Ricardo José Torres
Doutorando em Jornalismo no POSJOR e pesquisador do objETHOS

“A vocação humana para a excelência abarca seu ser e seu fazer. Ser excelente como pessoa é a base para ser excelente como profissional”. Esta é uma das afirmações do jornalista Javier Darío Restrepo, diretor do Consultório Ético, da Fundação Gabriel García Márquez para o Novo Jornalismo Iberoamericano (FNPI) desde 1995, professor da Universidad de Los Andes e colunista dos jornais El Tiempo, El Espectador, El Colombiano e El Heraldo. Restrepo é uma das principais referências em ética jornalística da América Latina e já recebeu diversos prêmios, entre eles o outorgado pelo Centro Latinoamericano de Jornalismo (Celap). Em 2014, foi reconhecido pelo Prêmio Gabriel García Márquez de Jornalismo e ano seguinte, recebeu o título de Doutor Honoris Causa da Universidad San Andrés, de La Paz, Bolívia. Restrepo é autor de mais de 20 livros com destaque para os dois volumes de El Zumbido y El Moscardón, que reúnem respostas compiladas do Consultório Ético da FNPI, onde já respondeu mais de 1500 perguntas sobre dilemas éticos da profissão.

Na entrevista a seguir, o experiente Restrepo aborda temas como desafios da tecnologia e as responsabilidades dos jornalistas com suas fontes, públicos e informações.

O senhor tem mais de 50 anos de carreira no jornalismo. Neste período, qual foi o principal dilema ético que enfrentou?

Não é o principal, mas sim o mais frequente: é o dos efeitos que pode gerar uma informação, como no caso de coberturas como a da avalanche de Armero [em 1985, 20 mil pessoas de um povoado de 29 mil morreram em consequência da erupção de um vulcão na Colômbia], ou aqueles que aconteceram em cenários de guerra. O dilema era informar primeiro para gerar impacto ou pensar primeiro nos efeitos possíveis e depois informar?

Como uma das principais referências de ética jornalística da América Latina, quais são os dilemas éticos mais significativos no contexto latino-americano hoje?

As estatísticas regulares sobre as questões de consulta no Consultório Ético da FNPI indicam os temas de responsabilidade como os mais frequentes. E entre eles os que representam as imagens de violência: Devemos usá-las? Como? E como substituí-las?

As mídias sociais impuseram desafios à atividade jornalística. Quais as principais questões éticas que emergem da atuação dos jornalistas nesses ambientes?

A grande debilidade da informação digital está nas fontes em que se apoia. É uma informação que, geralmente, se difunde sem fontes. O jornalista que usa essa informação tem a obrigação de buscar outras fontes para confirmar, apesar da tendência de atribuir autoridade a estas informações. O outro desafio é o imediatismo. Se a tecnologia digital quase conseguiu suprimir a categoria tempo, esse é um fator que o jornalista também quer suprimir apesar de que a notícia completa, como o pensamento, necessita de tempo.

Em algumas de suas declarações públicas, o senhor destaca que “nascemos para ser excelentes”. Como isso se aplica ao jornalismo?

A vocação humana para a excelência abarca seu ser e seu fazer. Ser excelente como pessoa é a base para ser assim também como profissional. Acabo de ler em [Paul] Ricoeur que se o homem tem história é porque trabalha. São inseparáveis o ser e o fazer. Portanto, a excelência pessoal corresponde à excelência em fazer, no exercício profissional. A ética como vocação para a excelência afasta o jornalista definitivamente do fazer rotineiro e do medíocre, e exige sempre o grau máximo de qualidade profissional.

O senhor já respondeu a mais de 1500 perguntas no Consultório Ético. O que o motivou a criar o projeto? Qual a importância de espaços como esse para a atividade jornalística na América Latina?

Foi uma iniciativa de Jaime Abello [jornalista e presidente da FNPI] depois de observar como nas oficinas e cursos de ética surgiam numerosas perguntas. O fundamento é que em ética não existem últimas palavras. É um fazer que diariamente cria possibilidades novas e onde não cabe a imobilidade dos dogmas. Tenho a impressão de que tem sido um instrumento mobilizador para a consciência profissional dos jornalistas.

Nas últimas décadas, a atividade jornalística está cada vez mais concentrada em dispositivos eletrônicos. Na sua opinião, essa característica está desumanizando os conteúdos jornalísticos?

O dispositivo eletrônico não é bom nem mau. O que define isso é o uso que se faz dele. Quando o uso traz consigo a eliminação ou degradação das faculdades humanas, o dispositivo se converte em um elemento desumanizante. Basta ver o que acontece com os gravadores quando o jornalista renuncia a sua capacidade crítica e se limita a gravar e degravar o que foi dito. O mesmo acontece com celulares e tablets quando se convertem em brinquedos que se isolam dos demais.

Em diferentes contextos e regiões do mundo, percebemos formas de censura e restrição de liberdades, enfraquecimento da democracia, retrocessos e intolerância. Qual o papel do jornalismo nessas circunstâncias?

As limitações à liberdade de expressão podem dar lugar a distintas reações: a) o coro monótono que reivindica a liberdade dos governos; b) a autorreflexão sobre as causas da restrição, para investigar se se devem a falhas dos jornalistas por exemplo, abusos de informação; c) o fortalecimento da liberdade pessoal a partir da convicção de que a liberdade não nos é dada por ninguém, nem retirada. Os governos devem se limitar a não desordená-la e o jornalista deve tomar consciência de que a liberdade é um trabalho pessoal e constante. Nunca se tem a liberdade, sempre se planeja construí-la porque quando ela não cresce, decresce.

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