Tânia Giusti 
Mestranda no PPGJOR/UFSC e pesquisadora do objETHOS

Ouvir a opinião pública, que é quem recebe as informações, é essencial e primordial para quem deseja melhorar o dia a dia profissional e a qualidade do jornalismo entregue todos os dias. A interação com quem está na ponta, nunca esteve tão presente em iniciativas de mídia como atualmente, e o que todos estes projetos mostram é que a relação entre jornalista e público precisa ir muito além de simplesmente ouvir.

Em agosto, defenderei minha dissertação de mestrado no PPGJOR/UFSC que tem como tema “A governança financeira, editorial e de engajamento nos novos arranjos jornalísticos: um estudo de caso sobre o The Intercept Brasil”. Como pesquisadora, jornalista e me deslocando para o lugar de quem também consome informações, acredito que o modelo empregado pelo site aponta caminhos férteis para tentar reconquistar a confiança do público. Não trarei dados e informações inéditas da pesquisa, pois trata-se de um trabalho científico que ainda precisará passar pelo crivo final da banca. Esse spoiler integra o roll de percepções e apontamentos desta construção que já dura dois anos.

O TIB realiza um trabalho jornalístico de referência que me chamou atenção, desde muito antes do site ganhar projeção internacional com a divulgação da série de reportagens da Vaza-Jato. Muito além de métricas que indicam os conteúdos que mais têm cliques e forçam uma relação mecânica, o trabalho fidelizado e espontâneo com as audiências realizado pela agência de notícias aponta um caminho de sucesso para um salto de reconhecimento público e de conquista de credibilidade perante a sociedade.

A pesquisa parte do pressuposto identificado por Mick e Tavares (2017): a crise do jornalismo não envolve apenas mudanças na estrutura e no viés econômico, mas também afetam a credibilidade e a governança:

As incontáveis concessões das organizações jornalísticas diante de seus interesses empresariais, políticos ou de outra natureza (em detrimento da qualidade da informação e do serviço ao público) deterioraram significativamente sua credibilidade. Expuseram contradições, antes latentes, entre o jornalismo em potência e o jornalismo em ato. Hoje está mais claro, para parte significativa dos públicos, que a realização plena desse ideal de jornalismo simplesmente não pode se dar em organizações vulneráveis a pressões de anunciantes, do Estado, de lideranças políticas ou relacionadas aos variados interesses dos proprietários, como tem sido o caso da maioria das empresas jornalísticas no Brasil (MICK e TAVARES, 2017, p.7).

O empoderamento e aproximação com os leitores

A primeira razão pela qual o site tem se destacado e ganhado credibilidade se dá pelo empoderamento dos seus leitores. Nas entrevistas que apliquei com profissionais que atuam no veículo, a regra é clara: os leitores têm papel central nas mais variadas questões. O mesmo respaldo, em relação ao site, é sentido por estes leitores, que também foram ouvidos por mim. A estrategista de comunicação do site, Marianna Araújo, afirmou que todas as mensagens que chegam ao site são respondidas.  Quando têm seus e-mails respondidos, suas sugestões ouvidas, eles se sentem valorizados e se reconhecem nos conteúdos que chegam a sua caixa de entrada. Dessa forma, efetiva-se a governança de engajamento e circulação. 

Várias vezes a gente vê o nosso público defendendo a nossa forma de fazer jornalismo. Isso que a gente quer: mais do que sujeito colocar lá um  valor no cartão de crédito, mais que aquilo ser mais um site que ele lê, sabe, uma relação  de confiança,  tem a ver com a filosofia do Intercept, a própria forma de fazer jornalismo do The Intercept. Então,  quanto mais você se aproxima do seu público mais ele vai ter gente para contribuir, mas é muito mais do que isso: a gente quer pessoas que defendam esse jornalismo, que promovam esse tipo de jornalismo, que difundam esse jornalismo, mais do que simplesmente fazer um cinturão de assinantes (ARAÚJO, 2019).

 O TIB faz questão de agradecer todo apoio e feedback recebido, inclusive nas newsletters enviadas, conforme figura abaixo:

Imagem: Newsletter do dia 27 de junho

Veja bem, o público não é tratado como apenas financiador ou um cidadão que aplicou dinheiro no projeto, mas considerado um aliado em cada passo de investigação realizada pela equipe. Sempre que alguma entidade, político, etc, é responsabilizado, os públicos também se sentem parte dessa realização. Esse sentimento de empoderamento, de ser uma opinião pública que ajuda a fomentar este tipo de jornalismo é extremamente vital, principalmente em tempos de descrédito de instituições e enfraquecimento democrático. Um público que se sente parte do processo é um público que não só defende aquele projeto: ele compartilha suas matérias e divulga gratuitamente aquele tipo de jornalismo, conforme apontou Marianna. Esse novo contrato social forma uma sólida rede, uma relação de trocas, onde todos saem ganhando, principalmente o jornalismo. 

Uma linguagem para não jornalistas e que não segue padrões

O jornalista é um sujeito que circula nos mais diversos meios e escreve sobre os mais variados temas. Sua rotina inclui, justamente, simplificar termos técnicos, difíceis, e trazer a informação da maneira mais clara à opinião pública. Na prática nem é sempre assim. Cada um acaba desenvolvendo sua própria maneira de escrita e, às vezes, os profissionais caem na armadilha de escrever textos para outros colegas jornalistas. Muitos acabam anulando o seu próprio estilo, para se adequarem a manuais de redação do veículo onde trabalham.  

É bastante comum, na própria newsletter ou mesmo no site do Intercept, o uso de expressões, memes, depoimentos pessoais, que jamais seriam vistos na mídia tradicional. Isso porque o site produz conteúdo para seus públicos não para outro tipo de grupo. Em resumo, TIB não faz jornalismo para jornalistas. 

Em relação ao padrão de reportagens, este também é outro diferencial do site. Cada jornalista tem autonomia para produzir seus textos, segundo o editor-chefe Leandro Demori. Não há um manual de redação, fórmulas prontas para serem seguidas ou mesmo orientação sobre o que não pode circular ou ser dito.  Diferentes trajetórias de vida, pessoal ou profissional dos jornalistas, também são marcas percebidas nas reportagens. Trago como exemplo uma das matérias da repórter Nayara Felizardo, que, ao escrever uma reportagem sobre trabalho infantil, fez um link com situações de sua infância.

Segundo Demori, a equipe se reúne uma vez por semana, nas segundas-feiras pela manhã, em reuniões que não são burocráticas, já que, para ele, “a burocracia afeta a criatividade”. No dia a dia, cada um dos profissionais tem liberdade para falar sobre temas que mais lhe incomodam. Também escolhem, por afinidade, as sugestões de investigação enviadas pelos leitores, anonimamente ou não.

Credibilidade, relevância e transparência

De nada adiantaria promover estes espaços genuínos de aproximação com o leitor e não se portar de maneira transparente. A transparência, expressada nas áreas estáticas do site ”sobre”, “missão” “e propriedade”, além das próprias biografias dos repórteres, por exemplo, são alguns dos elementos de verificação para aferir credibilidade, segundo o professor de Jornalismo da Universidade de Nova York Jay Rosen, como já escreveu a colega Lívia Vieira.

A credibilidade do TIB pode não só ser verificada em diversas esferas, como ao longo dos meses o site vem mostrando sua força e relevância ao cobrir pautas e investigações que raramente teriam espaço na grande mídia.  São esses conteúdos de qualidade que ajudam a reforçar a credibilidade junto ao público que, “apesar da crise”, coloca a mão no bolso para subsidiar uma campanha de crowdfunding.  Neste domingo, dia 21 de julho, a campanha recorrente de membros do site chegou a mais de dez mil assinantes, com uma média de R$ 296 mil levantados. É o segundo case de sucesso da agencia de notícias, que estreou no ano passado sua primeira campanha, que, aliás, é o recorte de pesquisa da minha dissertação.

Não há como mensurar o caminho mais adequado para o fim da crise de credibilidade do jornalismo, devido às constantes transformações na sociedade e na profissão. O fato é que cases de sucesso, como o da catarse de eleições do TIB e da própria campanha recorrente, mostram que combinar credibilidade, relevância e transparência entre público e veículo é uma receita de sucesso. Importante ressaltar aqui que o modelo de negócio do TIB é diferenciado, já que o site recebe aporte financeiro da Pierre Omydiar, por meio da First Look Media, entidade mecena que o criou e o mantém.

O modus operandi do empreendimento pode servir de inspiração como modelo de sustentabilidade para que outros projetos e iniciativas consigam também aportar recursos filantrópicos e de financiamento público, a fim de produzir bom jornalismo.  A pesquisa na íntegra sobre o site traz dados e informações cruciais para compreender vários vieses da crise e da governança no jornalismo e, em breve, o trabalho completo com todos os apontamentos estará disponível aqui no objETHOS. 

Referências

MICK, Jacques; TAVARES, Luiza. A governança do jornalismo e alternativas para a crise. Brazilian Journalism Research: journalism theory, research and criticism. vol.13, n. 2, 2017. Disponível em: https://bjr.sbpjor.org.br/bjr/article/download/948/924. Acesso em 14 de novembro de 2017.

VIEIRA, Lívia.  É possível medir impacto e confiança no jornalismo? Disponível em: https://objethos.wordpress.com/2018/04/23/comentario-da-semana-e-possivel-medir-impacto-e-confianca-no-jornalismo.

ARAÚJO, Marianna. Entrevista concedida a Tânia Regina de Faveri Giusti em julho de 2019.

DEMORI, Leandro. Entrevista concedida a Tânia Regina de Faveri Giusti em novembro de 2018.

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