Rogério Christofoletti
Professor da UFSC e pesquisador do objETHOS

Não é novidade que os grandes veículos de comunicação sejam acusados de manipulação informativa e de coberturas parciais sobre a crise brasileira. O que se pode chamar de novidade é o gesto de alguns intelectuais que se recusaram a dar entrevista ou participar de programas da grande mídia, nesta semana. Os casos vieram à tona nas redes sociais, onde foram espalhados por quem concorda com suas atitudes e vê nelas uma desforra. Pode ser entendido assim, e tenho certeza de que muita gente sorriu de contentamento. Vejo, no entanto, de uma forma diferente.

Os intelectuais em questão frisaram que não querem seus nomes e imagens associados a veículos que “além de não fazer jornalismo, incita[m] a população ao ódio” e “querem dar golpe na democracia brasileira”. Procurados por repórteres da GloboNews, G1 e O Estado de S.Paulo para entrevistas ou programas em estúdio, os professores descartaram contribuir com a produção de um noticiário enviesado.

Nunca é demais lembrar que dar entrevista ou não é um direito de toda pessoa. Pergunta quem deve (o repórter), responde quem quer (a fonte). Entrevistas não são inquéritos policiais, tomadas coercitivas de depoimento. Quem é ou já foi repórter, sabe que sempre há um risco de a fonte de informação não lhe responder ou mesmo não atender às expectativas da matéria. A fonte pode estar gripada e sem voz, não se julgar a mais competente para tratar daquilo, falar de maneira confusa e não contribuir para a reportagem, não dispor de tempo para a entrevista, não ser localizada ou simplesmente se recusar a falar. Levar um não é uma possibilidade sempre. Afinal, a entrevista é uma concessão que se faz a alguém. Por isso, dizemos “fulano concedeu entrevista a sicrano”. Dito dessa maneira, a recusa poderia ser encarada com normalidade, exceto pela intencionalidade política que a sustenta. Os entrevistáveis não quiseram falar porque desconfiam da honestidade dos veículos e de suas capacidades de apresentarem um panorama equilibrado das notícias. Porque acreditam que essas empresas jornalísticas adotaram um lado na polarização política nacional e que atuam para fragilizar o governo e para promover uma deposição ilegal da presidente. Não querem, portanto, fazer parte disso, não querem estar ligados ao golpe.

Respeito as trajetórias e as escolhas de quem se recusa a falar com a chamada grande mídia. Neste observatório de mídia, vimos apontando diversos episódios de parcialidade, oportunismo e uso político do jornalismo. Mas o momento atual é propício para que tomemos decisões movidas mais pelo fígado do que pelo cérebro.

Manipulação e frustração

Não se faz política sem discurso, sem buscar o convencimento. Não faz política apenas aqueles que detêm cargos ou mandatos. Os professores em questão sabem perfeitamente disso, e a publicização de suas recusas é um movimento político que apresenta uma nova possibilidade de atuação diante de uma mídia que a muitos não espelha. Entretanto, se estamos vivendo uma disputa de sentidos, um choque de narrativas, me parece um erro estratégico não ocupar espaços nos grandes veículos.

Nos telejornais, nos grandes portais de informação, nos jornais e revistas, é possível encontrar duas narrativas nítidas: a que deseja emplacar o impeachment e a que vê nesse movimento um golpe de estado. O país está discutindo esses sentidos, e cada lado tentando impor a sua narrativa, a sua forma de ler a realidade, a sua verdade.

É evidente que a mídia não é apenas a vitrine onde isso acontece. Ela também vocaliza discursos que servem a seus interesses (políticos, financeiros, ideológicos, religiosos…), mas muitas vezes tenta travesti-los como notícias, relatos objetivos dos fatos. Isso incomoda muito, pois se configura como um gesto desonesto, apoiado numa mentira: a de que os fatos falam por si mesmos, e assim é a realidade. Ora, é absolutamente natural a desconfiança das fontes quando se deparam com isso e quando percebem que suas falas são publicadas de forma distorcida, seja por cortes que impedem uma compreensão melhor dos sentidos, seja por complementos que criam contextos alienígenas ou pelo simples descarte de seus testemunhos.

Diversos autores já desfiaram um longo rosário para ajudar a caracterizar o que chamamos de “manipulação informativa”. No frigir dos ovos é publicar algo que não condiz com o que estava na emissão de origem. Não se reconhecer na própria fala leva à frustração, e a uma atitude de revolta por ter sido traído em que se confiou a palavra. Resposta natural é que se exija a fidelidade das falas, que haja uma retratação ou que não se confie mais tanto em seus interlocutores.

Sentidos em disputa

Como o país está dividido e porque temos duas narrativas contrárias circulando, é preciso optar por uma delas, que – hegemônica – tende a se cristalizar como a verdade dos fatos. Nossas discussões se dão em casa, no trabalho, nas ruas… Nos meios de comunicação, elas alcançam dimensões massivas e é por isso que considero um erro boicotar a mídia nesse momento. Ao não ocuparem espaços nesse plano, essas vozes não apenas dão lugar ao pensamento contrário, como também oferecem um argumento poderoso para sustentar eventuais manipulações. Nas redações, os mais cínicos poderão dizer: “Ora, queríamos equilibrar os lados, mas eles não se dispuseram a falar. Fazer o quê?”. É possível que muita gente não acredite na justificativa, mas é igualmente possível que alguém embarque nela.

Em qualquer disputa de sentidos, é preciso preencher a narrativa. Isto é, não transferir a terceiros a responsabilidade de dizer o que se pensa. E isso não vale apenas para intelectuais, mas todo tipo de fonte no processo comunicativo. Conceder entrevistas, marcar posições, participar de debates, escrever artigos são possibilidades concretas de preencher a narrativa com o próprio punho. O que se quer garantir com isso é um regime de visibilidade, o que significa existir nas sociedades contemporâneas. Só existe quem se apresenta, quem se posiciona e, portanto, aparece. Para jogar o jogo é preciso não só aceitar suas regras, como também usá-las a seu favor.

Sociedades científicas têm lançado manifestos, escritores e profissionais do meio editorial também e um listão está sendo elaborado por intelectuais brasileiros para sensibilizar seus pares no exterior. Figuras proeminentes do meio jurídico escrevem artigos e tentam convencer seus pares, personagens das duas narrativas se esforçam para formar opiniões e é assim que convicções vão sendo moldadas. Até mesmo a presidente Dilma Rousseff recebeu repórteres dos mais influentes jornais do exterior para denunciar um “golpe em curso”. A estratégia é clara: disseminar um discurso de resistência e preencher a narrativa de que está sendo perseguida injustamente. Imaginem se ela se recusasse a atender a mídia internacional? Não só seria objeto de (mais) antipatia dos profissionais de imprensa como também veria lampejos de uma narrativa distinta da sua. Preencher a narrativa é uma maneira de lutar pelo direito ao contraditório, tão caro a todos os que acreditam em justiça e democracia.

Se o argumento para a recusa de atender a mídia é o de que jornalistas se aproveitam da presença de vozes discordantes para simular a heterogeneidade de visões, por que não ser pragmático e assumir essa função? Se o entrevistado quer mais pluralidade de versões e ele pode encarnar esse papel, por que não tentá-lo? Que responda o que bem entende, que coloque como condições ser entrevistado ao vivo, que conteste as perguntas, que desvie de perguntas-armadilhas, enfim, que se coloque fora da curva.

Não alimento a ideia de que apenas ocupar espaços garanta equilíbrio na balança da mídia. O Jornal Nacional se refestelou em alardear a polêmica conversa gravada entre Dilma e Lula, mas se arvorou no zelo e na falta de tempo para não nomear os políticos da lista da Odebrecht. A guerra é assimétrica, e quem comanda a produção dos conteúdos tem muito mais poder do que aqueles que servem de ingredientes. Dificilmente, uma única pessoa terá mais poder de alcance que um veículo inteiro, mesmo que seja uma pessoa muito influente. Ocupar espaço na mídia não assegura um noticiário mais equilibrado e fiel aos fatos, mas boicotar essa arena também não ajuda. A argumentação de que Globo e outros veículos manipulam, que fazem cobertura enviesada e parcial precisam ser constantemente e macicamente marteladas.

Se uma fonte se sente traída ou com seus dizeres distorcidos, pode fazer como a atriz e apresentadora Monica Iozzi (da própria Globo!), que tornou pública a íntegra de uma entrevista que deu à Folha de S.Paulo e que, segundo ela, não condizia com os sentidos originais. A desmontagem de uma farsa se dá também pela revelação da sua fragilidade e por um discurso corajoso pela restauração da verdade.

Há quem pense diferente. Podem me acusar de estar sendo ingênuo nesse episódio, mas eu também poderia dizer que quem se recusa a atender a mídia está fugindo da raia. Não é o caso. Se a mídia é uma arena estranha e que não nos representa, que ela seja levada a mostrar isso também, pela insistência, inteligência e estratégia de quem com ela não concorda. Numa guerra de versões, numa colisão de verdades, é preciso ganhar corações e mentes. É necessário tecer uma narrativa convincente, capaz de se sobrepujar ao seu contrário. A política se faz assim também, mas sobretudo a história e a verdade que nos convém guardar e acreditar.

LEIA AINDA: a professora Sylvia Moretzsohn levanta questões sobre o boicote e o professor João Feres Jr. defende o não à grande mídia.

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