Rogério Christofoletti
Professor da UFSC e pesquisador do objETHOS

O jornalismo é uma atividade que se assemelha ao vampirismo, afinal não vive de maneira autônoma e precisa necessariamente de terceiros para se efetivar. É antipático dizer, mas é assim que é. Repórteres se aproximam de fontes de informação, extraem deles o que convém e deixam a cena rapidamente. Mas o jornalismo vampiriza não apenas pessoas e organizações. Ele se vale também da literatura ou do cinema para se apresentar ao público de forma mais atraente, envolvente e, às vezes, convincente. A semana trouxe um exemplo cabal de como o jornalismo vai buscar na ficção elementos que ajudem a construir uma realidade, a conformar um cenário e a formar mentalidades. A reportagem de capa da revista IstoÉ – “Uma presidente fora de si” – é muito ilustrativa nesses movimentos vampirescos.

Assinado por Sergio Pardellas e por Denise Bergamasco, o texto costura uma série de relatos sobre supostos destemperos da presidente da república, Dilma Rousseff, nos últimos tempos. A intenção é clara: demonstrar que a inquilina do Palácio da Alvorada está desequilibrada emocionalmente e que, portanto, perdeu as condições esperadas de sabedoria e serenidade para governar. Para quem acompanha a cobertura de IstoÉ, a matéria não destoa do tom agressivo de alguns outros veículos de informação. Na semana anterior, a mesma publicação veio com capa sobre “Os 7 crimes de Dilma”, em que destila razões que sustentariam o fim do mandato presidencial por crimes de responsabilidade e de desobediência, entre outros. A reação do Planalto foi imediata e a Advocacia Geral da União estuda processar a revista por enxergar no texto elementos que caracterizem crime contra a honra da presidente.

Uma lupa sobre o texto faz saltar à vista uma figura jurídica bastante conhecida: a calúnia. Caluniar é atribuir falsamente um crime a alguém. Quer dizer: quando se acusa uma pessoa de crime que não tenha cometido, o acusador está sujeito a responder por calúnia. O texto desta semana – a das supostas explosões de Dilma – traz mais munição aos defensores de Dilma: outro crime contra honra pode ter sido cometido, o da injúria, que atinge a imagem pessoal, a autoestima e o decoro da vítima. O Palácio do Planalto divulgou nota informando que estuda ações judiciais para este caso também. O curioso é a saia justa que se cria. A repórter Débora Bergamasco já foi assessora especial do advogado-geral da União, José Eduardo Cardozo, quando ele era ministro da Justiça, e segundo o jornalista Paulo Nogueira, tem uma relação marital com o político. Mesmo que ações judiciais para defender os interesses da cidadã Dilma Rousseff partam de seus advogados pessoais, pode-se enxergar aí um embaraço dentro do governo.

Troca de chumbo

Qualquer pessoa que se sinta lesada por outra e se perceba vítima de um crime pode acionar a Justiça. É assim em qualquer parte e vale para todos, inclusive detentores de cargos públicos. Volta e meia políticos ameaçam jornalistas com processos. Alguns casos não passam de bravata, outros vão às barras dos tribunais. As relações naturalmente tensas entre jornalistas e políticos alimentam as condições de disputas judiciais. Políticos poderão argumentar que a imprensa precisa de limites e jornalistas vão contra-argumentar que o cerco de advogados serve para que as redações desistam de seu trabalho de investigação e fiscalização dos poderes. No caso do texto de IstoÉ sobre a “presidente fora de si”, muita gente no departamento jurídico da Editora Três precisará fazer cerão.

O texto foi publicado no site da revista na tarde de 1º de abril, o que já renderia um conjunto natural de piadas, e ele se apoia no que as redações costumam chamar de matéria de bastidores. Nesse tipo, as fontes consultadas quase não aparecem, os relatos são amarrados a partir dos testemunhos de pessoas próximas aos acontecimentos e a intenção geral é tornar público um conjunto de movimentos internos que ajudaria a explicar melhor as ações visíveis. Acontece que o texto de IstoÉ não tem nenhuma fonte identificada ao longo de suas páginas. Tudo se dá no diz-que-diz… Os relatos dos supostos destemperos de Dilma são sustentados por “assessores palacianos”, “segundo relatos”, “um assessor”, “um integrante do primeiro escalão do governo”, “um de seus assessores”, “tripulantes e passageiros”, “um presidente de uma instituição estatal”, “outro interlocutor frequente”, “um importante assessor palaciano”. São narrados episódios envolvendo ministros e ex-ministros que ajudariam a ilustrar a forma violenta de agir da presidente. O auge estaria nos acessos de ira que levaram Dilma a quebrar móveis no Palácio do Planalto, o que incita a pensar em dilapidação de patrimônio público…

O tom do texto da revista é alarmista: “sucessivas explosões nervosas, quando, além de destempero, exibem total desconexão com a realidade do País”; “Segundo relatos, a mandatária está irascível, fora de si e mais agressiva do que nunca. Lembra o Lula dos grampos em seus impropérios”.

Os repórteres informam que Dilma está sob medicação pesada e a caracterizam como doente dos nervos, mencionando claramente que estaria cumprindo a liturgia da perda/luto, “modelo consagrado pela renomada psiquiatra Elisabeth Kübler-Ross”: negação, raiva, negociação, depressão e aceitação. Mas IstoÉ é categórica: “É bem verdade que Dilma nunca se caracterizou por ser uma pessoa lhana no trato com os subordinados. Mas não precisa ser psicanalista para perceber que, nas últimas semanas, a presidente desmantelou-se emocionalmente”.

Como não existe jornalismo sem fonte, é esperado que os relatos jornalísticos venham apoiados em testemunhos, declarações, informações ou desmentidos. Ocorre que o texto de IstoÉ não nomina absolutamente ninguém que sustente tais episódios ou fatos narrados. É bem verdade que, em situações extremas, jornalistas garantam anonimato de suas fontes, que protejam suas identidades para resguardar sua segurança ou integridade. É um direito constitucional e uma prática aceitável na sociedade. Mas qual o limite disso?

Se o texto de IstoÉ não tem ninguém que se disponha a afirmar seu conteúdo, os leitores só têm duas alternativas: acreditar na palavra dos repórteres ou tomar o texto como uma invenção, uma peça ficcional. A rigor, por que deveríamos acreditar em Sergio Pardellas e Denise Bergamasco? Que elementos eles nos oferecem de que os fatos narrados foram devidamente apurados e verificados, conforme mandam as gramáticas jornalísticas? Onde estão as devidas confirmações dos episódios contados?

A deputada federal Maria do Rosário (PT-RS) apressou-se a desmentir que tenha sido destratada pela presidente, como foi apontado no texto de IstoÉ, por exemplo. “Jamais fui desrespeitada por Dilma (…) Eu também não me submeteria a um trato desrespeitoso”.

Em tempos de redes sociais, de numerosos canais de informação e de acirrado clima político, os públicos são altamente exigentes quanto à qualidade dos relatos jornalísticos e estão cada vez mais vigilantes sobre o que podem considerar manipulação informativa. Se os episódios narrados não têm quem os sustentem e se não existem demonstrações claras de que foram checados, por que alguém deveria considerá-los verdadeiros ou jornalísticos? A credibilidade tem na sua órbita um certo ato de fé…

O útero como problema

IstoÉ tem como slogans ser “independente” e ser “a revista mais combativa do país”. Da imprensa é esperado que adote posturas críticas aos núcleos de poder e não adesistas a governos. Seguindo a conhecida máxima de que o jornalismo é o quarto poder – aquele que fiscalizaria os outros três: Executivo, Legislativo e Judiciário -, não é demais entender que ele tenha de morder os calcanhares de parlamentares, governantes, juízes e demais servidores da república. Mas um cão de guarda deve vigiar e ladrar, chamando a atenção da vizinhança, ou atacar, causando danos e provocando vítimas?

Para diversos observadores da vida social brasileira, o texto de IstoÉ não é só um relato jornalístico precário, com intencionalidades políticas claras e que seja carente de elementos de verdade. O texto é machista e perseguidor, na medida em que recorre a estereótipos sexistas e misóginos para desqualificar Dilma Rousseff. É o que aponta a professora Ivana Bentes, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, para a revista Fórum. Estaria em curso um longo processo de deterioração da imagem e da reputação da presidente, que acarretaria na formação de um senso comum sobre a mandatária: ora, se ela está assim, realmente, não pode nos governar…

Alguém pode questionar a tese sobre o machismo de IstoÉ ao lembrar que um dos autores da reportagem é uma mulher. Mas sabemos todos que a estrutura sexista se apoia em toda a cadeia social, e contamina a todos. Boa parte da educação machista foi historicamente liderada por mães machistas, que herdaram valores-algozes e os retransmitiram a seus filhos e filhas, contribuindo para uma distorção da igualdade na sociedade. Por gerações, os meninos eram estimulados a demonstrar virilidade enquanto as meninas, castidade. Por gerações, construiu-se a ideia de que funções de comando cabiam a homens ( naturalmente fortes) e não a mulheres (biologicamente instáveis). Basta comparar as capas da mais recente IstoÉ e de uma edição Época de junho de 2010, onde perder o controle pode ser uma qualidade, uma demonstração de liderança, ou destempero e desequilíbrio.

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Dilma Rousseff não é a única personagem a ser objeto da fúria de veículos de comunicação, que apelam para ataques pessoais. Lula já apareceu com um copo de cerveja na mão na capa da mesma IstoÉ, e Cristina Kirschner foi retratada de forma bem desrespeitosa em outras publicações argentinas. É o que chamo de um “jornalismo sem vergonha”, aquele sem pudor para atacar, sem escrúpulos para atingir, e sem qualquer compromisso de decência e honestidade com seu público e a própria atividade. É uma prática que se distancia do jornalismo – e de suas obrigações e responsabilidades – para tecer cenários e construir imagens fictícias, irreais, mentirosas.

Os últimos meses têm sido proveitosos para análises do comportamento da mídia, e temas como manipulação, enviesamento de coberturas e falta de transparência são bastante invocados nesses debates. É um tempo de crise também para o jornalismo, que precisa dar conta da velocidade alucinante dos episódios e ainda tomar posições. Há muita gente que veja um golpe jurídico-político-midiático em curso para derrubar Dilma Rousseff e apear o PT do poder. A tese de crime de responsabilidade e solução pelo impeachment ganhou força nos últimos meses, mas apresentou trincas comprometedoras na semana passada. No noticiário político e em menor escala, há quem tenha mais cuidado. Veja-se Jânio de Freitas na Folha de S.Paulo de domingo (3 de abril), para quem está claro que a Operação Lava-Jato não quer debelar a corrupção, mas a corrupção do PT, o que a colocaria como uma ação policial com nítidos propósitos partidários.

Mas não se pode ignorar que há uma grande indisposição de setores poderosos na mídia que querem as cabeças de Dilma e Lula. Esses veículos insistem em artilharia pesada e o texto de IstoÉ se apresenta como um desses torpedos. Menos estrondosas são ações como a capa de O Estado de S.Paulo do domingo (3) com manchete sobre a vantagem dos votos dos oposicionistas no processo de impeachment e com uma chamada, no mínimo, marota: “Suíte de Lula vira ‘QG político’”. Depois de alardearem episódios com sítios e tríplex, uma suíte num hotel cai como uma luva, não é mesmo?

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No mesmo dia, a Folha de S.Paulo trouxe editorial em sua primeira página, intitulado “Nem Dilma Nem Temer”, onde defende a cassação de Eduardo Cunha, a renúncia da presidente e de seu vice, e a convocação de eleições em 90 dias.

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Trazer o editorial para a primeira página não é um recurso alienígena na Folha. Os mais velhos devem se lembrar da tomada de posição do jornal em agosto de 1992, que contrariava a convocação de apoio ao então presidente Fernando Collor. A Folha trouxe editorial na capa – “Luto” – e exortou os leitores a usarem preto em manifestações.

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Mais recentemente, em 13 de setembro de 2015, novo editorial dava um ultimato à presidência. “Última Chance” era endereçado a Dilma.

Em conjunto, as ações de setores do jornalismo que atuam para minar a gestão Rousseff soam como desespero midiático e sinalizam para uma profunda ferida aberta no país. A mídia pode ajudar a estancar a sangria ou acelerar o processo de deterioração dos tecidos vizinhos. Pode ser vampiro ou assumir outra função, menos insidiosa. As escolhas não são fáceis, mas não se deve esquecer das responsabilidades de cada ator político no complexo cenário que vivemos. A história costuma cobrar.

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