Andressa Kikuti
Doutoranda em Jornalismo (PPGJOR/UFSC) e pesquisadora do objETHOS

Eis que, bem numa semana de subida da curva de contágio pela epidemia da Covid-19 no Brasil, com o número de mortos indo para a casa dos milhares, o calendário nos lembrou de duas datas comemorativas: o Dia Mundial da Saúde e o Dia do Jornalista. Eram ambas em 07 de abril – também o primeiro dia da lua cheia, que para a astrologia é uma fase de agitação e transbordamento das emoções (para melhor ou para pior)… Simbólico, não? Tanto profissionais da saúde quanto jornalistas estão passando por momentos de muita tensão e lutando, cada um a seu modo, contra a pandemia e suas consequências. O papel de jornalistas é bem distinto do de médicos e enfermeiros, mas também é importante, afinal é impossível viver sem informação confiável e contextualizada com o mundo virando de pernas para o ar.

A pandemia da Covid-19 é um cenário novo, e não há fórmulas prontas para lidar com ela. Há muitas tentativas, alguns erros e acertos, e muitos desafios, entre os quais podemos citar o risco de contaminação pelo vírus para as equipes que trabalham na rua, a dificuldade em conciliar atividades domésticas ao teletrabalho para quem fica em casa, a ausência de contato físico com as fontes, o aparato técnico limitado, o agravamento da crise financeira dos media e a urgência de reportar com qualidade acontecimentos que poderão transformar profundamente nossa vida em sociedade. Como aponta a pesquisadora Márcia Franz Amaral em entrevista para o objETHOS, nenhum profissional se torna especialista no coronavírus de um dia para o outro, e nenhum jornal consegue criar uma estrutura de cobertura de uma hora para a outra. “A cobertura compassada com o tempo cronológico do desastre é fundamentalmente anestesiante”, afirma ela. Fato é que, desde que as medidas de isolamento social começaram a ser implementadas no Brasil, todos os olhos dos noticiários se voltaram quase unicamente ao tema da pandemia.

Do limite aos caminhos da cobertura diária da TV

A cobertura de hard news, jargão jornalístico usado para designar aquele tipo de conteúdo voltado para um grande público e que discorre sobre os acontecimentos mais recentes do dia a dia, foi (e segue sendo) super importante para manter as pessoas informadas sobre as regiões mais afetadas pelo vírus, os cuidados para evitar o contágio e, principalmente, as medidas que estão sendo tomadas pelo poder público para enfrentar a situação junto à população (ou contra ela, em alguns casos). No caso da Globo, a líder de audiência na TV aberta, a aposta na cobertura extensiva com foco nas hard news se destacou. Parte da programação de entretenimento foi suspensa para dar lugar a programas jornalísticos. Todos os dias, das 04h às 15h (ao todo, 11 horas consecutivas), a emissora transmite programas ao vivo cujo foco é a cobertura da pandemia. O carro-chefe do jornalismo da emissora, o Jornal Nacional, também teve seu espaço ampliado e passou a ter 50 minutos de duração. Isso fora os telejornais locais, o Jornal da Globo, os boletins que entram nos intervalos da programação, e daí por diante. É sem dúvida um enorme esforço, que demanda comprometimento e organização.

Mas essa estratégia de cobertura estendida que, no início, serviu como um alento às mentes e corações desassossegados pela ameaça da doença, com o passar do tempo parece se aproximar de um ponto de saturação. Há falta de originalidade nas pautas. Pesquisas e dados são divulgados mas, em alguns casos, há pouca interpretação e contextualização. O monotema “coronavírus” se torna cansativo, as informações se repetem noticiário após noticiário, os índices sobre o número de infectados e mortos nos países atingidos são atualizados várias vezes ao dia, e isso tudo, ao invés de tranquilizar, pode causar sentimentos de impotência, ansiedade e tristeza nas pessoas, como alertam especialistas em saúde mental. Tanto que a recomendação tem sido limitar o volume e o tempo que se passa consumindo informações.

À Pública, o autor do livro “A psicologia da pandemia”, Steven Taylor, relembra outras vezes em que a humanidade passou por momentos como esse e afirma que somos resilientes, porém também aconselha limitar o volume de notícias sobre o tema, além de reforçar o contato com amigos e familiares. Como sustentar tantas horas de programação jornalística diárias e, ao mesmo tempo, evitar a repetição de informações? Como manter a população bem informada sobre a pandemia sem, no entanto, saturá-la? É uma situação difícil, mas uma coisa parece certa: o jornalismo diário, principalmente o televisivo, precisará em breve se reinventar se não quiser se tornar causador de angústia, ao invés de orientação, e desinteresse, ao invés de referência. Boas saídas podem ser produzir dados confiáveis e contextualizados sobre a pandemia, e criar conteúdos que alertem a população sobre os riscos da desinformação, como apontou a pesquisadora Lívia Vieira na newsletter do Farol Jornalismo. Outra solução, segundo ela, é dar ênfase para a checagem dos fatos.

O antídoto para a crise de desinformação também é a chance do jornalismo

Aí vem outro problema: em tempos de isolamento social, o excesso informacional não vem só da TV ou de outros meios jornalísticos. Pessoas em casa consomem muito mais conteúdo on-line e se comunicam mais via redes sociais e mensageiros instantâneos, que podem estar lotados de fake news. É fácil criar desinformação num contexto de tantas incertezas, e ela vem, aliás, de todos os lados: as autoridades políticas, que deveriam ser as primeiras a combater informações falsas, são responsáveis por alguns dos surtos de fake news sobre a pandemia, conforme aponta um artigo assinado por fact-checkers brasileiros. Quem deveria demonstrar confiabilidade e proteger a população, é flagrada endossando dados errados sobre vacinas, distanciamento social e origem do novo coronavírus.

Isso tem dado bastante trabalho às agências de checagem, que estão na linha de frente desse combate. No fim de março, a Pública conversou com as chefias de quatro agências brasileiras (a Lupa, Aos Fatos, E-farsas e Estadão Verifica) e apontou que o volume de informações falsas que circulam sobre coronavírus surpreendeu até os fact-checkers. A média é de três novas fake news por dia, e as mais compartilhadas, segundo eles, são sobre receitas milagrosas e teorias da conspiração. Os checadores trabalham em conjunto com pesquisadores(as) e agentes de saúde para desmentir os boatos que se espalham por aí, mostrando o que é confiável em meio ao oceano de desinformação.

Mas se tem uma notícia boa em meio a essa crise, é que o cenário de pandemia tem relembrado às pessoas o valor da ciência e do jornalismo, que andavam com a imagem desgastada pelos discursos anti-científicos e pelos ataques proferidos por governantes, entre as quais o atual ocupante do cargo de presidente do Brasil. O filósofo Mário Sérgio Cortella também aposta na recuperação da confiança na mídia e na ciência como um dos legados da pandemia, e os dados da pesquisa Datafolha parecem endossar isso: a TV e os jornais são vistos pela população como os mais confiáveis na divulgação de informações sobre a crise do novo coronavírus, em detrimento de informações obtidas nas redes sociais. Esta parece ser uma chance de ouro para provar, de uma vez por todas, que o jornalismo é essencial para a sociedade. Que informação verificada, contextualizada e bem elaborada é capaz de nortear decisões melhores em momentos de crise.