não tem como deixar a filha na creche e, por essa razão, estaria inclusive cogitando pagar uma escola privada.

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Portais de notícias de Florianópolis constroem uma narrativa que deslegitima a greve dos servidores.

Essa fala, apresentada como uma opinião da fonte, reforça a teoria defendida pela Prefeitura e encampada pelos principais meios de comunicação da cidade de que a administração pública é inevitavelmente falha e ineficiente, e o setor privado oferece a saída.

Na mesma fala, a fonte escolhida pelo jornalista entra em contradição ao afirmar que a creche “é o único serviço público que a gente usufrui” e se identificar como doutoranda da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), instituição pública. Mesmo que imaginemos que ela se referiu apenas à esfera municipal, não é difícil de supor que sua filha tenha sido vacinada pelo SUS em um posto de saúde do município. Esse erro, que o jornalista deixa passar sem contestação, contribui para a ideia de deslegitimação do que é público que permeia o texto.

Ao construir a narrativa dessa forma e utilizando esses exemplos, Bruno produz uma notícia que não debate as razões pelas quais os trabalhadores estão em greve, não questiona qual é o papel do município na reposição dos serviços e dá margem para comentários de ódio como os encontrados no post da matéria no Facebook.

Essa notícia não é a única que segue a lógica de culpar a greve por transtornos no serviço público e apagar sua legitimidade. A matéria do G1 “Servidores em greve de Florianópolis fazem novo protesto contra lei das organizações sociais”, publicada na quinta-feira, dia 3, é outro exemplo. O texto dedica três parágrafos para o protesto e para a contextualização da greve, sem se demorar nas reivindicações dos grevistas, e já parte para o intertítulo “Pais preocupados”, ressaltando novamente as crianças que ficam sem aula e os pais que não tem com quem deixá-las. Em nenhum momento o projeto de lei em si é analisado: a mídia de Florianópolis parece concordar com o prefeito, que declarou as OSs “assunto vencido”. As outras reivindicações dos servidores, de reajuste salarial e novos concursos, sequer são mencionadas, muito menos o fato de que a greve não é ilegal.

Com essa ênfase constante nos transtornos que o movimento causa na população dependente do serviço público, seria de se esperar uma análise, ou mesmo menção, no que muda com a aprovação da lei na vida dessa mesma população. Ao invés disso, as matérias se limitam a escolher fontes que atuam como supostas porta-vozes do povo para ilustrar um descontentamento com o movimento dos servidores que, na verdade, vem das próprias empresas de comunicação e da Prefeitura.

Isso tudo acontece em conjunto com os gastos consideráveis do município com anúncios defendendo as OSs e atacando o sindicato, veiculados nesses mesmos meios de comunicação. Com as empresas de comunicação defendendo a posição da Prefeitura no seu jornalismo e na publicidade que são pagas para exibir, é difícil falar em cobertura equilibrada ignorar a intenção clara que a mídia tem de deslegitimar a greve e colocar a população, esse termo sempre vago, contra o movimento legítimo dos trabalhadores.

* Este artigo foi produzido na disciplina Crítica do Jornalismo, que motiva os estudantes a desenvolverem capacidades de leitura crítica sobre os veículos jornalísticos locais.

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