Carlos Castilho
Pós-doutorando no POSJOR/UFSC e pesquisador associado do objETHOS

A participação da imprensa  no desenvolvimento da operação Lava Jato tornou-se mais importante nas investigações do que as questões jurídicas e policiais. O que os atores principais na investigação dizem ou fazem diante de jornalistas acaba pesando mais do que as normas legais e institucionais na formação da opinião pública.

Este processo, definido como midiatização por teóricos da comunicação (1), marca uma alteração transcendental no papel que os meios de comunicação começam a desempenhar na forma como são construídas as diferentes representações da realidade social na qual estamos inseridos.

Na era digital, nossa forma de perceber os diferentes processos em curso ao nosso redor passou a depender fundamentalmente de representações produzidas por agentes envolvidos na emissão, transmissão e recepção de mensagens informativas. O volume de dados e fatos que captamos em contato direto com a realidade que nos cerca tornou-se percentualmente mínimo em relação à avalancha de informações, materializadas na forma de representações, que recebemos através da mídia.

Nossa percepção dos dados e fatos relacionados à Lava Jato é essencialmente determinada pelas representações publicadas  pela imprensa e principalmente, pela forma como esta  cria a sua própria representação dos eventos noticiados. Ao selecionar o que transmite e o que omite ao público, a imprensa perde uma suposta neutralidade, que de fato nunca existiu, para se tornar uma participante ativa na forma como construímos a nossa percepção do mundo que nos cerca.

São muito poucos os leitores, ouvintes, telespectadores e internautas que conhecem este processo de midiatização, mas os principais formadores de opinião e especialistas em imagem pública sabem como aplicá-lo minunciosamente em casos como a Lava Jato.  A mídia se tornou a principal arena na qual se movem protagonistas como a Polícia Federal, Procuradoria Geral da República, juízes de primeira instância, presidência da República, parlamentares, advogados, empresários e empresas envolvidas como Odebrecht e J&S.

Imagens de fatos ou eventos, produzidos pelos próprios protagonistas (policiais, procuradores e magistrados) ou previamente acertadas com a imprensa, tem prioridade máxima em relação às justificativas técnicas e evidências jurídicas.  Papel idêntico é desempenhado pelo vazamento de informações para transmitir dados e fatos sem impacto visual, mas capazes de detonar desdobramentos relevantes. Os fragmentos de documentos vazados são selecionados primeiro por quem vaza, depois por cada veiculo da imprensa, o que no final pode gerar no leitor ou telespectador uma percepção diferente daquela que seria produzida pela leitura do documento original.

O fim do mito da neutralidade

O destino dos principais acusados nas investigações será decidido mais na mídia do que nos tribunais e no poder legislativo, porque tanto juízes como parlamentares também estarão preocupados, conscientemente ou não, com a forma como seus atos serão representados na  TV, nos jornais, revistas e nas redes sociais.

Os mais tradicionalistas poderiam dizer que estamos diante de uma teatralização da política e da aplicação da justiça através de uma imprensa preocupada com lucros, mas esta percepção ignora mudanças radicais em curso na forma como a mídia interfere na nossa maneira de viver. Já não importam as evidências técnicas de culpabilidade ou inocência, mas a forma como somos condicionados a perceber estas evidências.

Quando um telejornal dedica três minutos e meio para detalhar as acusações de um procurador contra um suspeito de envolvimento  na Lava Jato e a defesa do acusado é limitada a 10 segundos, a TV está  passando uma mensagem, não explicitada, sobre quais as razões que deveriam pesar mais na percepção do telespectador.  Quando um jornal destaca a controvérsia em torno da performance do procurador Rodrigo Janot e outra publicação prioriza as acusações do mesmo Janot contra o ex-presidente Lula, eles também estão condicionando o julgamento do telespectador ao induzir prioridades e relevâncias que nós não temos condições de avaliar por falta de dados.

O entendimento do processo de midiatização da realidade politica é fundamental para os jornalistas tomarem consciência do seu novo papel no fluxo de dados, fatos e eventos que condicional a formação de representações da realidade social  que nos cerca. É uma responsabilidade muito maior do que aquela que nos tocava na era pré-internet, onde a complexidade do ambiente informativo era muito menor.  Nossa atividade não é mais neutra e nem podemos mais nos refugiar na alegação de que somos meros mediadores entre políticos, empresários, juízes e leitores, ouvintes, telespectadores e internautas.

Esta mesma complexidade informativa será crucial quando a Lava Jato chegar a sua fase final de julgamentos. Os protagonistas, entre eles a mídia, tenderão a dicotomizar a polêmica entre acusação e defesa porque sabem que a opinião pública não tem capacidade de entender a complexidade dos processos jurídicos e dos contextos em julgamento.  Caso isto se concretize, a lei passará a ser apenas um  acessório conjuntural no processo de midiatização.

(1) Ver artigo Conceptualizing Mediatization: Contexts, traditions arguments, por Nick Couldry e Andreas Hepp, publicado na revista Communication Theory, 2013. DOI 10.1111/comt.12019

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