Rogério Christofoletti
Professor da UFSC e pesquisador do objETHOS

Repórteres e editores têm motivos de sobra para acreditar num futuro sombrio para o jornalismo brasileiro. Os resultados das eleições de ontem não apenas levaram um candidato autoritário à presidência da República como também concederam poder único a um político que abomina a crítica, não suporta diálogo e desrespeita jornalistas. O homem que vestirá a faixa presidencial em 1º de janeiro de 2019 tem uma carreira parlamentar pífia, movida a frases machistas, racistas e homofóbicas, e que não tolera se expor ao julgamento público. De fácil destempero, é também conhecido por seus elogios à tortura e à ditadura militar, credenciais que destoam completamente da investidura do cargo que vai ocupar naquela que foi conhecida como a maior democracia do hemisfério sul.

Esse comportamento avesso ao cerco da mídia não é de hoje, e a campanha eleitoral só acentuou essa marca. O candidato de ultra-direita evitou ser questionado o quanto pôde, blindou-se das perguntas indigestas e refugiou-se em casa e no hospital, recebendo apenas entrevistadores amáveis de emissoras que julgou confiáveis.

Nos quase dois meses de corrida presidencial, foi a apenas dois debates na TV, e mesmo depois de recuperado do atentado que sofreu, faltou aos demais. Com isso, levou seis emissoras diferentes a cancelar programas na reta final da campanha, privando os eleitores de assistirem a um confronto sequer com seu principal concorrente. Aliás, os médicos já tinham liberado o candidato para os debates e 73% dos brasileiros queriam vê-lo nessa situação, mas ele preferiu distribuir tweets e fazer transmissões ao vivo pelas redes sociais. Qualquer semelhança com outro político controverso e que repudia a grande mídia não é mera coincidência.

Alertas internacionais

Um punhado de ironias cercam a eleição presidencial de 2018. A primeira delas é que os brasileiros recorreram aos próprios meios democráticos para restaurar o militarismo e o autoritarismo na política. A chapa eleita é composta por um ex-capitão e um general reformado do Exército, ambos nostálgicos da ditadura militar (1964-1985). Dezenas de milhões de votos legitimam, então, as ações de uma plataforma eleitoral, que desdenha dos direitos humanos, que zomba de minorias e que talvez não hesite em perseguir grupos marginalizados. Aliás, a violência já foi registrada na primeira etapa da campanha e foi possível colecionar as ofensas contra camadas da sociedade que ajudaram a elegê-lo. Outra ironia: a votação do segundo turno se deu três dias depois de se completarem 43 anos do brutal assassinato do jornalista Vladimir Herzog nos porões da ditadura militar. Para quem ainda acredita na democracia é um pesadelo: parece que a sociedade brasileira sofreu um ataque de amnésia coletiva.

Ironias à parte, não faltaram avisos de que o líder das pesquisas representava um risco ao país. The New York Times, The Guardian, El País entre outros meios internacionais escreveram editoriais, dedicaram capas e ofereceram reportagens críticas. Em terras brasileiras, The Intercept, El País, BBC Brasil, Agência Pública e veículos alternativos alertaram o eleitorado da inconsistência do plano de governo, da inexperiência administrativa do candidato, e de sua instabilidade emocional. Parcelas influentes da grande mídia foram condescendentes com suas posturas discriminatórias, e normalizaram o ódio, insistindo numa imparcialidade artificial e insustentável. Alguns jornalistas foram mais incisivos ao afirmar que se tratava de um projeto fascista  e que o candidato à presidência não estava sozinho: seus aliados eleitos para o parlamento têm como bandeiras a prisão perpétua, a criminalização dos movimentos sociais e a caça aos comunistas (!). Poucos grandes meios romperam o cerco e fizeram um jornalismo digno do nome. A poucos dias da votação final, a Folha de S. Paulo trouxe a melhor reportagem do período, revelando que empresas ajudavam o candidato da ultra-direita, impulsionando notícias falsas contra seu rival no WhatsApp. A prática é ilegal, e o Tribunal Superior Eleitoral não freou a candidatura beneficiada com o esquema. O furo de reportagem foi um ponto positivo, mas a própria ombudsman da Folha criticou o manual de redação do jornal por não tachar o candidato de extrema-direita.

Vai piorar

O Brasil e os brasileiros poderiam ter aprendido com o que vem acontecendo nos Estados Unidos desde a campanha que elegeu Donald Trump. Os resultados dessas eleições mostram que ignoramos os sinais, e que antes mesmo de ser eleito, o candidato extremista já agia como Trump. Diante da revelação da Folha de S. Paulo, acusou o jornal de espalhar notícias falsas. Enquanto isso, seus seguidores covardemente perseguiam a repórter que descobriu o caso. A Folha de S.Paulo pediu que a Polícia Federal investigasse essa e outras ameaças. Fustigar jornalistas parece ser uma tradição familiar, já que um dos filhos do candidato foi denunciado em abril por ameaçar outra repórter.

Já foi demonstrado que a agressividade naturalizada da campanha aumentou a violência online, e não temos razões para esperar que isso recue. O jornalista Leonardo Sakamoto teme, inclusive, que surjam nos próximos meses milícias de ódio para punir e tentar calar. É muito possível que a internet funcione no Brasil como uma arena de perseguição da liberdade de expressão e do pensamento. O futuro morador do Palácio da Alvorada é um especialista no assunto. De acordo com The Intercept, ele é autor de 23 ações para tentar barrar notícias negativas e posts críticos na rede só em 2018. “Isso faz dele o político que mais acionou o Judiciário este ano para silenciar opositores”, informa o repórter Eduardo Goulart de Andrade.

O que mais podemos esperar? Se o modelo é Trump, o novo presidente do Brasil vai dispensar entrevistas coletivas e descredenciar jornalistas críticos para que não possam cobrir seus passos em Brasília. Vai adotar o Twitter e o WhatsApp para se comunicar com seus eleitores, ignorando os canais institucionais e da grande mídia, sequestrando a comunicação com a população. Cada vez mais, vai apontar o dedo acusador para meios críticos, rotulando-os de “fake news”, e liberando suas falanges de ódio para novos acossamentos digitais e físicos.

Ser jornalista no Brasil vai se tornar uma tarefa muito desgastante e perigosa. Se o país já vinha assistindo ao aumento da violência contra repórteres nos últimos anos, não temos qualquer garantia de que crimes contra comunicadores serão investigados e punidos. Levantamento da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) mostrou que aconteceram mais de 140 ataques contra profissionais neste ano. Pior: a violência aumenta, a impunidade se mantém e diminuem as chances de frear essa escalada. A bancada governista recém-eleita não deve ter nenhuma boa vontade para aprovar projetos de lei que aumentem a proteção dos jornalistas.

Com a naturalização dos ataques à mídia, fazer coberturas de manifestações públicas vai se tornar muito arriscado fisicamente. E o risco de censura interna nos meios tende a aumentar. Recentemente, repórteres se queixaram de se sentir amordaçados e houve até comentarista demitido por críticas feitas ao candidato de sua emissora de rádio. Se parte da mídia continuar aderente ao novo governo, o mais provável é que haja um isolamento internacional, e esse apoio político pode não assegurar mais verbas de publicidade governamental.

Ao disseminar notícias falsas por canais alternativos de comunicação, ao perseguir a mídia e ao incitar a população contra os jornalistas, o próximo presidente da república nega ao eleitor o direito de acesso à informação.

O panorama é pessimista e ele não contém apenas preocupações corporativas. Sim, o governo recém-eleito no Brasil vai trazer mais riscos físicos, morais e políticos aos jornalistas. Mas com isso, a democracia e a cidadania também serão afetadas. Sem um governo transparente, que esteja ao alcance da mídia e do julgamento público, os eleitores brasileiros estarão alienados de como se dão as grandes decisões nacionais e nem poderão participar delas. Sem um governo que se exponha à crítica e à fiscalização, o povo estará cada vez mais privado de sua autonomia e soberania. Regimes democráticos exigem visibilidade, limitações de poder e obediência à vontade popular. As sociedades se acostumaram a delegar ao jornalismo as funções públicas de monitoramento dos poderes e revelação de suas entranhas.

O resultado das eleições presidenciais de 2018 aumenta riscos para os jornalistas, para a democracia e a sociedade. É grave, é urgente e já está acontecendo.

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