Rogério Christofoletti
Professor da UFSC e pesquisador do objETHOS

Lideranças das empresas de comunicação da região sul foram recebidas pelo presidente da República no dia 22 de agosto e atiraram suas máscaras ao chão: o seu jornalismo vai funcionar como um vassalo de Jair Bolsonaro. “Senhor presidente, estamos colocando à disposição do seu governo a nossa credibilidade, o nosso relacionamento e a nossa presença regional para que a sua mensagem de mudança e de transformação chegue a todos os brasileiros, ouvintes, telespectadores, leitores e internautas”, discursou Marcello Corrêa Petrelli, presidente da Associação Catarinense de Emissoras de Rádio e Televisão (Acaert), que falou em nome de outras entidades empresariais como a ADI e a Abert regional.

Numa fala divisionista, Petrelli fez questão de distanciar os veículos de comunicação regional da mídia nacional, “que está distante da população, de seus anseios e da sua realidade”. O empresário, que é um dos donos do Grupo RIC – que opera em Santa Catarina e Paraná -, disse que as organizações do sul estão empenhadas na aprovação das reformas que o governo pretende fazer. “Um exemplo disso foi o movimento em defesa da reforma da previdência. Fizemos de forma espontânea, gratuita, como prestação de serviço à sociedade”, gabou-se sobre o que chamou de “atuação institucional”. Petrelli ressaltou as qualidades dos estados do sul, ressoando o que disse seu pai, Mario Petrelli, em entrevista para um de seus funcionários: “indiscutivelmente, a mola econômica do país”.

Petrelli fez questão de afirmar que os donos da mídia sulista conhecem seus públicos e têm “os mesmos valores que o senhor tem, presidente. Preservamos os valores familiares, religiosos, do certo e de ser brasileiro”, e que seus profissionais atuam como porta-vozes das sociedades dos três estados. Menos entusiasmado, Jair Bolsonaro respondeu que a mídia regional é “importante para o futuro da nação”. Seu secretário de comunicação, Fabio Wajngarten, tratou de ser mais enfático para selar formalmente a aliança: “Vocês, da mídia regional, são parceiros, pilares principais pra gente ecoar a verdade”.

Após o convescote, um dos comentaristas da RIC Record, Paulo Alceu, considerou o encontro como “positivo, produtivo, inédito e histórico”, pois havia sido a primeira vez que um presidente da República havia recebido a mídia catarinense. Não é verdade. A imprensa regional que cobre o Palácio do Planalto, os jornalistas mesmo!, têm sido atendidos como os demais em todos os governos. Novo é esse tipo de lobby empresarial, bem organizado e com as digitais do deputado federal Rogério Mendonça (MDB), que aderiu rapidamente ao governo graças a pautas como o armamentismo. Apesar do comentarista Paulo Alceu comemorar o encontro e dizer que a partir dele, “resultados virão”, não ficou claro a que ele se referia. Nem quem vai se beneficiar com isso…

O discurso de Petrelli é uma demonstração de como os empresários do setor veem o jornalismo: uma atividade lacaia dos poderes, um exercício da narratividade servil, atrelado aos grandes interesses. É ainda um discurso que pretende projetar uma responsabilidade que o setor de mídia não tem: sustentar governos e seus programas, aprovar reformas e empurrar o país para qualquer direção. O jornalismo deve perseguir o interesse público e ele nem sempre coincide com os interesses do governo, nem com os das empresas de comunicação. O jornalismo deve fiscalizar os poderes e não servir de satélite deles. O jornalismo precisa manter uma distância segura – não adesista, portanto! – para que possa narrar os fatos com alguma independência editorial tendo como horizonte o interesse maior, o da coletividade.

Portanto, há dois erros ao se considerar que a mídia, trabalhando com o governo, estará ajudando o país. Primeiro erro: o Brasil não é governo Bolsonaro. Governos vão e vêm, mas os cidadãos permanecem, e muitas das suas demandas e expectativas ficam em segundo plano quando as empresas jornalísticas decidem encampar plataformas eleitorais ou programas de ocasião. Os governantes passam e o país continua, e é uma tremenda artificialidade tratar como idênticos o país e quem o dirige, até porque os avanços e recuos nacionais são resultados também da iniciativa privada, da sociedade civil e de outros setores. Segundo erro: para ajudar o Brasil, a mídia deve ser governista. Pelo contrário. Ela só estará fazendo o seu papel se acompanhar o uso e a aplicação de verbas, a aprovação e o cumprimento de leis, o desenvolvimento ou não de políticas prometidas. Jornalistas precisam cobrir o poder, e não dar cobertura a eles.

O discurso de Marcello Petrelli apequena o jornalismo e envergonha quem vê no jornalismo um ator político independente. Mas não só. Sua fala constrange também seus empregados que buscam praticar jornalismo de verdade. Petrelli e cia. sinalizam a direção do que os repórteres devem fazer: bajular Bolsonaro, fazer vista grossa a eventuais erros e mal feitos de seus ministros, amplificar suas falas de maneira acrítica e vassala. Tudo em nome de uma agenda que os empresários pensam ser a da sociedade. Talvez seja o caso de fazerem o trabalho de casa e ouvirem mais as ruas…

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