João Somma Neto
Professor do Curso de Jornalismo da UFPR e pesquisador associado do objETHOS

Ainda em meio à ressaca da campanha eleitoral cujas características e resultados do pleito mais se distanciaram das expectativas gerais em muitos aspectos, parece que nos deparamos com uma constatação a princípio pelo menos preocupante. Trata-se da evidente perda de credibilidade dos grandes conglomerados jornalísticos nacionais.

Tornou-se comum acreditar no poder do Jornalismo em obter determinados efeitos junto ao público que recebe os produtos e informações gerados a partir dessa atividade profissional. Há décadas inclusive se instituíram na academia estudos para detectar e compreender o impacto dos conteúdos jornalísticos na população, e ainda hoje existem linhas teóricas que trabalham com esses pressupostos.

Não é difícil perceber, a partir desse tipo de entendimento, a insistência em permanecer com o denominado horário eleitoral gratuito nas emissoras de rádio e de televisão, onde as candidaturas e partidos têm a sua disposição espaço e tempo para tentar persuadir os eleitores a votarem em certos personagens, propostas, programas de governo, ideias e convicções quando não nas ideologias fundadoras de modos de pensar, de viver e de agir.

Vale destacar que o vencedor da disputa pela presidência da república contou com somente 8 segundos nos programas da propaganda gratuita obrigatória no rádio e TV, o que nos leva a questionar a eficiência e eficácia desse tipo de mídia na atualidade.

Também podemos enquadrar nesse panorama sobre a ação do Jornalismo os principais procedimentos que embasam a técnica jornalística que abrange em seu processo produtivo desde as escolhas de temas, passando pela apuração, hierarquização, seleção, descarte, e edição de informações, entre outras fases, bem como elaboração e difusão de opiniões. Isso sem deixar de lado uma visão meio míope de que com isso as pessoas serão de alguma forma influenciadas.

Mas junto a essa maneira de encarar o Jornalismo contemporâneo há considerações complementares. Pena (2005)[1] já afirmava que a crença segundo a qual a mídia reflete a realidade como um espelho, serve para legitimar e dar credibilidade aos jornalistas, considerados imparciais, e norteados por noções técnicas de produção profissional no relato dos fatos.

Aliás, a maioria dos profissionais atuantes nos principais veículos jornalísticos do país, em geral, se colocam como arautos da imparcialidade. Dificilmente um jornalista vem a público e se confessa parcial, ou pior ainda, no caso das temáticas políticas, ou assevera estar posicionado em um lado específico e que isso possa de algum modo interferir nos conteúdos produzidos.

O que ocorre, admitamos, é que os fatos apresentados nos materiais jornalísticos passam por filtros, ou pelos óculos, como prefere Bourdieu[2], dos jornalistas e empresas de comunicação, os quais acabam por determinar a forma como chegam até o público.

Assim, os noticiários, comentários, análises, interpretações, são moldados de acordo com a finalidade de atender da melhor forma possível aos interesses e anseios empresariais, comerciais, pessoais ou ideológicos dos produtores de informação.

A novidade é que a população parece estar tendo agora maior capacidade de perceber como as coisas acontecem. E essa percepção pode ser notada com força nas eleições que foram concluídas no último dia 28 de outubro.

Mesmo com seu maior alcance territorial ou geográfico, meios de comunicação tradicionais como a televisão e o rádio, sem falar de jornais e revistas que já há algum tempo vem perdendo espaço e força, as redes sociais se estabeleceram nessa eleição como a grande fonte de informação, de discussão e debates, pelo menos nos centros urbanos, ou até em localidades mais afastadas em que pese o acesso precário à internet.

Os próprios analistas que ainda apregoam a importância das mídias tradicionais já reconhecem, mesmo que timidamente, o papel desempenhado pelas redes sociais que nestas eleições proporcionaram mobilizações de tamanho e importância consideráveis, sobretudo para candidatos que não dispuseram de maior volume de recursos financeiros partidários, e o impacto causado por essas mídias, já não mais tão alternativas, foi muito mais significativo.

O ciberespaço entrou em um lugar antes ocupado por outros meios de comunicação e foi usado podemos dizer com sucesso por candidatos que possivelmente teriam muito menos votos do que tiveram caso não lhes fosse possível o acesso a esse tipo de mídia, uma vez que nos meios tradicionais sua participação era bastante restrita,

Outro ponto é que nas redes sociais todos estavam colocados em igualdade de condições em termos de comunicação com o público, o que não ocorreu nos veículos de comunicação integrantes da mídia tradicional.

Isto parece que não se deve apenas a uma questão tecnológica, mas também a perda de qualidade nos produtos jornalísticos da grande mídia. Muitas vezes por falhas grotescas na produção como pouca variedade de fontes de informação, apuração fraca e inconsistente, falta de aprofundamento e opção pela superficialidade etc., ou inobservância de princípios éticos deixados de lado para se priorizar a espetacularização, o sensacionalismo barato, a substituição da abordagem jornalística séria pelo enfoque muito mais de entretenimento, o fomento à polêmica inconsequente, tudo muito mais focado na busca por índices de audiência ou pela elevação da lucratividade empresarial.

A realidade onde nos inserimos agora leva ao surgimento de um novo panorama repleto de termos como live, fan page, like, Facebook, Instagran, WhatsApp, e por aí vai. É nesse universo que se moveu com mais intensidade a campanha eleitoral de 2018, porque ao que tudo indica uma parte considerável da população atribui maior credibilidade às redes sociais do que aos meios jornalísticos tradicionais.

Podemos supor,  por enquanto apenas supor apesar de evidências várias, que as redes sociais conseguiram promover uma aproximação maior entre seus usuários, uma vez que familiares, amigos, colegas de profissão, e pessoas com afinidades identificadas facilmente fazem parte de grupos e seguidores, assim como aqueles que se situam em situação oposta em relação a ideias, opiniões, gostos e comportamentos, que igualmente são conhecidas com facilidade.

No outro polo jornais, revistas, emissoras de rádio e televisão, vão paulatinamente se afastando do público e não conseguem, por mais que tentem, romper com a comunicação unidirecional e monopolizada que consolidaram ao longo dos anos sem dar muito valor àqueles que fazem parte do público, ou da audiência, tomados muito mais como números a serem contabilizados na comercialização de anúncios.

Esse afastamento muito provavelmente está relacionado com a perda de credibilidade. Cada vez menos gente acredita naquilo que a grande mídia publica. Está na hora de as empresas da mídia tradicional rever procedimentos e valores, pois as chamadas fake news não estão limitadas ao universo digital da internet como ficou sobejamente comprovado em diversas reportagens e outros materiais jornalísticos levados ao público no âmbito de consagrados veículos jornalísticos.

Caso não recuperem, e logo, a credibilidade perdida, os deuses da grade mídia não terão mais suas vozes ouvidas, se bem que as transformações parecem inevitáveis e a redefinição de papéis e dos lugares a serem ocupados e o ranking de importância se estabelecerá conforme novos critérios que ainda não sabemos quais serão.

 

[1] PENA, Felipe. Teoria do Jornalismo. São Paulo: Contexto, 2005.

[2] BOURDIEU, Pierre. Sobre a televisão. Rio de Janeiro: Zahar, 1997.

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