Edição: Dairan Paul

O segundo entrevistado na série promovida pelo Observatório da Ética Jornalística é Leonel Azevedo de Aguiar, professor e pesquisador do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio). Na semana passada, a entrevista de Cláudia Nonato (FIAM-FAAM) iniciou a série.

Aguiar conversou com a equipe do objETHOS durante a sua participação no 41º Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação (Intercom), em Joinville. O pesquisador apresentou dois artigos com suas orientandas de doutorado – “O uso de bots no jornalismo e o impacto nas rotinas produtivas”, assinado junto de Ana Paula Goulart de Andrade, e “Notícias e ativismo em rede: teorias da ação política e comunicação contra-hegemônica nas plataformas digitais”, em coautoria com Claudia Rodrigues. No Intercom, Aguiar já coordenou o Grupo de Pesquisa de Teorias do Jornalismo, entre 2013 e 2016.

Atualmente, o professor acumula as funções de pesquisador e coordenador de graduação no Departamento de Comunicação Social da PUC-Rio. É líder do grupo de pesquisa Teorias do Jornalismo e Experiências Profissionais, que reúne trabalhos de seus orientandos de mestrado e doutorado. Uma das produções é a tese de Adriana Barsotti, “Primeira página: do grito no papel ao silêncio no jornalismo em rede”, orientada por Aguiar e recentemente premiada pela Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo (SBPJor). Defendido em 2017, o trabalho é fruto de uma parceria que já resultou em diversos artigos e um livro lançado no mesmo ano – “Clássicos da comunicação: os teóricos de Peirce a Canclini”.

Na entrevista a seguir, Aguiar discute a inserção de tecnologias digitais nas redações, o papel do amador que produz informações e as relações entre crise da modernidade e valores do jornalismo.

Você apresentou no Intercom um artigo sobre o impacto de bots, algoritmos e robôs nas rotinas produtivas das redações. Como a inserção de tecnologias tensiosa os limites éticos e deontológicos do jornalismo?

No nosso grupo de pesquisa da PUC-Rio, o Teorias do Jornalismo e Experiências Profissionais, trabalhamos em diversas áreas – telejornalismo, online, midiativismo. Um exemplo é o conceito que desenvolvemos de telejornalismo apócrifo, que se refere ao uso de câmeras de celulares e de vigilância na produção jornalística.

Temos uma série de trabalhos que pensam exatamente essa relação entre jornalistas e tecnologias digitais. De modo mais amplo, ela acontece entre as diversas organizações sociais e os indivíduos – o cidadão que produz algum conteúdo informativo, por exemplo. A questão é como isso vai impactar na profissão jornalística e, em última instância, no ethos jornalístico, principalmente em valores centrais como a busca pela verdade e a credibilidade.

Mais recentemente, Adriana Barsotti e eu reatualizamos a discussão sobre o papel dos gatekeepers. Percebemos que o “Mr. Gate” do século 21 que trabalha nas homepages de sites, o “Mr. Webgate”, é impactado por um novo modo de leitura que as audiências ativas têm da produção jornalística em plataformas digitais. Elas deixaram de visitar as homepages e os sites das empresas jornalísticas para ler notícias a partir de redes sociais, num primeiro momento, e também em portais e buscadores. Algumas páginas, como os editoriais, chegam a ter visitação zero. Ninguém mais chega até elas. E isso, obviamente, tem um impacto no trabalho jornalístico.

Você também já escreveu sobre a entrada de novos atores no ecossistema midiático, como os amadores. De que modo estes sujeitos podem reconfigurar a identidade profissional dos jornalistas?

Esse é outro tema caro para nós. Adriana Barsotti e eu fizemos uma revisão bibliográfica sobre essa terminologia – jornalismo cidadão, colaborativo, etc. – e propomos “jornalismo amador”, que também não é um termo exatamente novo.

Uma coisa que me chamou a atenção, do tempo que eu ainda estava na graduação, é que estudante de jornalismo já poderia ser sindicalizado. A Fenaj [Federação Nacional dos Jornalistas] permite isso. O nome do sindicato era Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Município do Rio de Janeiro. Significa que você tem que denominar essa prática como profissional porque já existia, desde os primórdios do jornalismo, uma prática amadora que estava presente ali o tempo todo. Quando investigamos a profissão, reconhecemos que isso existe mesmo. O próprio Otto Groth, no seu livro clássico O Poder Cultural Desconhecido, já fez essa discussão na Alemanha, em meados do século XX, sobre o funcionário público que tem uma segunda atividade lá no jornalismo. Tentamos destacar no artigo que essa terminologia do “jornalismo cidadão” sempre existiu: era o sujeito comum que já escrevia no jornal ou como uma segunda opção, ou como um articulista, um escritor, como fala o Groth. O cidadão que dá a opinião a partir da sua perspectiva profissional, mas que não é exatamente um trabalhador daquela empresa jornalística. Então você está sempre revisitando as teorias do jornalismo, atualizando-as e vendo suas validades, como é o caso de algumas terminologias.

Acho que esse jornalismo amador pode impactar profundamente nas práticas profissionais. A participação do público também não é novidade. Mauro Wolf, no clássico livro Teorias da Comunicação, levanta uma série de critérios de noticiabilidade que a gente conhece. Um deles é a questão do público e da audiência. É o critério mais nebuloso, desconhecido e menos pesquisado. É também o que o jornalista menos conhece. Ele imagina o que seria seu público-leitor naquele momento, mas as pesquisas de audiência sobre quem lê O Globo, Folha, etc. são muito incipientes. É um leitor imaginado, de fato, que se tornou uma obsessão com a questão atual das métricas online.

Isso impacta a economia e a política do clique, com o jornalista, muitas vezes, abrindo mão da centralidade do seu papel. Também tem a ver com o fim das homepages. Você tem que agradar ao público por onde ele circula, nas mídias sociais. Essas mídias impactam o consumo da notícia pela questão dos grupos e das segmentações sociais – você vai ter a família, os vizinhos, os amigos próximos que produzem e disseminam informações.

Impacta também na ética profissional, especialmente na verdade – o principal e mais delicado valor do jornalismo, como dizem Bill Kovach e Tom Rosenstiel [autores de Os Elementos do Jornalismo]. Ela é tão cara que, nesse impasse que o jornalismo vive, ganha notoriedade. O aparecimento do termo fake news é um sintoma de como a crise ética atravessa a produção da informação jornalística de cabo a rabo, em todos os seus momentos, desde a concepção até o seu modo de consumo.

Pensando em alguns valores que você já expôs como centrais na prática jornalística contemporânea – o individualismo e a obsessão pelo tempo real, por exemplo -, qual papel você considera que pode ser desempenhado pelo jornalismo?

Essa é uma questão complicada. É sempre mais fácil fazer o diagnóstico da situação do que, de fato, propor uma saída. É um debate que eu tenho com meus alunos, porque fica parecendo que, quando a gente circunscreve um determinado modo de fazer jornalismo – canônico, no sentido normativo, que você expulsa outras produções, quase um modo sagrado –, termos como “jornalismo amador” parecem uma oposição ao “jornalismo profissional”. Este, na verdade, é “o” lugar de dizer a verdade – e há questões epistemológicas, políticas e éticas seriamente envolvidas nisso.

Mas acho que algo que evitamos utilizar, no caso do nosso grupo, é essa ideia de que o jornalismo está em crise. O jornalismo, na verdade, atravessa impasses que advêm do campo da técnica, porque há uma mudança na produção da informação jornalística com a questão do digital. E a técnica, por sua vez, também impacta diretamente na questão ética e no ethos. Impacta no modo de habitação de mundo dessa categoria profissional e seu lugar na sociedade contemporânea. É diferente da sociedade moderna, quando seu papel era mais claro porque ela mesma lhe outorgou, como categoria profissional, o lugar de produção e circulação do “discurso verdadeiro”, como diria Michel Foucault. O profissional estava embutido de certas normas deontológicas e desenvolve uma metodologia, conforme Walter Lippmann, um método de produção do discurso verdadeiro. Podemos contestar, mas, de fato, o jornalismo cria o método da objetividade, seja como ritual estratégico, pela vertente de Gaye Tuchman, seja como efeito da verdade, retomando a vertente foucaultiana.

A ideia de Lippmann é interessante porque você produz informação de qualidade para que o cidadão tenha capacidade, em um espaço público, de decidir os rumos da sociedade. É esse projeto que entra em crise junto com a própria noção de democracia na contemporaneidade. O que está em crise, portanto, não é apenas o jornalismo, mas o projeto moderno e todas as questões que o acompanham – ecologia, migrações, convivência com o diferente.

Nesse sentido, os impasses do jornalismo contemporâneo refletem a própria crise da modernidade. É muito difícil fazer um prognóstico para onde ele vai; é mais fácil olharmos as questões que ele nos apresenta agora, e que tem a ver com as características do individualismo, presentificação, valorização do tempo real. De qualquer forma, para quem pesquisa jornalismo, esse é um momento muito interessante, com diversas gamas abertas.

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